António José Seguro só não ganhou na América

Os resultados não andaram longe do previsto, mas Seguro conseguiu conquistar terreno tradicional de Ventura, como seja África e Europa. O líder do Chega teve a sua maior vitória na África do Sul e Seguro em Cabo Verde. Entretanto, dois países desapareceram do mapa eleitoral.

Em apenas 20 dias, desapareceram, misteriosamente, dois países dos registos oficiais da secretaria-geral da Administração Interna, responsável pela divulgação dos resultados eleitorais: a Croácia e a Etiópia. Ao dia que escrevo, 12 de fevereiro, às 13 horas, ainda faltam, também misteriosamente, apurar quatro consulados, Luanda, Pequim, Costa do Marfim e Quénia – o Nascer do SOL não conseguiu apurar se estes dois países, à semelhança da Croácia e Etiópia, também vão desaparecer do mapa eleitoral.

Deixando os fait divers para trás, diga-se que António José Seguro conseguiu, para já – ainda faltam os votos de 20 freguesias afetadas pelo mau tempo e os quatro consulados –, 3.483.837 votos, contra os 1.729.533 de André Ventura. A vitória expressiva de Seguro deu-se em quase todos os ‘círculos’ eleitorais, divididos por Território Nacional, Europa, América, Ásia e Oceânia e África, tendo apenas perdido na América. A vitória mais surpreendente deu-se no ‘circulo’ Europa, onde ultrapassou Ventura mesmo com a meta à vista, isto é, com a contabilização dos votos de Berlim e da Áustria. Se na primeira volta o antigo líder socialista tinha alcançado pouco mais de 13 mil votos, contra os 21.572 de Ventura, já na segunda volta a história foi muito idêntica ao que se passou em território nacional. Quem tinha votado em Cotrim Figueiredo, Gouveia e Melo e Marques Mendes preferiu votar em Seguro, dando-lhe a vitória na Europa por 216 votos – 31.505 contra 31.289. Aliado à transferência de votos, há que acrescentar o aumento do número de votantes: de 53.288 passou-se para 64.077. Na Alemanha houve mais 500 votantes que também contribuíram para Seguro passar de 1.443 para 3.224. Também na Áustria o cenário não foi diferente, havendo mais 84 votantes. Quanto aos três ‘países’ com mais emigrantes votantes, no que diz respeito ao Velho Continente, a França, com 428.936 inscritos, deu a vitória a André Ventura com 10.163, contra os 5.687 de Seguro – foram às urnas 16.064 pessoas.

Já o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, é assim que está nos documentos oficiais, Seguro aumentou o número de apoiantes de 1.954 para 4.896 – Ventura subiu de 1.379 para 2.020. Apesar deste ‘país’ ser o segundo com mais emigrantes inscritos, foi a Suíça que ficou em segundo lugar no pódio dos votantes: Mais de 17 mil quiseram mostrar a sua preferência, sendo que 12.291 optou por Ventura e 4.815 por Seguro. Para fechar as contas europeias, diga-se que Ventura não recolheu nenhum voto na Turquia, onde Seguro conquistou 10 dos 11 votos, o outro foi nulo.

África Minha

Aqui está a prova do ‘amadorismo’ dos serviços consulares portugueses, pois se os votos dos expatriados que estão em Luanda fossem decisivos para os resultados finais ainda estaríamos à espera... Um pouco insólito, no mínimo. No campeonato dos ‘continentes’ repito, às 13 horas do dia 12, ainda não se sabe quem ganhou. Ventura vai à frente em África, com 2.065 votos contra os 1.708 de seguro. Esta diferença pode ser anulada, pois estão inscritos 13.359 eleitores na capital angolana, e na primeira volta 1.123 decidiram votar. Sendo que 876 dos votos foram para os quatro principais adversários de Ventura, que conseguiu convencer 207 expatriados. Penso que não é preciso ser o Merlin para perceber que Seguro também irá ganhar o ‘círculo’ de África. No continente negro, o líder do Chega só conseguiu uma vitória expressiva, passando os 90%, na África do Sul.

Mas voltemos aos PALOP. Em Cabo Verde, o número de votantes aumentou de 608 para 897, tendo Seguro conseguido 834 votos, Ventura ficou pelos 53. Na Guiné-Bissau, Seguro passou de 12 para 28 votos, enquanto Ventura perdeu um, tinha cinco ficou com quatro. Quanto a Moçambique, Ventura tinha ganho na primeira volta com 240 votos, tendo agora conseguido 371, mas Seguro passou de 163 para 488. Já quanto a São Tomé e Príncipe, passou-se de 75 votantes para 104. Seguro aumentou de 40 para 84 votos. Ventura passou de 15 para 17. Não tinha havido votos brancos nem nulos, e desta vez apareceram 3 nulos.

A aventura da América

Ventura deve adorar a América, pois foi aqui que teve a sua única vitória. Conseguiu a preferência de 7.890 eleitores, contra os 5.353 do seu adversário. No Brasil, o número de votantes passou de 5.647 para 7.308. Ventura tinha conseguido 2.726 votos e aumentou para 4.269. Já Seguro passou de 1.223 para o número redondo de 3.000. Aqui, curiosamente, houve menos votos em branco e nulos. De 7 e 55, passou-se para 6 e 33, respetivamente. Por fim, no campeonato dos ‘continentes’, diga-se que na Ásia e Oceânia, que tinha sido ganho por Marques Mendes, em Macau voaram quase metade dos eleitores. Mas muitos dos 1.403 votos de Mendes foram para Seguro que subiu de 447 para 934.

Nota final para as comparações. É certo que António José Seguro teve mais votos que Mário Soares em 1991, mas o fundador do PS lutou contra três adversários e na altura havia 8.202.212 eleitores inscritos tendo votado 5.098.768. Soares conseguiu uma percentagem superior a 70%, Seguro ‘ficou-se’ pelos 67%. Quando faltam contabilizar 20 freguesias e quatro consulados, já votaram 5.484.920 pessoas. Bem distante dos cerca de cinco milhões de 1991. É só uma questão de números.

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