A desinformação associada às eleições presidenciais soma, desde novembro de 2025, mais de 7,7 milhões de visualizações nas redes sociais, sendo André Ventura responsável por 85,7% dos casos identificados,. A conclusão é de um estudo do LabCom — Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior (UBI).
O estudo, desenvolvido no âmbito do ODEPOL — Observatório de Desinformação Política, monitoriza conteúdos relacionados com a presença digital de pré-candidatos e candidatos nas principais redes sociais em Portugal — Facebook, Instagram, X, TikTok, Threads e YouTube — e começou a ser elaborado a 17 de novembro de 2025, dia do primeiro frente-a-frente televisivo entre André Ventura e António José Seguro.
De acordo com os investigadores João Canavilhas, coordenador do LabCom, e Branco Di Fátima, jornalista e investigador do laboratório, os conteúdos desinformativos tiveram 7.712.000 visualizações, 324.555 reações, 51.922 comentários e 24.543 partilhas.
Para os autores do estudo, estes números “evidenciam um elevado envolvimento dos utilizadores com conteúdos desinformativos” e um “impacto expressivo no espaço público digital”.
Ao longo de quatro semanas de pré-campanha e durante a campanha eleitoral, foram identificados 14 casos de desinformação. André Ventura, candidato apoiado pelo Chega, concentra 85,7% desses casos, enquanto os restantes dizem respeito a pré-candidatos que não foram aceites pelo Tribunal Constitucional, como Joana Amaral Dias.
O vídeo foi o formato predominante, presente em 71,4% dos casos, seguido das fotografias, com 28,6%.
Quanto ao tipo de desinformação, os investigadores identificaram sobretudo conteúdos de descredibilização dos media e dos jornalistas (42,9%), seguidos de conteúdo manipulado (28,6%), falsificação de informação (21,4%) e uso de contexto falso (7,1%).
A plataforma X concentrou 92,9% dos casos, enquanto o TikTok registou 21% e o Threads 28,6%.
Um dos episódios com maior impacto envolveu um vídeo partilhado por André Ventura no dia 1 de janeiro, que ultrapassou um milhão de visualizações, com especial destaque no Instagram. O vídeo, originalmente publicado pelo jornal espanhol OK Diario, mostrava um incêndio na Igreja de Vondelkerk, em Amesterdão, na noite de Ano Novo.
No conteúdo original, era avançada a alegação de que o fogo teria começado após “vários imigrantes lançarem fogos de artifício” sobre o edifício — que deixou de acolher cerimónias religiosas em 1977 e funcionava como centro cultural. No entanto, André Ventura acrescentou à publicação a legenda “islamização da Europa”, estabelecendo, segundo o relatório, “uma ligação direta entre o incidente e a comunidade muçulmana”.
O vídeo atingiu 1.028.534 visualizações, gerou 40.250 reações, 6.197 comentários, 3.487 partilhas e um alcance estimado de 436.167 utilizadores únicos.
Para os investigadores, citados pela agência Lusa, este caso “ilustra de forma exemplar como a introdução de uma moldura ideológica pode amplificar narrativas informativas” e acelerar a sua disseminação, reforçando “a necessidade de monitorização contínua ao longo de todo o processo eleitoral”.
O OK Diario não estabelecia qualquer ligação à comunidade muçulmana e acabou por editar a publicação após críticas de leitores.
As eleições presidenciais, disputadas por um número recorde de candidatos, realizam-se este domingo.