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Marcelo Presidente, em fim de ciclo, prepara-se para entrar numa rotina diferente sem compromissos oficiais, mas depois da tomada de posse do sucessor, António José Seguro, no dia 9 de março, vai continuar a viver na casa de Cascais, em que é inquilino há cerca de quatro décadas. Longe estará o desejo que exprimiu em entrevista ao Expresso há quase 30 anos, em 1 de novembro de 1996: «Não desconto a hipótese de um dia, velho, com os meus filhos casados, entrar num mosteiro para acabar os meus dias».
O imóvel situado no centro da vila de Cascais carece de obras devido a infiltrações. O terraço pede impermeabilização e as recentes tempestades fizeram entrar água na zona do escritório.
Por enquanto, o ainda Presidente da República, que é inquilino e não proprietário da sua residência, e que dali se ausentou apenas durante a pandemia para viver no Palácio de Belém, não deverá fazer mais obras.
Sabe-se que em 2028 planeia viver uma temporada nos EUA como professor convidado de uma universidade na Califórnia, conforme o próprio revelou em novembro último, o que acontecerá mesmo em cima da realização dos Jogos Olímpicos de Los Angeles.
Ainda no que a questões imobiliárias diz respeito, tudo indica que Marcelo Rebelo de Sousa pretende legar a Seguro um Palácio de Belém remodelado, com decoração e logística atualizadas.
Os serviços da Presidência têm-se afadigado na compra de mobiliário, peças de decoração e serviços de manutenção. Tudo contratado desde o início de dezembro de 2025 até meados de janeiro deste ano, em quase todos os casos através de ajuste direto, como mostram os registos online do Portal Base da contratação pública.
Em concreto, a Presidência da República adjudicou a compra de sofás para gabinetes (18,3 mil euros em 13 de janeiro), tapeçarias novas para um anexo do palácio (18,6 mil euros em 7 de janeiro), serviços de reabilitação das clarabóias originais do palácio e de um anexo (39,2 mil euros em 22 de dezembro).
Comprou ainda mobiliário da conhecida marca Olaio (40,1 mil euros em 19 de dezembro), cortinas para a Sala das Bicas (8,7 mil euros em 10 de dezembro), novos projetores de luz para a secretaria-geral (12 mil euros em 3 de dezembro) e ainda serviços de fornecimento e assentamento de heras em canteiros vagos (7,3 mil euros também em 3 de dezembro).
Por junto, cerca de 144 mil euros.
António José Seguro vai também encontrar novas obras de arte nas paredes. Belém tem em depósito praticamente todo o património cultural de que dispõe, mas alguns quadros foram emprestados durante os dois mandatos de Marcelo e serão retirados nas próximas semanas.
Foi entendimento do Presidente cessante que as paredes não deveriam ficar vazias ou na dependência de empréstimos de pessoas ou entidades. Daí uma recente decisão de comprar obras consideradas baratas de artistas contemporâneos, que contrastam com o acervo hoje existente, marcado por uma maioria de peças antigas.
Não há registo de uma tradição em que os presidentes cessantes remodelem o Palácio de Belém a tempo de receberem o seguinte chefe do Estado. É sabido que no primeiro mandato de Ramalho Eanes, a partir de 1976, foi feita uma campanha de obras de fundo para adaptação do edifício a residência oficial permanente.
Durante os mandatos de Jorge Sampaio, de 96 a 2006, assistiu-se a outras mudanças significativas. Além da inauguração do Museu da Presidência da República, Sampaio convidou Paula Rego a criar obras para a capela do palácio, de que resultou a oferta de oito quadros da artista.