quinta-feira, 12 fev. 2026

Despe a farda, veste a farda, a caminho de Belém

Henrique Gouveia e Melo acredita que, nas urnas, os portugueses não vão esquecer-se do que fez por eles durante a pandemia da covid-19, ao liderar com reconhecido sucesso o processo de vacinação.
Despe a farda, veste a farda, a caminho de Belém

Iniciamos este perfil possível de Henrique Gouveia e Melo evocando Karl Marx, a propósito das referências que o almirante tem feito ao general Ramalho Eanes. Todos conhecemos a frase: "A história repete-se, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa", que Marx escreveu a propósito do 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Em 1851, o sobrinho de Napoleão I, Luís Napoleão Bonaparte, derrubou a Segunda República Francesa e proclamou-se imperador como Napoleão III, numa imitação do nome e dos símbolos, mas sem a grandeza histórica e pessoal do tio. Se Napoleão I é História, o sobrinho é apenas nota de rodapé de uma autocracia de retórica populista. Desde sempre e ainda hoje, temos demasiados líderes que se assumem como figuras salvíficas inspiradas em personagens do passado, algures entre a encenação e a substância.

Temos uma história democrática recente, com cerca de 50 anos, talvez por isso nunca como nesta campanha – ainda por cima para um cargo unipessoal, o de Presidente da República – tenham sido evocadas tantas figuras políticas, vivas ou mortas, pelos novos atores em cena.

Henrique Gouveia e Melo foi um deles. Escolheu duas referências: primeiro Mário Soares, o que não surpreende se tivermos em conta que é no eleitorado socialista que vai buscar a maior fatia de intenções de voto para as Presidenciais de 2026; a outra é o general António Ramalho Eanes, um militar como ele, mas que emergiu politicamente num contexto histórico completamente diferente. Esta evocação tem tanto de benefício como de risco. Ainda assim, sejamos justos, não há aqui desonestidade, porque Gouveia e Melo reflete um imaginário popular que tende a ver no almirante uma reencarnação de Eanes.

Gouveia e Melo falou de Ramalho Eanes antes mesmo do início da campanha eleitoral, numa longa entrevista à Lusa, onde sublinhou a importância histórica do general na consolidação da democracia portuguesa, assumindo-o como uma referência simbólica da sua candidatura. Afirmou então que, sem Eanes e sem Mário Soares, o país "não teria a democracia" que tem hoje. Colocou o general – membro do Conselho da Revolução – entre as figuras decisivas para a estabilização do regime saído do 25 de Abril, reconhecendo o papel do seu mandato na contenção de tensões e na afirmação das instituições democráticas.

Já na última semana da campanha, Gouveia e Melo voltou a evocar Eanes num almoço com fuzileiros, sem farda, para agradecer "o muito que deu" ao país. No mesmo contexto, usou o antigo Presidente como contraponto de exigência institucional e responsabilidade política, ao tecer duras críticas ao atual Governo, nomeadamente na área da Saúde.

As referências a Eanes poderiam ter ficado por aí, mas na noite seguinte Gouveia e Melo sentiu necessidade de clarificar a sua posição quanto à eventual criação de um partido político, afastando o fantasma da tentação eanista que deu origem ao PRD, em 1985. O Partido Renovador Democrático teve então um sucesso eleitoral assinalável, foi decisivo para a queda de um Governo de Cavaco Silva dois anos depois, mas acabou por desaparecer poucos anos mais tarde.

"Eu disse já diversas vezes que nunca faria da presidência a criação de um partido", garantiu Gouveia e Melo à chegada a um jantar em Oeiras, em que também afirmou querer ter "uma voz e uma participação cívica na sociedade", fora dos partidos, sublinhando que nunca fundará nem integrará uma força partidária. No entanto, na véspera, em entrevista ao programa Prova Oral, da Antena 3, o candidato não foi tão cristalino quanto à possibilidade de criar um partido ou movimento cívico no caso de perder as eleições.

