A eleição dos presidentes e vice-presidentes das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCRD), agendadas para segunda-feira, dia 12, parecia um passeio pela avenida. PS e PSD terminaram em inícios de dezembro uma negociação discreta, que teve a participação do líder socialista, José Luís Carneiro, e do ministro da Economia e Coesão Territorial, Castro Almeida, conforme noticiou o Expresso.
O acordo previa a divisão do país em dois, tendo em conta o peso autárquico de 136 presidências de Câmara do PSD e 127 do PS.
Para os socialistas, as CCDR de Lisboa e Vale do Tejo (Teresa Almeida), do Alentejo (Ricardo Pinheiro) e do Algarve (José Apolinário). Para o partido do Governo, as presidências das CCDR do Centro (Ribau Esteves) e do Norte (Álvaro Santos).
Parecia um passeio pela avenida, mas nos últimos dias, precisamente a norte, o arranjo complicou-se com a aparição de um candidato independente à presidência da CCDR.
Ao escolhido Álvaro Santos, que para o efeito se demitiu do cargo de vereador na Câmara de Gaia, onde estava desde as autárquicas de 12 de outubro, juntou-se o incumbente António Cunha, ex-reitor da Universidade do Minho — que tem vindo a juntar vários quadrantes por não se conformar com a falta de apoio do PSD.
Álvaro Santos garantiu-nos esta semana que a viabilização da sua candidatura «resulta de uma proposta conjunta do PS e do PSD, que dominam a esmagadora maioria dos municípios da região norte, o que naturalmente não é uma imposição do sentido de voto, mas uma orientação».
Ainda em dezembro, o autarca de Gaia, Luís Filipe Menezes, tinha escrito nas redes sociais que a candidatura de Santos só avançou por ter a concordância de PS e PSD.
Porém, António Cunha contrapôs agora ao Nascer do SOL que «o acordo genérico dos dois partidos sobre a lista de candidatos faz com que esses candidatos consideram que têm o apoio do PSD e do PS». Sugere, portanto, que não têm.
António Cunha foi escolhido há cinco anos para presidente da CCDR Norte por sugestão do então líder social-democrata, Rui Rio, quando aquele cargo era de nomeação e não eletivo. Reconhece que desta vez algo «não correu muito bem aqui», pois a indicação de Álvaro Santos pelo PSD «não teve em conta as estruturas partidárias, que não foram ouvidas». Sublinhou-nos que colhe «apoios muito claros de muitos autarcas do PS e do PSD».
Um manifesto apresentado há dias pôs ao lado do ainda presidente da CCDR Norte nomes como os de Alexandre Quintanilha, Artur Santos Silva, Daniel Bessa, Isabel Pires de Lima, Miguel Cadilhe e Sobrinho Simões. É uma das razões que o levam a afirmar que Álvaro Santos «não tem uma aceitação generalizada na região norte».
Por seu turno, o candidato oficial acusou Cunha de ser ver como «presidente do Norte de Portugal» e de ser «antagonista do modelo de funcionamento da CCDR». Atirou ainda que os fundos europeus do programa Norte 2030, que começou em 2021 e termina em 2027, tem uma taxa de execução de apenas 8,3%, de um volume global de 3,4 mil milhões de euros, por responsabilidade de Cunha.
Os dois engenheiros
Os dois contendores não têm especial proximidade, até porque só se conheceram pessoalmente há poucas semanas. São ambos engenheiros.
Álvaro Santos, de 57 anos, licenciou-se em Engenharia Civil pela Universidade do Porto e fez um doutoramento em Ecologia e Saúde Ambiental pela Universidade Fernando Pessoa. Por sua vez, António Cunha, de 64 anos, fez uma licenciatura em Engenharia de Produção pela Universidade do Minho e doutorou-se em Ciência e Engenharia de Polímeros. Chegou a reitor da Universidade do Minho, entre 2009 e 2017.
As urnas abrem às quatro da tarde e fecham às oito da noite de segunda-feira. O colégio eleitoral para os presidentes das CCDR é composto por presidente de Câmara, vereadores, deputados municipais e presidentes de Junta. São cerca de 4.100 na região Norte, que podem votar em 86 urnas nas Assembleias Municipais. É previsível que os resultados sejam conhecidos noite dentro.
Também problemática poderá vir a ser a eleição de Ricardo Pinheiro para a CCDR Alentejo, em substituição de Ceia da Silva. O PCP fez saber na última quarta-feira que os seus eleitos na região se recusam a votar para a CCDR, por entenderem que os nomes escolhidos resultam de um «negócio» do bloco central.
No caso do Alentejo, tal suposto negócio «adquire ainda maior gravidade e caráter antidemocrático, dada a correlação de forças existente na região», em que a coligação que junta comunistas e Os Verdes, a CDU, «é a segunda maior força no colégio que elege o presidente», sustentou o PCP num comunicado citado pela Agência Lusa.