O Governo tem de se apoiar na maioria que tem no Parlamento, porque sem isso não pode depois queixar-se de não o deixarem governar. Um Governo minoritário só ganha legitimidade política para pedir mais apoio se confrontar o Parlamento com propostas concretas e assumir as consequências da votação parlamentar. Estas duas ideias são de quem?
Podiam ser minhas. Acho que podiam ser de qualquer pessoa do PSD, no atual estado de coisas, porque a política é também o fruto das circunstâncias e nesse sentido partilho dessa visão. O Governo tem de ter iniciativa política - e tem tido, na minha opinião. O Governo não se pode demitir da sua responsabilidade de governar e deve fazê-lo com o quadro que resultou da escolha livre e democrática dos portugueses, há precisamente um ano.
Não fica surpreendido se lhe disser que estas duas ideias são de Pedro Passos Coelho?
Não, não fico surpreendido. Até porque acredito que o atual Governo, liderado por Luís Montenegro, tem tido iniciativa e a capacidade de apresentar ao Parlamento as suas escolhas em várias áreas: a reforma do Tribunal de Contas, pacotes na área da habitação, descidas de impostos, reforma laboral. Nós temos tido a iniciativa política e, naquilo que depende do Parlamento, temos de exigir que este esteja à altura das suas responsabilidades. A nossa missão é governar, é fazer avançar o país. E depois esperamos que o Parlamento tenha essa maturidade - e que pelo menos as duas maiores forças da Oposição não se limitem a opor-se. Eu acredito que os portugueses irão também avaliar o comportamento das oposições.
Há uma perceção generalizada de que as negociações com o Chega se acentuaram depois de Passos Coelho ter empurrado o PSD nesse sentido?
Não concordo, até porque é uma perceção que não tem adesão à realidade. Vivemos num país livre e cada pessoa pode pensar o que quiser. Eu tento trazer factos a esta discussão. Gostava de recordar o seguinte: nós temos tido a capacidade de aprovar matérias com o Chega e com o PS. Vou dar exemplos. A reforma do Tribunal de Contas teve, numa primeira fase, o ok do PS. A revisão do regime jurídico das instituições do Ensino Superior teve o ok do Chega e da IL. O pacote fiscal na habitação teve o ok do Chega. O Orçamento de Estado para 2026 teve o ok do PS. A reforma dos licenciamentos na habitação teve o ok do PS e do Chega. A TAP teve o ok dos dois. A Lei da Nacionalidade teve o ok do Chega. Muitos destes diplomas foram aprovados já depois de Passos Coelho ter feito as declarações que fez. Qual é o meu ponto? É que nós temos cumprido a nossa palavra de avançar com iniciativa e dialogar com quem está disponível. Não é o Governo que pede aos partidos para estarem disponíveis. É o país. São os portugueses.
Deixe-me peneirar todos estes exemplos e pedir-lhe que seja realmente honesto.
Tudo o que eu disse é verificável. Estou a ser honesto. Neste momento, o PSD tanto negoceia com o PS como com o Chega. Eu sei que isto não é muito veiculado no espaço mediático, mas a coligação mais comum neste Parlamento tem sido a do PS com o Chega. Num estudo recente, publicado num órgão de comunicação social, salientava-se que o Chega e o PS se unem muito mais vezes para aprovar matérias um do outro do que, isoladamente, cada um deles com o PSD. Não são dados meus.
Vou dar dois exemplos: a Prestação Social Única (PSU) e o ‘Trabalho XXI’ (reforma laboral).
E a reforma do Tribunal de Contas? E o Orçamento de Estado para 2026? O Governo disse na noite eleitoral de maio de 2025 que ia negociar com quem estivesse disponível. Há dias, alguém que conheço dizia-me que o PS, sempre que se lhe apresenta alguma proposta, diz logo duas coisas: não e não. E neste momento há quem no PS diga que o partido deve desde já anunciar que chumbará o próximo Orçamento de Estado. Ouvi essas declarações de Ferro Rodrigues e não sabia que ele queria tão mal a José Luís Carneiro. Mas o meu ponto é que a sua pergunta parte do pressuposto de que nós não negociamos com o PS. A nossa disponibilidade é total. Na reforma laboral, por exemplo, o PS disse de imediato que estava contra.
Neste momento, enquanto conversamos, o primeiro-ministro está reunido com o líder do Chega.
