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Tudo começou com uma operação de combate ao tráfico de droga em dezembro de 2024. A operação foi apelidada Pacoba e, na altura, foi noticiada como uma mega-operação que levou ao «desmantelamento de um dos maiores laboratórios de produção de cocaína da Europa».
O comunicado da Polícia Judiciária indicava: o «resultado final da operação Pacoba traduziu-se na detenção de sete suspeitos (quatro cidadãos portugueses, dois colombianos e um marroquino), na apreensão de 1.478 quilogramas de cocaína, três armas de fogo, elevadas quantidades de dinheiro, várias viaturas ligeiras e pesadas».
Entre os materiais apreendidos encontrava-se um atrelado – designado tecnicamente como galera – levado, na altura, para o parque de apreendidos da Autoridade Marítima. No ano seguinte, já em 2025, desapareceu do local o atrelado contendo bidões selados com precursores, nomeadamente amoníaco – utilizado para o fabrico de drogas sintéticas.
Reportagem encontra atrelado
Após o escândalo revelado pelo SOL na passada sexta-feira, sobre os trabalhos de um empreiteiro que fez 17 obras para a PJ e também nas propriedades do ministro da Administração Interna em Odemira, a investigação SOL/TVI/CNN Portugal obteve a indicação de que aquele mesmo atrelado tinha sido desviado para as instalações da Construbarcelos.
No sábado, às 18h30, uma equipa de reportagem encontrou esse mesmo atrelado acoplado a um camião da Construbarcelos – a empresa do amigo e empreiteiro do ministro e da PJ, João Santos Carvalho.
Na quarta-feira, a mesma equipa de reportagem voltou ao local. No sítio onde antes estava estacionado o atrelado e o camião, numa zona repleta de silvas com claros sinais de abandono, ficou apenas um espaço vazio.
Do outro lado da mesma estrada, encontrava-se apenas o camião da Construbarcelos, mas já sem o atrelado.
PJ confirma apreensão a amigo do ministro
Após contacto do SOL/TVI/CNN Portugal, fonte ligada à direção nacional da PJ confirmou a apreensão do atrelado e a abertura de um inquérito para apurar as circunstâncias em que o referido atrelado – apreendido num caso de tráfico de droga – transitou para as mãos da Construbarcelos.
Advogados contactados garantem tratar-se, no mínimo, de um crime de furto.
À época do factos, o diretor nacional da PJ era o atual ministro da Administração Interna, Luís Neves, que deixou esse cargo em fevereiro deste ano, após oito anos à frente da polícia.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, escolheu-o para liderar o Ministério da Administração Interna, depois das demissões das duas anteriores titulares do cargo, Margarida Blasco e Maria Lúcia Amaral.
Ao que apurámos, só o diretor nacional da PJ tem autoridade para movimentar bens apreendidos à ordem de processos-crime que estão sob a tutela do Ministério Público.
Fonte da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes da PJ garantiu que esta unidade pretendia deter o empreiteiro João Santos Carvalho pelo crime interceptado em flagrante delito, esta quarta-feira.
Álvaro Pires, diretor financeiro da PJ, já desde o tempo de Luís Neves, não quis falar do assunto. «Estou de férias, não falo, é um assunto para a Direção Nacional» da PJ, disse.
Polícia investiga atrelado
A direção nacional da PJ diz apenas que a investigação está em curso e que a única diligência tida por necessária foi a remoção do atrelado para ser devolvido ao parque de apreendidos do Seixal, onde se encontrou desde a apreensão em 2024 até desaparecer em 2025.
Até à hora de fecho deste jornal não foi possível confirmar se a detecção deste atrelado à porta do empreiteiro e amigo do ministro e ex-diretor da PJ foi comunicada ao Ministério Público.
SOL/TVI/CNN Portugal tentaram ainda contatar João Santos Carvalho, mas não foi possível localizá-lo nem na empresa, nem em casa, nem por telefone.
O dono original do atrelado apreendido pela PJ é Armando Caixeirinho, alvo de um mandado de detenção europeu porque se encontra em fuga à Justiça.
É considerado o cabecilha da rede intercetada na Operação Pacoba e um dos principais alvos do inquérito.
O maior laboratório de cocaína em Portugal
A operação Pacoba foi vastamente publicitada pela PJ em 2004 como o desmantelamento de «um dos maiores laboratórios de droga da Europa».
A «vasta operação policial de combate ao tráfico de estupefacientes em larga escala», como foi afirmado na altura pela PJ, aconteceu na zona Oeste, e resultou na detenção de sete homens e na «apreensão de cerca de 1.500 quilos de cocaína e no desmantelamento do maior laboratório industrial de extração, transformação e empacotamento de cocaína detectado em Portugal e um dos maiores a nível europeu».
Num dos armazéns alvo das buscas realizadas encontrava-se, na altura, em pleno funcionamento um laboratório industrial e no interior foram apreendidos cerca de 460 quilogramas de cocaína já processada e 32,5 quilogramas em processo de transformação, com três homens a trabalhar, detidos em flagrante delito.