segunda-feira, 14 set. 2026

Bombeiros sim, ministro não. Seguro reforça recado silencioso

Em duas semanas, o Presidente da República visitou três corporações de bombeiros – e em nenhuma delas se fez acompanhar de Luís Neves
Bombeiros sim, ministro não. Seguro reforça recado silencioso

O Presidente da República não foi de férias em agosto. Entre tudo o que fez, destaca-se a visita, em duas semanas, a três corporações de bombeiros – atos de simbolismo acrescido se tivermos em conta que em momento algum se fez acompanhar de Luís Neves, o ministro da Administração Interna.

Não é por acaso, menos ainda coincidência. Seguro, em privado, por ação, e em público, por omissão, já transmitiu ao Governo e ao país o incómodo que lhe provoca a nebulosa que envolve Luís Neves. Mas o Presidente é um formalista, preserva quase como dogma a lealdade institucional, não lava roupa suja em público – ainda que isso não o impeça de assumir posições que têm, necessariamente, leituras políticas.

Seguro é pouco dado à exposição pública do que discorda ou do que o desagrada. Não é, não nos cansamos de o repetir, Marcelo Rebelo de Sousa. Mas, como tantos sabemos, ‘os falsos mansos não levantam a voz, deixam o silêncio fazer o trabalho da agressão’. Luís Neves é ponto baixo da relação entre PR e PM, numa altura em que os telejornais continuam a abrir com os incêndios que lavram por todo o país, ainda que sem o horror de anos anteriores.

Três homenagens, uma ausência

Entre as diversas homenagens aos bombeiros está a deslocação recente a Celorico de Basto, Braga, onde o Presidente presidiu às comemorações do centenário da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Celoricenses, fundada a 15 de agosto de 1926. Foi a terceira iniciativa em poucos dias: a 9 de agosto, Seguro tinha homenageado os Bombeiros Voluntários da Guarda (Egitanienses) nos seus 150 anos; a 11, visitara o quartel dos Bombeiros Voluntários da Covilhã. Em nenhuma das três ocasiões esteve presente o ministro que tutela as corporações e a proteção civil.

Em Celorico de Basto, o Presidente assistiu à formatura geral do corpo de bombeiros, assinou o Livro de Honra, condecorou a associação como Membro-Honorário da Ordem do Mérito e inaugurou o Monumento ao Bombeiro na Praça de São Pedro, com bênção do Cardeal D. Américo Aguiar. Estiveram presentes o secretário de Estado da Proteção Civil, Rui Rocha, o presidente da Câmara, José Peixoto Lima, e o presidente da Associação, Casimiro Magalhães Costa – mas não o ministro.

Na cerimónia da Guarda, a 9 de agosto, foi também Rui Rocha quem representou o Governo na sessão solene dos 150 anos dos bombeiros egitanienses. Questionado pelo SOL sobre o motivo, Neves justificou a ausência com o «compromisso de ir aos concelhos de Valpaços, Vinhais e Mirandela, afetados gravemente pelos incêndios que deflagraram a 28 de julho». Foi, aliás, nessa mesma cerimónia que Seguro criticou «promessas por cumprir» no Governo, apontando o exemplo dos 155 milhões de euros prometidos para reabilitar o Parque Natural da Serra da Estrela.

Como escrevemos na edição da semana passada, «Neves é pedra no sapato nas relações entre Seguro e Montenegro» – também porque, a propósito dos incêndios de Valpaços, Vinhais e Mirandela, o próprio Presidente já tinha feito reparos públicos à coordenação da resposta do ministro. Confrontado com essas críticas pelos jornalistas, em Mirandela, Luís Neves reagiu com cautela: «As chamadas de atenção, os reparos do senhor Presidente da República são sempre vistos como uma forma de alerta e para se pensar e poder corrigir aquilo que há a corrigir».

O ministro, nomeado em fevereiro de 2026 após a saída de Maria Lúcia Amaral, tem estado sob escrutínio por diversas polémicas, incluindo um caso investigado pela PJ, por suspeitas de descaminho e abuso de poder. Em julho, a Comissão Permanente da Assembleia da República rejeitou ouvir Neves sobre o assunto, o que levou Ventura a acusar PSD e CDS de «cumplicidade no encobrimento» do ministro, apelando diretamente a Seguro: «É importante que o Presidente da República tenha uma palavra nesta circunstância». E Seguro tem tido, sobre isso, um silêncio eloquente.