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José Luís Carneiro, secretário-geral do Partido Socialista, vai votar em si próprio neste sábado, dia 14 de março, na sede da concelhia do partido em Baião, no distrito do Porto, nas diretas que decorrem entre hoje e amanhã. Fá-lo-á à tarde e, à noite, estará na sede nacional, no Largo do Rato, para uma declaração pública em que, muito provavelmente, indicará a forma como o partido se prepara para os desafios mais imediatos, ‘sem pressa’ de chegar ao poder, mas a pensar nos problemas concretos das pessoas, num desígnio amplo que passa por pensar mais o país e menos as eleições.
No domínio das boas intenções, o Congresso Nacional do PS, que se realiza em Viseu nos dias 27, 28 e 29 de março, manterá uma sala paralela aos trabalhos partidários, com conferências e eventos abertos à sociedade civil, com a participação de personalidades independentes a debater os principais temas que inquietam os portugueses, como habitação, saúde, justiça ou defesa e segurança. Os Estados Gerais – uma iniciativa que os socialistas encaram sempre com indisfarçável otimismo – estão marcados para o verão.
Voltemos atrás. José Luís Carneiro escolhe Baião, a terra onde nasceu em outubro de 1971, para votar nas diretas que o confirmam como secretário-geral – também porque é candidato único – e só se estivéssemos muito distraídos é que não perceberíamos o simbolismo do gesto – proximidade, ligação ao país real, atenção às desigualdades regionais, crítica às elites de Lisboa. E menos distraídos estávamos quando alguém ligado à atual direção do partido nos disse, mais do que uma vez, que o «PS não tem pressa em chegar ao poder», levando-nos até a olhar para o discurso inaugural do novo Presidente da República, António José Seguro, como um discurso que poderia ter sido feito pelo secretário-geral socialista.
«Não falo de unanimismos artificiais. Não falo de apagar diferenças ideológicas. Falo de maturidade democrática. Pretendo que se coloque o interesse nacional acima da lógica de curto prazo e de interesses eleitorais», disse o PR no discurso de posse na Assembleia da República. É previsível que estes e outros recados sejam recebidos pelos socialistas sem estranheza, numa altura em que se permitem tomar a vitória de Seguro como uma vitória do seu espaço ideológico, enraizado na tradição social-democrata e reformista – palavra hoje em saldo na política portuguesa –, numa posição ‘moderada’, ‘humanista’, ‘ponderada’ e ‘responsável’.
Olhar hoje para o Partido Socialista – que em 50 anos de democracia governou durante 23 – significa ler as diversas camadas que, à maneira da arqueologia, fazem a história do partido. As mais recentes – guterristas e seguristas, socratistas, costistas ou pedronunistas – estão, também por omissão, congregadas numa tendência única que Carneiro quer que seja de rutura, mas que na verdade se pode revelar apenas a mais adequada ao momento. Mais do que construir uma alternativa de poder, trata-se de uma luta pela sobrevivência. Escrevemos isto sem má vontade, antes apoiados na realidade europeia que tem vindo a condenar os partidos socialistas a uma relativa irrelevância.
Por agora, e ainda quanto às diversas tendências internas socialistas, que já provaram o poder e experimentam agora a oposição, não significa que não existam. Estão latentes, também sem pressa, resignadas a uma liderança de circunstância que fará tudo o que é possível – e tentará o impossível – para transformar um homem velho para os jovens num político para os novos tempos e para alargar uma base eleitoral que escapa ao centro para se refugiar nos extremos.
Contamos com todos é a moção que José Luís Carneiro apresentará ao Congresso Nacional em Viseu que, sabe o SOL, tem a mão de um costista, André Moz Caldas, e coloca o PS no caminho de um «partido progressista, humanista e moderado», preparado para ser alternativa e recuperar o centro-esquerda.
Temos, então, que estas tendências ou estão integradas ou, quando não estão, não agem de forma sorrateira: estão apenas relutantes. Deixam que Carneiro evoque os seus nomes para os órgãos nacionais do partido a eleger no congresso deste mês – falamos de Fernando Medina ou Duarte Cordeiro – mas não fazem questão, sublinhando que têm vida própria, e esperam. Esperam que a oposição ‘firme mas colaborante’ do atual secretário-geral leve o partido a algum lado, não absolutamente crentes de que será novamente ao poder, porque leem o país e a atualidade política e sabem que a rotação histórica no poder entre PS e PSD acabou.
José Luís Carneiro tem vindo a empurrar para a AD e para o Chega todos os fatores de instabilidade política, mas alinhado com o PR na necessidade de estabilidade e consensos. Ainda assim, critica a «falta de humildade democrática» do Governo na negociação da nova legislação laboral e na incapacidade de chegar a entendimento com os parceiros sociais.
Nada disto é assumido explicitamente, mas a discussão do pacote laboral – que, como está, não será aprovado pelos socialistas – pode dar ao PS a oportunidade de recuperar protagonismo numa questão que, entretanto, perdeu para o Chega.
Falámos com Francisco César, que, naturalmente, discorda desta leitura. O partido liderado por André Ventura só tem protagonismo porque o Chega «surpreendeu» ao assumir uma posição diferente da inicialmente indicada, disse-nos. Garante que o PS foi e continuará a ser muito vocal nas críticas a uma reforma que, de uma forma ou de outra, afeta todas as gerações de trabalhadores, é contraintuitiva, provoca enorme mal-estar e assenta em pressupostos inaceitáveis.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, num momento que parece de frenesim político, decidiu colar o PS à UGT e o Chega à CGTP. Não é uma colagem completamente absurda – faz sociologicamente sentido. As classes trabalhadoras são hoje um eleitorado disputado pelo PS e pelo Chega. Não resolve o problema do Governo e nem dará mais alento à Concertação Social, mas podemos antecipar que tornará o debate parlamentar interessante.
Em modo sobrevivência
«O PS já cometeu todos os erros que podia cometer», disse-nos um socialista crítico da atual liderança, que não prevê grande futuro para o partido. A mesma fonte adianta que o PS só voltará ao poder coligado com o PSD. Aliás, torna-se cada vez mais notória uma corrente que aponta nesse sentido: há contactos entre socialistas inquietos, sociais-democratas insatisfeitos e até seguristas que ganharam novo alento.
Os resultados das próximas legislativas, no tempo normal do ciclo democrático, muito provavelmente confirmarão o atual tripartidarismo. Mesmo que seja o partido mais votado, o PS dificilmente chegará perto dos 40% e, menos ainda, poderá contar com a esquerda – cada vez mais inexpressiva – para governar.
Por sua vez, o PSD tem sido empurrado para uma eventual coligação à direita, com a extrema-direita, que – a seguir-se a tendência europeia – cresce em vários países, da Itália à Alemanha e até no Reino Unido, e não há nada que indique que esta tendência venha a inverter-se. Em Portugal, em 2029, o Chega pode passar a partido mais votado. Entretanto, o PS escolhe o caminho da moderação num tempo em que a política pertence aos imoderados.