Tal como já reuniu, em privado, com José Luís Carneiro. O Chega disse que estava totalmente indisponível para aprovar a reforma do Tribunal de Contas, da mesma forma que o PS disse que estava totalmente indisponível para aprovar a reforma laboral.
O PSD está a ir atrás da agenda do Chega?
Em primeiro lugar, quem durante vários anos deu gás ao Chega foi o PS. Eu já era deputado e assisti a muitos exemplos disso, nomeadamente durante a maioria absoluta de António Costa, com vários protagonistas do PS que achavam que empolar o Chega era uma forma de arredar definitivamente o PSD da governação. São os anos em que António Costa dizia que o PSD já não era um partido grande e em que Pedro Nuno Santos dizia que ‘nunca mais precisaremos da direita’. Ora, nós não temos essa arrogância - nem quando nos relacionamos com o PS, nem quando nos relacionamos com o Chega.
Quando vamos ao detalhe, temos a agenda do Chega.
Quando vamos ao detalhe é muito simples: em Portugal entra-se com um contrato de trabalho, tem-se de ter um visto, nós temos de saber de onde vieram as pessoas e se têm o registo criminal limpo - e as pessoas devem ser tratadas com humanismo. Lembro-me do tempo em que ‘podia vir toda a gente’ era apresentado como humanismo e depois tínhamos dezenas de pessoas a viver na mesma casa. Talvez Ventura tenha o mérito de ter falado de imigração durante anos em que outros se recusavam a fazê-lo. Mas o PSD não abdicou de nenhum princípio para aprovar a legislação de imigração. Queríamos até que o PS a tivesse aprovado, mas os socialistas ainda estavam na lógica de manter os canais completamente desregulados - e nós entendemos que esse caminho não era possível.
Que princípios está o PSD disposto a sacrificar para ter uma reforma laboral apoiada pelo Chega?
Em primeiro lugar, o PSD, enquanto esteve na Concertação Social, não esteve a negociar com o Chega. Não foi por falta de vontade deste Governo nem dos bons esforços da ministra do Trabalho. A UGT é que esteve irredutível e ficou visível que esteve a alimentar uma novela quando, provavelmente, desde o início tinha a sua posição definida. E isso ficou claro nas fases finais, em que apareciam novas exigências à medida que nós concluíamos as anteriores - no banco de horas, no outsourcing, sempre havia mais. Não concordo que estejamos a vender os nossos princípios. Entre o primeiro projeto do Verão de 2025 e o atual, há 50 alterações que resultam de meses de trabalho na Concertação Social - sem acordo, mas com contributos aproveitados. André Ventura pode dizer o que quiser. Nós não estamos a sacrificar as nossas convicções. Posso chegar a um compromisso e incorporar a visão de outros sem vender a alma. Sabe o que seria vender os princípios? Era o Governo retirar a proposta. Era ceder à CGTP, ao PS e ao PCP - e vamos ver se o Chega se junta a esse coro de imobilismo. O PS tem adjetivado as políticas deste Governo com palavras como ‘crueldade’, ‘desumanidade’, ‘retrocesso civilizacional’. Sabe o que é isso? É um partido que revela incapacidade de estar na Oposição. O PS disse que ia fazer uma reflexão após as legislativas de 2025, para perceber como passou, em tão pouco tempo, de maioria absoluta para o terceiro lugar. Ao fim de um ano, ainda não encontrou o divã para essa reflexão.
Esta proposta, depois de aprovada, seguirá para Belém depurada de grande parte dos contributos da Concertação Social. O PSD já está a contar com um veto do Presidente da República?
Não vou antecipar cenários. Temos primeiro de fazer a discussão no Parlamento e esperar que o Parlamento dê luz verde para que a matéria passe à especialidade. É nisso que temos de concentrar os esforços - não em especulação sobre cenários futuros.
Ainda se lembra quando disse que o PSD não faria uma revisão constitucional a partir da direita?
O que eu disse foi que não há revanchismo ideológico da nossa parte.
Ventura falou de ‘oportunidade histórica’. A direita tem dois terços no Parlamento e o PSD cedeu - adiou, mas cedeu. Quem está a usar quem?
