quinta-feira, 05 mar. 2026

Ascenso Simões: “A queda antecipada  do Governo não dá imediatamente uma vitória ao PS”

Ascenso Simões lamenta a falta de ação do PS e critica o partido por ainda não ter um ‘governo sombra’. Para o ex-deputado, é preciso dar oportunidade às novas gerações porque o mundo mudou. E acredita que, ‘se Duarte Cordeiro quiser disputar a liderança, irá ter um apoio muito significativo’.
Ascenso Simões: “A queda antecipada  do Governo não dá imediatamente uma vitória ao PS”

Ainda no entusiasmo da vitória de José Seguro para a segunda volta, criticou José Luís Carneiro por marcar um congresso e anunciar a sua recandidatura. Foi por causa do timing?                      

Em primeiro lugar, a eleição não ficou resolvida na primeira volta e o candidato apoiado pelo PS tinha alguns dias para fazer campanha eleitoral. Dá a sensação que o Partido Socialista, que apoiou envergonhadamente a candidatura de António José Seguro, confirmou essa vergonha com a decisão de ir para eleições internas e com a marcação do Congresso Nacional. Não há nenhuma urgência. O PS podia muito bem fazer a reunião da Comissão Nacional mais tarde, até para analisar os resultados eleitorais que se vierem a verificar no dia 8. O congresso poderia ser em março, em abril ou maio, pois o tal problema de legitimidade dos órgãos que existia em dezembro também existe em janeiro, fevereiro ou março. Não se compreende essa decisão e dá ideia do ‘vamos rapidamente resolver este problema para que ninguém apareça a contestar a liderança e a contestar as opções que vão ser seguidas’.

Para reduzir o nível de contestação?

O PS está numa situação muito difícil, não pode com uma gata pelo rabo. Nesta fase, a única coisa que se esperava era que houvesse um congresso com a maior participação possível, que reunisse as pessoas que têm alguma coisa a dizer sobre a situação do país e que fizesse verdadeiramente uma análise do que foram as governações do PS, não só a última, mas também as anteriores. O estado a que chegaram os serviços públicos, a sensação de corrupção, a má governação, tudo isso deveria merecer uma ponderação do PS e também deveria merecer uma ponderação sobre os protagonistas para o futuro. Até parece que o Partido Socialista só tem pessoas que estiveram há 20, 25, 30 anos no Governo e que não tem novos quadros, nem consegue recrutar na sociedade civil novas pessoas para fazer a sua própria política. A ação do PS tem sido muito pouco eficiente, até diria que não tem cumprido os mínimos. O grupo parlamentar não tem iniciativas relevantes. As propostas políticas do secretário-geral não têm adesão à própria realidade. A única coisa que tivemos desta liderança foi um voluntarismo e um apoio às candidaturas autárquicas que nascem de baixo para cima e são muito mais vitórias locais do que vitórias nacionais.

José Luís Carneiro tentou cavalgar a onda face a estes resultados?

Mas para quê? Isso fazia sentido se o PS estivesse numa boa situação, se amanhã tivesse o poder para voltar a exercer funções governativas. O Partido Socialista não precisa de ter soluções administrativas, precisa de ter soluções políticas, precisa de debate, precisa de se encontrar e precisa de futuro. O Partido Socialista e a sua direção não podem ganhar na secretaria. O PS é um partido demasiado importante para se fazer tudo à pressa e sem recuperar os votos dos portugueses.

Falta garra e liderança firme ao PS?

As lideranças fazem-se, mas quando percebem o sentido e as necessidades do país. Em primeiro lugar, temos de perceber que saímos do poder porque o primeiro-ministro se demitiu, na sequência de um caso judicial, em que um chefe de gabinete tinha dinheiro num gabinete e a maioria absoluta se esfarelou. Não nos mandaram embora na decorrência de uma governação. Fomos embora por má figura. E o PS tem de olhar para essa realidade e de perceber que os portugueses podem não voltar a acreditar no Partido Socialista, até porque há um conjunto de casos, de situações que estão amarradas à imagem do partido. E quanto mais nos atrasarmos a encontrar novos protagonistas, novas ideias, novas propostas, novos movimentos e a construir uma nova realidade mais difícil será a apresentação de uma proposta credível e alternativa. Não pode ser com os velhos do Restelo que se faz a mudança que se impõe, se quer ser construtor de uma alternativa centro-esquerda para a próxima década.

Fala em velhos do Restelo, essa renovação poderá implicar alterações na liderança?

