Entre a chuva e as sondagens, cresce o risco de abstenção nas presidenciais, alertam politólogos

A segunda volta, marcada para 8 de fevereiro, acontece num contexto marcado por condições meteorológicas adversas e por um cenário eleitoral aparentemente previsível, o que pode desmotivar a ida às urnas.
Entre a chuva e as sondagens, cresce o risco de abstenção nas presidenciais, alertam politólogos

O mau tempo previsto para os próximos dias, a vaga de destruição provocada pela tempestade Kristin e as sondagens que apontam para uma vantagem confortável de um dos candidatos poderão contribuir para um aumento da abstenção na segunda volta das eleições presidenciais. A opinião é partilhada por vários politólogos ouvidos pela agência Lusa.

A segunda volta, marcada para 8 de fevereiro, acontece num contexto marcado por condições meteorológicas adversas e por um cenário eleitoral aparentemente previsível. Para os especialistas, estes fatores podem desmotivar parte do eleitorado e afastar muitos cidadãos das urnas.

A tempestade Kristin, que atingiu Portugal continental com mais intensidade a 27 de janeiro, provocando danos significativos sobretudo na região Centro, acabou por alterar o rumo da campanha. O impacto da destruição desviou a atenção mediática do debate político e obrigou os candidatos, António José Seguro e André Ventura, a reformularem as suas agendas.

Desde então, ambos têm privilegiado visitas às zonas afetadas, ações solidárias e recolhas de donativos, deixando em segundo plano as tradicionais iniciativas de campanha, como arruadas, contactos diretos com eleitores ou visitas a feiras e mercados. Em vários casos, materiais inicialmente destinados à propaganda eleitoral foram utilizados para ajudar as populações, como lonas transformadas em coberturas provisórias.

Para o politólogo António Costa Pinto, cada candidato reagiu de acordo com o seu perfil político. Segundo explicou, Seguro procurou mostrar “como será o futuro Presidente da República”, enquanto Ventura adotou “o modelo clássico da direita radical populista”, recorrendo a críticas dirigidas aos ministros e às instituições.

Ainda assim, o investigador considera que a situação não favoreceu nenhum dos dois. Na sua perspetiva, o principal adversário nesta fase não é o outro candidato, mas sim a abstenção. A falta de um representante claro do centro-direita nesta segunda volta e a perceção de uma “vitória quase garantida” de Seguro, apoiado pelo PS, poderão afastar muitos eleitores.

A investigadora Susana Salgado, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, partilha das mesmas preocupações. Na sua análise, o mau tempo e os resultados das sondagens, que indicam que a disputa “não vai ser renhida”, contribuem para a ideia de que o resultado já está decidido.

“A abstenção poderá influenciar os resultados e poderá trazer maior ou menor legitimidade ao próximo Presidente da República”, alertou.

Segundo a especialista em comunicação política, um chefe de Estado eleito com fraca participação poderá ter menor peso político junto dos restantes atores institucionais e junto da população. No entanto, Marina Costa Lobo, também politóloga, relativiza esse risco, lembrando que a legitimidade de um Presidente eleito em duas voltas dificilmente é posta em causa.

“Será sempre visto como alguém que, num contexto de imprevisibilidade e competição, chegou à segunda volta e, depois, venceu a confiança dos portugueses”, sublinhou.

Os dois concorrentes enfrentam agora o desafio de mobilizar os eleitores que apoiaram outros candidatos na primeira volta e que podem sentir-se menos motivados nesta fase decisiva.

Na primeira votação, realizada a 18 de janeiro, António José Seguro obteve 31,11% dos votos, correspondentes a 1.755.563 eleitores, enquanto André Ventura reuniu 23,52%, com 1.327.021 votos.

A segunda volta decorre a 8 de fevereiro, depois de o voto antecipado ter tido lugar no domingo anterior, dia 1 de fevereiro. O candidato vencedor irá suceder a Marcelo Rebelo de Sousa, eleito em 2016, que termina o seu segundo mandato presidencial em março.