Augusto Santos Silva não será indicado pelo PS para a lista de conselheiros de Estado eleita na Assembleia da República. O SOL obteve, junto de fonte autorizada, a informação de que o representante do PS no órgão político consultivo do Presidente da República continuará a ser Carlos César. A escolha porá fim a um cenário que ameaçava abrir uma guerra entre o Chefe de Estado e o partido de que foi militante.
Já depois da vitória na 1.ª volta das eleições, militantes com assento na Comissão Política Nacional (CPN) do PS fizeram chegar a camaradas da candidatura de António José Seguro o nome do anterior presidente da Assembleia da República como sendo o preferido de José Luís Carneiro. Fonte próxima do secretário-geral socialista desmente que alguma vez essa hipótese tenha sido considerada. O próprio rejeita pronunciar-se sobre o assunto.
Essa putativa escolha foi recebida como «um insulto» e «uma afronta» pelos apoiantes de Seguro. Na memória de todos, a frase assassina de Augusto Santos Silva, segundo a qual António José Seguro «não cumpre os requisitos mínimos» para ser Presidente da República. Numa entrevista à RTP, em janeiro de 2025, o ex-ministro socialista considerou ainda que faltava a Seguro «perfil» para o cargo porque «não basta dizer uma série de banalidades sobre amarmos o povo». Era preciso escolher outro candidato, capaz de reunir «uma força eleitoral muito mais ampla do que o espaço do PS».
Na noite de 8 de fevereiro, o novo Presidente da República respondeu a esse episódio durante a curta visita de José Luís Carneiro e Eurico Brilhante Dias ao Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha, sede nacional da sua candidatura. «Aquele que não cumpria os mínimos, atingiu os máximos», declarou António José Seguro, no centro de uma sala com as mesas dispostas em ‘U’. No relato dos presentes, pôs dois dedos na ferida, apontados para cima. Já então se sabia que ultrapassara o máximo histórico de votação para o cargo, com quase 3,5 milhões de votos.
Os dois dirigentes socialistas abandonaram a sede pouco depois. No início da noite, a intenção deles era assistirem ao discurso de vitória, num grupo mais alargado, para o que pediram uma fila de cadeiras reservada no auditório. Essa possibilidade foi negada pelos responsáveis da candidatura.
COSTA MANOBRA NO GAVETO
António José Seguro fez questão, durante toda a campanha, de se libertar de quaisquer tentativas do PS de instrumentalizar a sua candidatura. «Recebi votos oriundos de todos os campos políticos, o que reforça ainda mais a natureza independente da presente candidatura. E reafirmo com toda a clareza: Sou livre, vivo sem amarras. E assim agirei como presidente da República», declarou, no discurso de vitória na 1.ª volta. Era um recado para José Luís Carneiro: pretendia dizer, nessa noite, que o resultado eleitoral era uma vitória do PS sobre o Governo. Como José Luís Carneiro revelou agora aos jornalistas, «combinaram os dois» que nem sequer deveria comparecer no Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha. «Tenho o gosto de ter a sala cheia, mas há uma coisa que garanto: não pedi o cartão partidário a ninguém. A maior parte das pessoas que estão aqui não tem nenhum cartão partidário. São pessoas que vêm pela mesma razão pela qual eu me candidatei: por amor a Portugal», proclamou então Seguro, quanto questionado pelos jornalistas sobre a ausência de uma delegação do PS.
Entre os apoiantes mais próximos de Seguro, existe a convicção de que Augusto Santos Silva era o candidato a Presidente da República preferido de José Luís Carneiro. Os dois homens têm uma cumplicidade antiga. Coabitaram no Palácio das Necessidades, entre 2015 e 2019, o primeiro como ministro dos Negócios Estrangeiros, o segundo como secretário de Estado das Comunidades Portuguesas. Em julho de 2025, seis meses depois da frase «Seguro não cumpre os mínimos», Carneiro nomeou Augusto coordenador do novo Conselho Estratégico do PS, órgão de aconselhamento ao líder com mais de cem personalidades da sociedade civil.
António José Seguro anunciou a sua candidatura no dia 3 de junho de 2025. Só a 20 de outubro, o PS lhe declarou apoio. Pelo meio, o secretário-geral abriu espaço para o aparecimento de «outros candidatos». António Vitorino, Augusto Santos Silva e até Sampaio da Nóvoa eram os nomes considerados mais consensuais. Em diversas entrevistas, José Luís Carneiro anunciava como critério a capacidade do candidato «unir o partido». Algo que parecia excluir Seguro, consideradas as feridas da disputa com António Costa para a liderança do PS, em 2014. O novo presidente da República acusou o opositor de representar «o PS dos negócios».
O atual presidente do Conselho Europeu não resistiu a mexer-se, nos bastidores, para evitar a eleição do rival de há 11 anos. Nesse sentido, teve vários almoços com Manuel Pizarro no restaurante Gaveto, de Matosinhos. Esses encontros serviram para discutir uma estratégia de apoio a um candidato alternativo, com muitas críticas a António José Seguro, ouvidas por terceiros. A entrevista de Augusto Santos Silva foi uma peça central dessa estratégia. Pela boca morre o peixe, prato forte em Matosinhos.