Se a liderança não fizer isso, é a liderança que tem de ser retirada. A solução é simples: ou José Luís Carneiro tira a tralha ou ele vai mais tarde ou mais cedo com a tralha embora. Não há alternativa. O PS e o seu líder têm de ter uma atitude clara relativamente ao futuro. Não pode depender de ninguém para fazer o seu caminho e para afirmar uma renovação interna que tem de ser profunda para apresentar aos portugueses uma proposta política clara. Ou faz isso, ou então, em 2028, temos de encontrar uma solução alternativa.

Já é uma questão quase de sobrevivência?

O PS passou a ser terceira força política, não podemos fugir à realidade. A história já não nos basta e por uma razão simples: antigamente o PSD perdia as eleições e o PS ia para o poder; o PS perdia as eleições e o PSD ia para o poder; isso acabou. Temos de ter um caminho e um posicionamento, uma formulação política e um discurso político adequado à nova realidade. E isto José Luís Carneiro, nos últimos meses, não conseguiu ter, nem parece querer ter. Tem uma predisposição para a subalternização da função do secretário-geral do PS, quer interna, quer externamente. Ou vence essa circunstância ou então temos de encontrar uma solução alternativa dentro do partido.
A passagem de António José Seguro à segunda volta não deu imagem de esperança ao partido?

Não é possível. Se o Partido Socialista tivesse estado empenhado desde o princípio a apoiar a candidatura de António José Seguro e se não tivesse havido figuras proeminentes – uma delas o presidente do conselho estratégico do Partido Socialista – a menosprezar, a menorizar e a insultar essa candidatura é claro que o PS podia estar a sair vitorioso desta eleição. Só que isso não aconteceu, mesmo na Comissão Nacional quando o Partido Socialista decidiu o apoio a António José Seguro disse que os militantes podiam apoiar outras candidaturas. Foi sempre um apoio com um Guronsan, houve uma grande dificuldade em aceitar esse apoio. É muito lamentável, até porque José Luís Carneiro foi um apoiante de António José Seguro e conhecem-se bem. Como secretário-geral devia ter feito esse caminho de afirmação da candidatura de António José Seguro sem dúvidas e colocando o PS na campanha eleitoral cedo. Aliás, o PS esteve muito aquém daquilo que se esperava, até na mobilização para a campanha.

Teria sido suficiente para evitar uma segunda volta?

A segunda volta estava sempre garantida. A única coisa que se esperava é que António José Seguro pudesse disputar com Marques Mendes, o que seria mais natural. Podíamos ter o centro-esquerda com o centro-direita a definirem as eleições. E o que aconteceu foi uma situação preocupante, do ponto de vista do futuro do país, porque podemos estar a verificar o início do fim da direita democrática em Portugal. E isso também deve fazer ponderar todo o nosso sistema democrático, o nosso sistema de partidos e a nossa estrutura institucional.
Disse recentemente que a liderança do PS só será avaliada em 2028 e que o partido vai passar oito anos na oposição até voltar a poder sonhar com a governação. Não é uma visão demasiado pessimista tendo em conta que temos um Governo minoritário?

Não sou nada pessimista, temos uma situação política difícil como se está a ver esta semana, porque o Governo demonstra ser pouco competente, mas a queda deste Governo antecipadamente não dá imediatamente uma vitória ao PS, nem o Partido Socialista tem quadros novos e credíveis para cada uma das pastas. Não tem um ministro de Negócios Estrangeiros, um ministro das Finanças, um ministro da Economia e um ministro da Defesa. Um partido que quer ser Governo deve ter, pelo menos, três nomes para cada uma das pastas governativas. O Partido Socialista faz um debate sobre justiça e as pessoas que o lideram são do primeiro Governo de Guterres, do primeiro Governo de Sócrates e do Governo de Costa, as pessoas olham e dizem: ‘Há 30 anos que andam nisto, não fizeram rigorosamente nada e agora vêm propor o quê?’ Muita gente que até votava no Partido Socialista, hoje olha para nós e diz: ‘Vocês andaram no Governo só a fazer asneiras e com gente que não era recomendável’.

É um governo sombra assombrado...

Não há sequer um governo sombra, por muito respeitáveis do ponto de vista da história do PS, seja Eduardo Ferro Rodrigues, Vieira da Silva, Augusto Santos Silva, Jorge Lacão, o mundo mudou. Todas essas pessoas tinham 40 anos em 1995, quando Guterres foi para o poder. É preciso agora dar a uma nova geração de 40 anos, 45 anos, o tempo para construírem o seu poder, para construírem uma nova realidade política e um novo futuro para o país.

Daí já ter falado em Duarte Cordeiro?

