Amigo de ministro Luís Neves usa atrelado da droga apreendido pela PJ

Atrelado tinha desaparecido do parque de confiscados no Seixal em 2025. Foi apreendido esta semana nas instalações da Construbarcelos, a mesma empresa que está a fazer obras na casa de Luís Neves e que foi contratada 17 vezes pela PJ.

Tudo começou com uma operação de combate ao tráfico de droga em dezembro de 2024. A operação foi apelidada Pacoba e, na altura, foi noticiada como uma mega-operação que levou ao «desmantelamento de um dos maiores laboratórios de produção de cocaína da Europa».

O comunicado da Polícia Judiciária indicava: o «resultado final da operação Pacoba traduziu-se na detenção de sete suspeitos (quatro cidadãos portugueses, dois colombianos e um marroquino), na apreensão de 1.478 quilogramas de cocaína, três armas de fogo, elevadas quantidades de dinheiro, várias viaturas ligeiras e pesadas».

Entre os materiais apreendidos encontrava-se um atrelado – designado tecnicamente como galera – levado, na altura, para o parque de apreendidos da Autoridade Marítima. No ano seguinte, já em 2025, desapareceu do local o atrelado contendo bidões selados com precursores, nomeadamente amoníaco – utilizado para o fabrico de drogas sintéticas.

Reportagem encontra atrelado

Após o escândalo revelado pelo SOL na passada sexta-feira, sobre os trabalhos de um empreiteiro que fez 17 obras para a PJ e também nas propriedades do ministro da Administração Interna em Odemira, a investigação SOL/TVI/CNN Portugal obteve a indicação de que aquele mesmo atrelado tinha sido desviado para as instalações da Construbarcelos.

No sábado, às 18h30, uma equipa de reportagem encontrou esse mesmo atrelado acoplado a um camião da Construbarcelos – a empresa do amigo e empreiteiro do ministro e da PJ, João Santos Carvalho.

Na quarta-feira, a mesma equipa de reportagem voltou ao local. No sítio onde antes estava estacionado o atrelado e o camião, numa zona repleta de silvas com claros sinais de abandono, ficou apenas um espaço vazio.

Do outro lado da mesma estrada, encontrava-se apenas o camião da Construbarcelos, mas já sem o atrelado.

PJ confirma apreensão a amigo do ministro

Após contacto do SOL/TVI/CNN Portugal, fonte ligada à direção nacional da PJ confirmou a apreensão do atrelado e a abertura de um inquérito para apurar as circunstâncias em que o referido atrelado – apreendido num caso de tráfico de droga – transitou para as mãos da Construbarcelos.

Advogados contactados garantem tratar-se, no mínimo, de um crime de furto.

À época do factos, o diretor nacional da PJ era o atual ministro da Administração Interna, Luís Neves, que deixou esse cargo em fevereiro deste ano, após oito anos à frente da polícia.

O primeiro-ministro, Luís Montenegro, escolheu-o para liderar o Ministério da Administração Interna, depois das demissões das duas anteriores titulares do cargo, Margarida Blasco e Maria Lúcia Amaral.

Ao que apurámos, só o diretor nacional da PJ tem autoridade para movimentar bens apreendidos à ordem de processos-crime que estão sob a tutela do Ministério Público.

Fonte da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes da PJ garantiu que esta unidade pretendia deter o empreiteiro João Santos Carvalho pelo crime interceptado em flagrante delito, esta quarta-feira.

Álvaro Pires, diretor financeiro da PJ, já desde o tempo de Luís Neves, não quis falar do assunto. «Estou de férias, não falo, é um assunto para a Direção Nacional» da PJ, disse.

Polícia investiga atrelado

A direção nacional da PJ diz apenas que a investigação está em curso e que a única diligência tida por necessária foi a remoção do atrelado para ser devolvido ao parque de apreendidos do Seixal, onde se encontrou desde a apreensão em 2024 até desaparecer em 2025.

Até à hora de fecho deste jornal não foi possível confirmar se a detecção deste atrelado à porta do empreiteiro e amigo do ministro e ex-diretor da PJ foi comunicada ao Ministério Público.

SOL/TVI/CNN Portugal tentaram ainda contatar João Santos Carvalho, mas não foi possível localizá-lo nem na empresa, nem em casa, nem por telefone.

O dono original do atrelado apreendido pela PJ é Armando Caixeirinho, alvo de um mandado de detenção europeu porque se encontra em fuga à Justiça.

É considerado o cabecilha da rede intercetada na Operação Pacoba e um dos principais alvos do inquérito.

O maior laboratório de cocaína em Portugal

A operação Pacoba foi vastamente publicitada pela PJ em 2004 como o desmantelamento de «um dos maiores laboratórios de droga da Europa».

A «vasta operação policial de combate ao tráfico de estupefacientes em larga escala», como foi afirmado na altura pela PJ, aconteceu na zona Oeste, e resultou na detenção de sete homens e na «apreensão de cerca de 1.500 quilos de cocaína e no desmantelamento do maior laboratório industrial de extração, transformação e empacotamento de cocaína detectado em Portugal e um dos maiores a nível europeu».

Num dos armazéns alvo das buscas realizadas encontrava-se, na altura, em pleno funcionamento um laboratório industrial e no interior foram apreendidos cerca de 460 quilogramas de cocaína já processada e 32,5 quilogramas em processo de transformação, com três homens a trabalhar, detidos em flagrante delito.