segunda-feira, 09 fev. 2026

CDS com dificuldades para proibir bandeiras LGBT no Estado

Madeira não aceita e o próprio CDS Açores não se pronunciou. A proposta centrista quer arredar bandeiras de “movimentos ideológicos ou reivindicativos”.
CDS com dificuldades para proibir bandeiras LGBT no Estado

Crescem as dificuldades do CDS para fazer vingar um projeto de lei que proíbe bandeiras “associativas, reivindicativas, ideológicas ou de natureza circunstancial” em edifícios públicos — o que na prática impediria por exemplo o içar da bandeira LGBT, considerada um símbolo de minorias sexuais e de género.

A proposta “estabelece as regras de utilização de bandeiras em edifícios de caráter público” e diz que “apenas podem ser hasteadas ou exibidas" a bandeira nacional, a bandeira da União Europeia e as bandeiras institucionais e heráldicas.

Um dos artigos refere expressamente que “é proibida a exibição, colocação ou hasteamento” de bandeiras “de movimentos ideológicos, partidários ou reivindicativos”, “de associações civis ou privadas, mesmo que legalmente constituídas”, “de clubes desportivos, coletividades ou causas circunstanciais” e bandeiras “de origem estrangeira, exceto em atos diplomáticos devidamente protocolados”.

O projeto é subscrito pelos dois deputados do CDS à Assembleia da República, o líder parlamentar Paulo Núncio, eleito por Lisboa, e João Almeida, eleito pelo Porto. Deu entrada na Assembleia da República em 10 de outubro do ano passado.

Não só a aprovação não é garantida, como o percurso do projeto tem sido acidentado. Esteve para ser discutido em plenário logo em outubro, juntamente com a chamada “lei da burka”, do Chega, o que  acabou por não acontecer. O próprio CDS Açores, quando chamado a pronunciar-se, virou costas à iniciativa centrista.

A Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, no âmbito da qual está a ser discutida a iniciativa, tem vindo a recolher pareceres e já ouviu três entidades na Madeira e nos Açores, uma das quais está contra.

O Governo Regional dos Açores, liderado pelo social-democrata José Manuel Bolieiro em coligação com o CDS, “entende por justificado” que o projeto de lei se aplique ao arquipélago, caso venha ser aprovado pela Assembleia da República.

CDS Açores não votou

Em novembro último, a Assembleia Legislativa açoriana também “deliberou por maioria dar parecer favorável” à iniciativa. Mas a votação, feita na Comissão de Assuntos Parlamentares, não contou com a posição favorável do CDS porque o CDS Açores, que era à data representado na comissão por Pedro Teixeira Pinto, não compareceu, segundo o respetivo relatório. O deputado foi contactado pelo Nascer do SOL, mas não tinha respondido até à hora de fecho desta edição.

Em sentido contrário, a Assembleia Legislativa da Madeira, de maioria PSD, já fez saber que não quer proibir bandeiras. Há dois meses os deputados da Comissão de Política Geral e Finanças deliberaram por unanimidade “emitir parecer desfavorável”. A justificação foi especialmente hostil para com a iniciativa do CDS. Argumentaram os deputados madeirenses que a proposta “invade matéria de competência estatutária das regiões autónomas”, “cria confusão normativa entre diplomas nacionais e regionais já existentes”, "contraria o princípio constitucional da autonomia político-administrativa" e “não responde a uma necessidade efetiva”

LGBT em Lisboa

Segundo o projeto de lei do CDS refere que se tem verificado “o içar ou exibição de bandeiras não institucionais — associativas, reivindicativas, ideológicas ou de natureza circunstancial — em mastros públicos, fachadas de edifícios de caráter público ou em eventos com protocolo oficial”.

Foi o que, por exemplo, aconteceu 2016, presumivelmente pela primeira vez em Portugal, quando o grupo Cidadãos por Lisboa, com vereadores eleitos, tomou a iniciativa hastear a bandeira do arco-íris LGBT nos Passos do Concelho da Câmara de Lisboa, a propósito do dia 17 de maio, que um ano antes a Assembleia da República resolveu consagrar como Dia Nacional contra a Homofobia e a Transfobia.

Em 2017, o ato foi secundado pelo então presidente da Câmara, Fernando Medina, que o divulgou nas ruas redes sociais. 

Em 2022, quando Carlos Moedas cumpria o seu primeiro mandato à frente da autarquia, a bandeira LGBT voltou ao mastro da varanda principal dos Paços do Concelho. E o próprio presidente fez divulgar na internet a mensagem de que se tratava de “um símbolo da liberdade” e de “ser quem somos”.

Mais recentemente, Moedas foi criticado à esquerda por se recusar a levantar também uma bandeira rosada que simboliza as pessoas transexuais — a qual acabou por ser içada em 2022. Carlos Moedas disse na ocasião que respeita “os direitos trans”, mas é necessário proteger os rituais institucionais. “Quando estamos a abrir a porta a novos rituais, temos que pensar muito bem, porque todos os dias poderíamos ter aqui causas a hastear bandeiras”. 

Também como exemplo pode citar-se a bandeira LGBT em 2025 na sede da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, naquele que até há pouco foi o edifício da Presidência do Conselho de Ministros, na Rua Gomes Teixeira, em Campo de Ourique.

Para o CDS, ainda segundo a exposição de motivos do seu projeto, estamos perante uma prática que “além de carecer de previsão legal, compromete a identidade simbólica da instituição, submete-a a manifestações sociais circunstanciais, gera potenciais confusões e tensões junto da comunidade, e fere o princípio da neutralidade do Estado”.

Por isso os proponentes querem que a proibição se aplique no continente e nas regiões autónomas "a todos os edifícios, monumentos, instalações, mastros, fachadas e interiores de uso oficial", os quais pertençam ou estejam entregues ao Estado central, às autarquias, às Forças Armadas e de segurança, a empresas e institutos, a estabelecimentos de ensino público.

A fiscalização da norma ficaria a cargo das "entidades responsáveis pela gestão" daqueles espaços, sendo a violação das regras considerada uma "infração disciplinar ou administrativa".

Apesar de diversas tentativas, não conseguimos recolher a opinião do deputado Paulo Núncio.