Duarte Cordeiro está no privado e não sei se algum dia quererá regressar à vida política. É sem dúvida uma solução que, se um dia quiser disputar a liderança do PS, irá ter um apoio muito significativo dentro do partido. Só depende de José Luís Carneiro ser candidato a primeiro-ministro em 2029 e ter uma proposta política nova, ter novas figuras e ter uma alternativa. O que tem feito não é de modo a que possamos acreditar que ele vai conseguir chegar lá e tenho muitas dúvidas que ele acredite.

E Miguel Costa Matos e Bruno Gonçalves?

Miguel Costa Matos e Bruno Gonçalves são as figuras mais ativas no cenário dos 30 anos da JS e, quer se queira, quer não, vão ser figuras relevantes no Partido Socialista daqui por uns 5, 8, 10 anos. E o Partido Socialista também não pode fazer uma coisa que às vezes tenta fazer que é quando alguém se começa a notar corta-lhe a cabeça. O Partido Socialista tem de perceber que pode estar durante bastante tempo na oposição e tem de ter quadros para continuar a levar a chama do PS para a frente. Não são os da minha geração, nem os da geração imediatamente a seguir à minha que o vão fazer. Já estamos na geração do digital, da inteligência artificial, da velocidade, da resposta a problemas complexos. E, para isso, não há nenhuma resposta da parte das pessoas que estiveram nos governos anteriores. Já quando estiveram no último Governo não tinham essa capacidade e, muito menos, com a aceleração que estamos a verificar no contexto da política internacional.

Como vê a resposta do PS às medidas apresentadas pelo Governo para mitigar os efeitos da tempestade?

A primeira coisa a fazer perante uma catástrofe é os políticos recuarem para dar aos operacionais e ao Governo o espaço para poderem intervir. Depois, o Parlamento, no seu tempo próprio, deve fazer uma análise do que aconteceu e aprovar medidas para o futuro. Quando um partido levanta o dedo para apresentar propostas em pleno momento da recuperação, da intervenção, do acompanhamento das pessoas, a única coisa que está a fazer é gastar tiros porque ninguém o vai ouvir. Consegue identificar alguma das medidas que o Partido Socialista apresentou? Ninguém consegue.

Falou da ativação do Mecanismo Europeu da Proteção Civil...

Houve uma situação de dispersão das ocorrências e, em primeiro lugar, há que restabelecer a energia. A segunda é restabelecer as comunicações e o abastecimento de água, depois resolver o problema nas cadeias logísticas, as questões dos plásticos, das lonas, das telhas, do abastecimento de bens alimentares e de higiene. Estar a reclamar o mecanismo europeu é estar a bradar aos céus. O cidadão comum quer ajuda, não quer discussão sobre o mecanismo. Isso não é que aceitável, ainda para mais para alguém que foi ministro de Administração que devia perceber o mínimo dessas questões.

O Governo atuou tarde?

O Governo fez tudo mal. E tem um problema à partida que é não ter uma ministra da Administração Interna. Perante uma situação destas, a primeira coisa que o ministro da Administração Interna tem de fazer é pedir ao ministro de Defesa para trazer um helicópterozinho da Força Aérea para sobrevoar o terreno. Isso na quarta-feira de manhã para às 3h da tarde o Conselho de Ministros estar a aprovar a declaração de calamidade. E também bastaria que na presidência do Conselho de Ministros houvesse alguém minimamente esperto, nem é informado, que dissesse: ‘Vamos ver o que fizemos nos incêndios e na covid para identificarmos e aprovarmos já um pacote de medidas’. Isto tudo na quarta-feira. Só no domingo é que o Governo reage. Tivemos um primeiro-ministro que efetivamente não tem capacidade de coordenar o Governo, um ministro da Presidência que foi um pateta a fazer filmes para as redes sociais, um ministro da Defesa infantil à frente de meia dúzia de tropas num determinado sítio quando as pessoas o que precisavam era de respostas. E depois há um outro problema: é que não se fez nada desde o apagão até hoje. Os operadores de comunicações, as juntas de freguesia, GNR, PSP, bombeiros e câmaras municipais não têm geradores, a rede de abastecimento de água não tem energia alternativa para poder continuar a abastecer.

E como vê a reação de Seguro a esta catástrofe?

Não tinha outra solução que não perceber a realidade do momento. E a realidade do momento para um candidato que não é populista só podia ser a realidade de não alarme, de não aprofundamento da instabilidade, de não aproveitamento político. Fez esse trabalho muito bem feito, mas acho que perdeu votos com isso porque a campanha esteve ausente e isso vê-se nas sondagens. Do ponto de vista institucional fez muito bem.

 

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