sexta-feira, 10 jul. 2026

Bruno Nunes arregimenta hostes e provoca Ventura

Chega muda oito distritais e deputados perdem bastiões regionais. Para domingo, dia 5, estão marcadas mais eleições noutros distritos. E os ânimos estão a aquecer.
Bruno Nunes arregimenta hostes e provoca Ventura

O deputado na Assembleia da República e vereador em Loures, Bruno Nunes, envolveu-se ativamente nas eleições distritais do Chega, logrando várias conquistas. Mas, para surpresa de muitos militantes do partido, colocou um post na sua página no Facebook anunciando uma ‘saída de cena’. Na prática, a declaração de BrunoNunes traduz-se num desafio a André Ventura, de cuja direção tem vindo a afastar-se.

«Sai de cena quem não é de cena», titulou o deputado e vereador de Loures, numa mensagem muito crítica. «O propósito das causas é lutarmos por elas e acreditarmos até ao fim. Umas vezes perdemos, outras vencemos. Se saber perder é uma virtude, saber vencer é ainda maior. No final, o que importa é termos a consciência de que o fizemos com base nos princípios e nos valores que aprendemos em casa, e não na escola ou nas conveniências da vida», escreveu, acrescentando: «Sair de cena é sempre um momento importante. No fundo, é dizer a quem fica em palco: ‘Esta foi a minha última deixa neste capítulo. Agora vai. Vai com tudo e brilha. O palco é teu. A plateia aplaudir-te-á de pé’.

Ao SOL, Bruno Nunes relativiza o post, exclui qualquer saída do partido (aventada por alguns media) e qualquer rutura com André Ventura.

«É um post de Facebook. Claro que devemos respeitar quem ganha e quem perde e quem ganha deve brilhar e ir a palco», disse Bruno Nunes.

É certo que as eleições estão longe de serem pacíficas. E há distritos em que a divisão interna é mais evidente, onde deputados do partido perderam o ato eleitoral. Com violentas trocas de acusações entre facções. O que levou o dirigente do partido a pedir que os deputados que não protagonizassem candidaturas próprias (como Bruno Nunes, que não encabeçou nenhuma lista) não se envolvessem nas campanhas – o que Bruno Nunes não respeitou.

Das 12 estruturas que foram a votos, oito mudaram de liderança, numa clara renovação interna promovida pelos militantes e, embora a direção nacional tenha optado por não interferir publicamente de forma direta, as listas afetas aos atuais líderes (incumbentes) foram as mais castigadas.

Um desses casos é Faro, onde João Graça saiu derrotado por José Paulo Sousa, que conquistou 53,8% dos votos. Apesar de a campanha ter sido disputada de forma intensa – com figuras locais como o vereador Pedro Xavier a apoiarem publicamente a oposição –, José Paulo Sousa afirmou logo após a vitória que o seu foco seria unir o partido e trabalhar pelas concelhias do Algarve, mas os bastidores da comissão política regional já se encontravam num ambiente muito hostil.

O mesmo cenário repetiu-se no Porto. O deputado e até então presidente da distrital, Rui Afonso, falhou a reeleição, num ato em que Luís Couraceiro saiu vitorioso, o que veio confirmar o enfraquecimento dos deputados nacionais perante as bases regionais. Aliás, logo a seguir à vitória, Couraceiro publicou uma mensagem nas redes sociais a apelar à união de todas as listas concorrentes para trabalhar em conjunto pelo distrito, afirmando que conta com todas as candidaturas e com todos os militantes para construir um projeto vencedor para o distrito do Porto, considerando esta a vitória que sempre procurou.

Também em Setúbal registou-se o mesmo padrão de mudança: o deputado e até então líder distrital, Nuno Gabriel, falhou a reeleição nas urnas. Nuno Valente, coordenador concelhio do partido no Montijo, saiu vitorioso, abrindo assim caminho a várias reestruturações internas nas comissões concelhias dos 13 municípios do distrito de Setúbal.

A verdade é que apesar da liderança nacional de André Ventura permanecer incontestada, o controlo do aparelho regional fugiu das mãos da direção central e a perda dos três principais bastiões do partido – Porto a norte, Setúbal na periferia de Lisboa e Faro a sul – revela que as listas apoiadas pelas figuras do topo parlamentar já não têm o voto garantido das bases.

Por isso, e sabendo-se que Bruno Nunes esteve por detrás de algumas das candidaturas vencedoras, já se fala na possibilidade de existir uma candidatura alternativa (não necessariamente protagonizada, mas apoiada) pelo deputado vereador em Loures, no próximo Congresso do Chega.