sexta-feira, 17 abr. 2026

Agora é a sério, José Luís Carneiro

A liderança de Carneiro começa agora, sem conseguir escapar ao simbolismo da Quaresma, um tempo de reflexão e renovação. O secretário-geral não precisa apenas de definir a estratégia do partido para os próximos anos, mas também o seu próprio futuro como líder.
Agora é a sério, José Luís Carneiro

Qualquer líder partidário é, de certo modo, um líder de transição, embora uns o sejam mais do que outros. Em março de 2023, Pedro Nuno Santos foi eleito secretário-geral dos socialistas, derrotando, em eleições internas, José Luís Carneiro. Mas a paz e a concórdia não chegaram ao Largo do Rato, característica da sede socialista, uns chamam-lhe pluralismo, outros, sede de poder.

Carneiro pressentiu desde cedo que o caminho de Santos seria curto e pôs-se a jeito para lhe suceder. Santos não dececionou: pouco tempo depois, em maio de 2025, numa noite de derrota eleitoral, entregava a liderança ao presidente do partido, Carlos César, que, por sua vez, a passou às mãos estendidas de José Luís Carneiro, em junho.

Do que se sabe sobre os órgãos nacionais do PS a eleger no Congresso Nacional que decorre por estes dias, em Viseu – 27, 28 e 29 de março –, Carneiro é secretário-geral e César continuará como presidente do partido. Quanto ao resto, há espaço para especulações que terminarão no sábado, ao final da tarde, com o fecho das listas para os diversos órgãos do partido, em particular, para a Comissão Nacional, Comissão Política Nacional e Secretariado Nacional.

Também se antecipa que alguns históricos socialistas vão perder protagonismo, uns por vontade própria, como Cordeiro ou Medina, outros por decisão do líder, como parece ser o caso de Alexandra Leitão ou mesmo Augusto Santos Silva, próximo mas convenientemente à distância, até para não perturbar equilíbrios palacianos.

E quando tudo indicava que o Congresso Nacional de Aveiro seria um passeio no parque para José Luís Carneiro – com a casa arrumada, rodeado dos seus, incluindo alguns dos outros – surgem sinais de que a caminhada pode ser mais difícil. Carneiro começa a sentir na pele as alfinetadas desconfortáveis dos críticos. Que possibilidade tem de recuperar o eleitorado socialista de forma a tornar-se primeiro-ministro? Os mais benevolentes dizem poucas, os mais malévolos, nenhumas.

Pela primeira vez na sua história, o PS não detém o poder nem lidera a oposição e tem de lidar com algo novo: uma estrutura partidária envelhecida. E, dito o óbvio, colocam-se outras questões: José Luís Carneiro é o líder dos socialistas para os novos tempos? Para travar o partido em declínio?

Se o argumento for a eleição recente para o cargo de secretário-geral, a resposta é sim. Mas, em conversas one-on-one, socialistas admitem ao SOL que talvez não. O congresso funciona como momento de reflexão que devia ter ocorrido logo após a pesada derrota legislativa de maio de 2025, altura em que Carneiro iniciou uma transição que termina agora, com a consagração como secretário-geral, mas dando início a uma nova fase – ainda difusa – na qual a ideia de ver o PS como partido charneira começa a revelar-se aos olhos de muitos como de estrondosa ineficácia, exigindo a recuperação dos dois blocos partidários.

Pedro Passos Coelho, ex-líder dos sociais-democratas, já explicou como: há uma maioria de direita no Parlamento, e é com ela que Luís Montenegro deve governar, libertando o PS do compromisso da estabilidade e permitindo-lhe uma agenda própria. Mas, como em tudo na vida, é preciso coragem, é preciso correr riscos. José Luís Carneiro, no limite, arriscou apenas numa viagem que ninguém entendeu à Venezuela. Ainda assim, em vésperas do Congresso Nacional, foi mais comentado por isso do que pela longa Moção Global Estratégica de mais de 100 páginas. 

‘Socialismo com futuro’

A par desta, há moções setoriais. Uma delas é subscrita por um grupo de jovens – e a inquietação dos jovens socialistas é coisa a levar a sério. Seguro que o diga, ele, que foi cozinhado em lume brando pelo chamado grupo ‘da Praça das Flores’, em Lisboa. A moção é ambiciosa e preconiza um «socialismo com futuro», numa Europa em que, no limite, o socialismo dá provas de vida em Paris e Lyon e fraqueja na Dinamarca.

Entre os subscritores estão nomes como Miguel Costa Matos, Pedro Costa, Sofia Pereira, o pouco jovem Álvaro Beleza e o menos jovem Nuno Araújo, presidente da distrital do Porto, com quem falámos.

«O que nós sentimos, ou pelo menos as pessoas que se inscreveram nesta moção, é a necessidade de perceber se este PS continua a poder responder às necessidades da sociedade, aos problemas que temos e à forma como captamos o eleitorado», disse Araújo. Procurou ainda deixar claro que a liderança de Carneiro não está em causa e que não se trata de uma questão geracional: «Não gosto do termo, nós não estamos uns contra os outros. Os mais velhos são imprescindíveis, assim como os mais novos. O que não podemos ignorar é que os jovens não votam no PS porque não se reveem nas pessoas, nos métodos ou no discurso».

Na moção, defendem que o partido precisa de se renovar profundamente – politicamente, programaticamente e organizacionalmente – após a derrota eleitoral de 2025, para voltar a ser uma alternativa de governo credível.

Consideram o tripartidarismo e o crescimento da extrema-direita um desafio, e assumem que o desgaste do Governo AD não garante o regresso do PS ao poder. Reconhecem perda de ligação com classes trabalhadoras, jovens e eleitores descontentes, e afirmam que o PS deve deixar de ser um parceiro secundário do Governo e abandonar o discurso defensivo e a ambiguidade do ‘nin’.

Concluem que não basta resistir: é preciso transformar o partido para transformar o país. Essa transformação inclui também reabrir o debate da regionalização, num contexto em que o Estado falhou, como a resposta às recentes tempestades que devastaram parte significativa do país.

Álvaro Beleza disse-nos, a propósito desta moção: «Os jovens defendem a abertura do partido à sociedade civil e a um debate mais descentralizado. Por mim, haveria primárias abertas aos eleitores desde a escolha dos candidatos autárquicos». Sublinhou que «o congresso está decidido em termos de liderança», mas acrescentou que é «bom desconstruir a ideia de três blocos: há dois, um à direita e outro à esquerda».

«Os partidos envelhecem quando deixam de interpretar a realidade e passam a gerir equilíbrios internos como substituto de estratégia. Esse processo não é geracional. Jovens e menos jovens podem, indistintamente, reproduzir respostas que já não correspondem às transformações económicas, sociais e institucionais em curso», escreveu, esta semana, o socialista Adalberto Campos Fernandes num post no Facebook.

Duarte Cordeiro disse que o PS deve explicar aos portugueses que a composição maioritária à direita, incluindo extrema-direita, Chega e Iniciativa Liberal, são opções com consequências políticas: «E é isso que esperamos que seja feito daqui para a frente e, sobretudo, depois deste congresso, que definirá a estratégia para os próximos anos».

E para além dos próximos anos, jovens e menos jovens contam com a liderança de Cordeiro. Karma’s a bitch, não é, José Luís Carneiro?