“As coisas não estão a correr bem, mas também não estão a correr bem a nenhum partido”, foi este o comentário informal de Diogo Pacheco de Amorim ao Sol sobre o que se passa, por estes dias, com os eleitos do Chega nas diversas autarquias do país.
O maior ruído vem de Lisboa, onde o vereador Bruno Mascarenhas continua no centro da polémica, acentuada por um comentário de Rita Matias, no Now, que funcionou como um fouet, reacendendo um tema em que a firmeza e a transparência de um partido que pede uma oportunidade para governar — e para ser diferente daqueles que governaram o país nos últimos 50 anos — parecem ceder aos mesmos defeitos, e com ainda menos virtudes.
“Os autarcas do Chega ou saem com vergonha do partido ou saem porque o partido se envergonha deles”, afirmou Carlos Guimarães Pinto, da IL, também esta semana, num programa de comentário político na televisão em que participou com a deputada do Chega Cristina Rodrigues, que ouviu sem retorquir.
Carlos Moedas já não precisa de Bruno Mascarenhas, o vereador eleito pelo Chega em primeiro lugar, para ter maioria absoluta na Câmara Municipal de Lisboa (CML). Chegou a essa situação confortável quando Ana Simões Silva, a segunda vereadora, se desfiliou do Chega e passou a integrar a equipa de Moedas como independente. Isto aconteceu em janeiro deste ano, mas, desde outubro de 2025, altura em que foi reeleito sem maioria, Moedas geria a CML com o apoio do Chega, a quem foram atribuídos pelouros e cargos.
“Se há uma mudança de paradigma, tem de haver uma mudança de protagonistas”, disse Bruno Mascarenhas. Moedas fez-lhe a vontade e escolheu Mafalda Guerra para vogal do Conselho de Administração dos Serviços Sociais da autarquia.
Moedas — ou Gonçalo Reis, o vice-presidente da CML —, pressionado pela necessidade de aprovar um orçamento, aliou-se a Mascarenhas e, na troca de favores, fez uma nomeação sem qualquer escrutínio.
Mafalda Guerra Livermore é influencer, militante do Chega (entretanto, desfiliou-se do partido) e intimamente ligada a Bruno Mascarenhas, mesmo quando o vereador prosseguia a relação de anos com a advogada Rita Garcia Pereira, que só terminou em dezembro de 2025. Uma investigação do programa da RTP identificou-a como proprietária de vários imóveis usados para alojamento clandestino de imigrantes. A tudo isto somam-se uma investigação do Ministério Público e queixas na Ordem dos Advogados por suspeitas de burla, envolvendo alguém que se apresenta como advogada sem o ser, com dezenas de mulheres alegadamente ludibriadas em casos de violência doméstica.
Moedas e Ventura, ainda que de forma diferente, agiram da mesma maneira: chutaram para canto. Ventura recusou tomar posição até haver conclusões internas, através do conselho de jurisdição, e lembrou que quem nomeou Mafalda Guerra foi Carlos Moedas, não Bruno Mascarenhas. Moedas fez o mínimo e, por “quebra de confiança institucional”, exonerou Mafalda Guerra de funções, acrescentando: “nestas situações, sou rápido a reagir”.
A exonerada argumenta que foi ela quem colocou o lugar à disposição e evoca uma alegada teoria da conspiração que envolve o nome do ex-Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e da ex-mulher de Bruno Mascarenhas, Rita Garcia Pereira, que teriam ligado a Moedas a pedir a sua exoneração. O Sol sabe que Rita Garcia Pereira vai apresentar queixa-crime contra Mafalda Guerra.
“Bruno Mascarenhas, se quiser fazer um favor ao partido Chega, demita-se de vereador, saia e passe o lugar. Espero que não fique como independente, passe o lugar para ficar alguém que realmente represente o partido Chega e os seus interesses”, afirmou Rita Matias no espaço de comentário do Now.
Numa breve conversa com o Sol, Rita Matias disse que respondeu de acordo com o que pensa, sem concertar qualquer posição com a direção do partido. Percebe-se que o assunto incomoda a cúpula do Chega. Mascarenhas é uma escolha pessoal de Ventura e do líder parlamentar Pedro Pinto, o que já tinha gerado tensão com Rita Matias e Pedro Frazão, divergência que é agora mais visível.
Bruno Mascarenhas tem, ainda assim, as circunstâncias a seu favor: o Chega já perdeu um vereador em Lisboa e não quererá perder outro. Lisboa, Funchal, Fundão, Marinha Grande, Coimbra, Mirandela, Odemira, São Vicente, Benavente ou Setúbal são alguns dos locais onde vereadores do Chega entraram em rutura com o partido.