O partido que modernizou a Constituição foi o PSD. Votámos a favor em 76 mas nunca ficámos satisfeitos com o resultado. As duas grandes revisões - 82 e 89 - são património do PSD. Foi o PSD que tornou a democracia civil, sem tutela militar, e que abriu a economia portuguesa à CEE. O Parlamento permite geometrias variáveis e não faz sentido que o PSD se autolimite logo no início da discussão.
Tem noção de que, historicamente, pode haver uma rutura? Pela primeira vez, os partidos do centro podem não chegar a acordo numa revisão constitucional. Isso pode ser o princípio do fim da III República. O PSD está disposto a correr esse risco?
Discordo dessa leitura. Quem lançou o tema foi o Iniciativa Liberal, após as legislativas de 2025. E o PSD sempre disse que estava disponível para uma revisão constitucional a partir de 2027, na segunda metade da legislatura. É nesse calendário que temos o nosso foco.
Mas quem está, objetivamente, a ditar o tempo dessa revisão?
O PSD. E isto não é arrogância: não se faz nenhuma revisão constitucional sem o PSD. Não há rutura com o passado nem risco para a III República - quem decidiu esta composição parlamentar foi o povo. E nós, deputados, temos de entender o que o povo nos diz e trabalhar em consequência. Não há uma geometria única para fazer uma revisão constitucional.
Passemos à PSU, que vem acentuar a clivagem direita-esquerda. Os especialistas dizem que vai acrescentar pobreza à pobreza.
Não. O que acrescenta pobreza à pobreza é não sair dela. E o que nós queremos é que as pessoas saiam da pobreza. Porque nós não olhamos para a pobreza como uma coutada eleitoral. A pobreza tem vindo a descer em Portugal - os indicadores de risco são factuais, são estatísticos.
Ainda assim, uma em cada seis pessoas continua em risco de pobreza. E mais uma vez, o Chega negociou com o PSD a descida do diploma à especialidade sem votação na generalidade, com exigências. Seis em sete, diz Ventura.
O PSD negoceia com quem sinaliza disponibilidade. É simples. Na reforma laboral, qual foi a resposta do PS? Chumbo total. E o que é que o Governo fazia? Avançava com uma proposta, o PS dizia ‘não quero’ - e o Governo retirava? Não. A maioria relativa exige compromisso. Negociar não é ceder princípios.
O PS ainda é uma alternativa ou o PSD conta com o Chega como único interlocutor?
A nossa postura mantém-se: conversar com quem está disponível. Do ponto de vista da relevância política são o PS e o Chega que mais contam - e estamos totalmente disponíveis para conversar com um e com outro.
Que interpretação faz dos primeiros 100 dias da presidência de António José Seguro, que se assinalam esta semana?
Acho que o Presidente tem procurado cumprir o que prometeu na campanha: ser um Presidente que, num clima de fragmentação, puxa para o encontro de posições. Por isso me faz confusão ouvir dirigentes destacados do PS dizer que é tempo de bater com a porta e anunciar que não vão negociar o Orçamento de Estado. Só se quiserem fazer muito mal ao próprio partido e à atual liderança. Sobre Seguro, penso que tem tido a preocupação de puxar pelas pontas que nos unem - e nesse sentido tem correspondido às expectativas que criou.
Há quem diga que Seguro está a ser mais útil ao PSD do que à Oposição - trava os excessos do Chega sem desgastar o Governo.
Deixo esse tipo de análise para os comentadores políticos. O que posso dizer é o seguinte: a postura do PSD relativamente ao Presidente da República é de respeito, cooperação e diálogo. Não procuramos o conflito nem a divisão. Somos um partido responsável e acredito que a melhor postura é exatamente essa.
O PSD conta com o Presidente como moderador?
Eu acho que não é o PSD. É o país. São os portugueses.
Na véspera do 43.º Congresso Nacional do PSD, considera que as negociações entre o Governo e o Chega podem não ser bem vistas pelas bases do partido e que isso se vá refletir no ambiente geral do Congresso?
Em primeiro lugar, é preciso perceber que os congressos são sempre pontos de chegada e de partida. Pontos de chegada porque permitem um balanço - face ao último congresso, face ao atual ciclo político. Este ciclo político, liderado por Luís Montenegro, já vai em quatro anos. E o partido está num bom momento. Está vivo, está unido. Não se concretizaram aquelas profecias - ou desejos - de extinção ou subalternização do PSD que eram feitas no tempo da maioria absoluta de António Costa, quando se dizia que o PSD ia ser engolido pelo Chega. Sabe quem foi engolido pelo Chega? Foi o PS.
