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O primeiro-ministro, numa declaração formal em que apresentou o rol de medidas do Governo para atenuar os efeitos devastadores das recentes tempestades, e da que ainda se anuncia, já promulgadas pelo Presidente da República, evitou falar do assunto: o pedido de adiamento das eleições presidenciais.
Só falou porque foi questionado pelos jornalistas e, no essencial, disse o mesmo que o Presidente da República e o candidato António José Seguro: não há razão para adiar as eleições presidenciais, que, ainda assim, vão ser razoavelmente fragmentadas entre o voto em mobilidade, no dia 1 de fevereiro, o ato eleitoral, no dia 8, e eleições no dia 15, nas localidades mais fustigadas pelas tempestades, como Alcácer do Sal ou Arruda dos Vinhos. Assegurou ainda que o Governo tudo fará para garantir as condições necessárias para que o ato eleitoral se realize com a maior normalidade possível.
O Presidente da República, de manhã, e de visita a Alcácer do Sal, disse mesmo sentir necessidade de fazer o que não fez na primeira volta: apelar ao voto. “Pode ser que se justifique uma coisa que não fiz na primeira volta, que é um apelo breve ao voto”, disse Marcelo Rebelo de Sousa, que deixou claro que “a palavra decisiva é do presidente de câmara, não é nem do Presidente da República, nem do Governo, nem da Assembleia da República”. À tarde, em Lisboa, reiterou o que dissera de manhã e lembrou que, há cinco anos, em estado de emergência, o país realizou eleições a nível nacional. Acrescentou ainda que os estados de exceção não podem interferir com direitos fundamentais, como o direito de votar, que é um direito cívico.
A meio da tarde, António José Seguro, o candidato presidencial, disse considerar essencial que as eleições se realizassem, também porque: “se existiu voto antecipado na semana passada, não vejo nenhum problema em que, nos concelhos onde não se possam realizar as eleições, se vote depois”. E acrescentou: “Vejo muitos incentivos à desmobilização eleitoral dos portugueses. Eu faço o contrário. Quero que os portugueses vão votar. E que votem em maior número. Porque não podem deixar para outros a sua decisão. O pior que podia acontecer é o país querer um Presidente e, no domingo à noite, ter um pesadelo.”
O candidato presidencial — o único, de acordo com o que disse na semana passada, porque considera que Ventura é, nestas eleições, candidato a primeiro-ministro — acabou, mais uma vez, por ter de reagir à forma como André Ventura controla a agenda política.
Durante a manhã, numa ação de campanha em São Bartolomeu de Messines, no concelho de Silves, André Ventura disse que iria telefonar a Seguro para o convencer da necessidade de adiar as eleições por uma semana, porque “não temos condições para ter eleições marcadas ou disputadas neste contexto”. E explicou: “Não vamos obrigar pessoas que estão sem teto, sem alimentação e em angústia permanente a terem de ir votar neste momento. Votar é um dever, mas podemos prescindir de uma semana.”
Não podemos, consideram o Presidente da República, o primeiro-ministro e o outro candidato, que admitiu não ter o telefone de André Ventura e assume que o líder do Chega também não tenha o dele. Mas deve ser uma questão de tempo: se um é candidato a Presidente da República, e tudo indica que venha a ganhar as eleições, o outro, candidato ou não a primeiro-ministro, voltará a ser, em breve, o líder do maior partido da oposição e, nessa condição, será recebido no Palácio de Belém.
No entanto, não será despropositado dizer que, no limite, Ventura desvalorizou a condição de candidato presidencial no penúltimo dia de campanha, dando razão a Seguro.