Gouveia e Melo sempre recusou a ideia de criar um partido político, ao mesmo tempo que garante que nunca será um "cavalo de Troia" de qualquer força partidária em Belém. Assume-se como candidato independente, repetindo que "o meu partido é Portugal". Candidatou-se fora dos partidos, mas à medida que a possibilidade de chegar à segunda volta – ou mesmo de vencer – se torna possível, começa a ponderar o que fazer com a adesão popular que recolheu nas ruas. E aqui fala o matemático, faz contas aos votos possíveis, e o político em que, entretanto, se transforma começa a equacionar o seu futuro. Também neste ponto, Eanes surge como exemplo. 

Não será a primeira vez que Henrique Gouveia e Melo se olha ao espelho e se pergunta onde quer estar dentro de cinco anos. Em fevereiro de 2021, o vice-almirante ponderava o caminho natural até ao cargo de Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), onde viria a chegar, mas com um desvio de rumo decisivo que o conduziu à candidatura presidencial.

Nessa altura, o país enfrentava a fase mais dura da pandemia de covid-19. O Governo de António Costa chamou Gouveia e Melo para liderar o processo de vacinação de mais de nove milhões de portugueses. Uma tarefa hercúlea, executada com sucesso, que criou uma figura quase mítica no imaginário coletivo.

Henrique Eduardo Passaláqua de Gouveia e Melo nasceu a 21 de novembro de 1960, em Quelimane, Moçambique. De acordo com a árvore genealógica elaborada a partir de uma investigação do Observador em parceria com a Associação Portuguesa de Genealogia, o almirante tem antepassados comuns com Cristiano Ronaldo e André Ventura. A linhagem cruza mulheres e homens do povo, pequena nobreza e clero, com origens em Itália, Angola e Moçambique, inclui integralistas, liberais conservadores e até comunistas – um retrato plural de uma família marcada por muitos homens do mar.

Há ainda um tio assumidamente salazarista, Álvaro de Gouveia e Melo, que foi governador interino de Moçambique e que, em 1968, passou a pasta ao governador-geral do território, Baltazar Rebelo de Sousa, nomeado por Marcello Caetano. Pai do atual Presidente da República, Baltazar Rebelo de Sousa manteve Álvaro de Gouveia e Melo como secretário-geral do Governo do então território ultramarino português. 

Muitos anos depois, já em democracia, passaria novamente pelas mãos de Marcelo Rebelo de Sousa a decisão política de manter – ou não – o sobrinho de Álvaro Gouveia e Melo no cargo de chefe do Estado-Maior da Armada. Também aqui, a história parece repetir-se com um certo tom de farsa, episódio que ocupou várias páginas de livros recentemente publicados e muita polémica nos media, em que se descreve o papel de Marcelo Rebelo de Sousa a empurrar Gouveia e Melo da corrida presidencial em que, afinal, ele próprio muito desejava participar.

Depois de várias tensões com o atual Presidente da República, Gouveia e Melo teve um vislumbre de si próprio montado num cavalo branco a entrar em Lisboa rumo a Belém, à imagem de Gomes da Costa, em maio de 1926, momento fundador do Estado Novo. Em ciclos de meio século, um militar em Belém não é estranho aos portugueses. De Gomes da Costa a Costa Gomes, com Eanes a abrir um novo ciclo democrático, a Presidência é um cargo civil que pode ser ocupado por um militar. Gouveia e Melo tem razão quando afirma que não se deve partir de um "pressuposto preconceituoso" de que os militares estão inibidos de ser políticos após o fim da carreira. Não estão. Mas em democracia a tarefa é mais difícil: não basta ser nomeado, é preciso ser eleito.

Após a vacinação, Gouveia e Melo regressou à Marinha e assumiu funções como CEMA, mas começou a fazer outras contas a outra vida. Em entrevistas e artigos de opinião, expôs um pensamento próprio sobre a Presidência e o país. Num desses textos escreveu que "transformar a Presidência num apêndice dos interesses partidários é uma ameaça à capacidade da democracia liberal de manter um sistema equilibrado e funcional", acrescentando que "nenhum Presidente pode ser verdadeiramente ‘de todos’ se estiver claramente associado a uma fação política".

Hoje, depois de uma campanha sem máquina partidária, mas com uma oleada máquina de comunicação política, é provável que Gouveia e Melo tenha percebido que, em democracia, o "todos" começa quase sempre por ‘"alguns".