O PSD está em paz?
O PSD lidera a maioria dos municípios, das freguesias, os governos regionais, o Governo nacional. O partido está em paz e está focado em trabalhar. Porque a confiança eleitoral que recebemos foi para trabalhar, mudar, reformar - não para gerir apenas o estado das coisas.
Mas haverá sempre a tentação, em futuros atos eleitorais, de o eleitorado concluir que é preferível o original à cópia.
Mas qual é o original e qual é a cópia? O Chega? Esse é o ponto central da sua pergunta, mas valeria a pena entrevistar alguém do Chega, porque eu estou aqui para falar do PSD. Os militantes, o partido como um todo, sabem que o PSD no Parlamento tem uma maioria relativa e está a cumprir aquilo que disse que ia fazer.
Pedro Passos Coelho foi convidado para ir ao Congresso?
Isso não sei dizer.
Pedro Santana Lopes disse recentemente que Pedro Passos Coelho deve ir ao Congresso e que, nesse caso, ele próprio também irá. O que acha?
O que lhe posso dizer é que, se Pedro Passos Coelho fosse ao Congresso do PSD, seria bem recebido. É uma personalidade que o partido respeita, que ouve, que considera - pelo percurso que teve, pela governação que fez, pelo estatuto que conquistou por direito próprio. Ouvimos as opiniões e as declarações de Pedro Passos Coelho com respeito e atenção. O que é diferente de concordar sempre ou discordar sempre. Não sou maniqueísta.
Como vice-presidente do partido, gostaria que Pedro Passos Coelho fosse ao Congresso dizer o que tem dito noutros fóruns?
Essa é uma decisão única e exclusivamente de Pedro Passos Coelho. Gosto que o meu partido tenha a capacidade de respeitar todas as pessoas, todos os militantes - mais destacados, menos destacados. E gosto, quando chego aos congressos do meu partido, de ver as grandes personalidades que já deram muito, que estão a dar e que darão muito ao partido e ao país. Não faço nenhum psicodrama com isso.
Não fazendo um psicodrama, podemos concordar que há aqui algo edipiano - uma tensão entre Montenegro e Passos?
Não sei. Não faço esse tipo de leituras. Se Pedro Passos Coelho fosse, acredito que seria bem recebido pelo partido.
Ficaria surpreendido se ele fosse?
Não é previsível que vá, mas acredito que, se fosse, seria bem recebido. Repito: Pedro Passos Coelho é uma personalidade que muitos militantes do PSD respeitam e consideram. Ouvimos o que diz, mas isso nem sempre obriga a concordar com tudo.
Acha que o PSD é, neste momento, o partido líder da direita?
Acho que o PSD é hoje o partido mais votado em Portugal - portanto, o partido líder do país.
‘Não tenham medo de errar. Ambicionem, ousem, sonhem e confiem que a vossa capacidade e o vosso talento são, de facto, extraordinários’. Sabe quem disse isto?
Confesso que não sei...
Foi o primeiro-ministro...
É isso mesmo. E essa deve ser a nossa ambição.
Está a falar do PSD? Está a estabelecer uma analogia entre a Seleção e o PSD?
Há uma coisa que o PSD e a Seleção têm em comum: uma ambição enorme. E o que todos queremos é que a Seleção vença o Campeonato do Mundo. Nunca conseguimos. Mas acho que temos talento individual e coletivo, e que Portugal pode sair-se bem deste Mundial.
Não acha que foi uma ideia peregrina o PSD realizar um congresso em pleno Mundial?
Confesso que é a primeira pessoa que me faz essa pergunta.
Não estou a ser original - foi Pedro Santana Lopes quem levantou a questão esta semana no seu espaço televisivo habitual.
Não tinha feito essa ligação. Mas, tal como a reforma laboral vai ser discutida no dia a seguir ao Portugal-RDC, o país não para. Podemos querer muito apoiar a Seleção - e somos todos muito patriotas, todos gostamos muito da bandeira nacional -, mas a economia não para, as crianças continuam a ir à escola, os centros de saúde continuam a trabalhar.
E o PSD faz o Congresso?
Acho que uma coisa não tem ligação à outra. Confesso que é a primeira vez que alguém me perguntou por que razão o PSD estava a fazer o Congresso durante o Campeonato do Mundo.