terça-feira, 09 jun. 2026

Aeroportos. Montenegro pressiona ANA e MAI

Governo, PSP e ANA garantem que vai haver mais boxes e mais agentes no aeroporto de Lisboa, diminuindo os tempos de espera. Já os sindicatos não acreditam em milagres e acusam a concessionária de privilegiar a área comercial e de ‘apostar’ em muitos voos num curto espaço de tempo
Aeroportos. Montenegro pressiona ANA e MAI

As filas intermináveis nos aeroportos já obrigaram o primeiro-ministro a atuar e a pressionar a concessionária ANA e o Ministério da Administração Interna (MAI) a encontrar uma solução. O Nascer do SOL sabe que já esta sexta-feira, Luís Neves vai estar reunido com alguns responsáveis do turismo, nomeadamente com a Confederação do Turismo de Portugal (CTP), para discutir as dificuldades no novo sistema de controlo biométrico à chegada aos aeroportos portugueses. Ao que o nosso jornal apurou, o Ministério das Infraestruturas, que tem a tutela das infraestruturas aeroportuárias, está afastado desta questão.

O ministro Miguel Pinto Luz reconheceu que as longas filas nos aeroportos portugueses estão a causar danos à imagem do país, classificando a situação como «um embaraço». Ainda assim, garantiu que o Executivo espera conseguir mitigar os problemas já no próximo mês.

E, esta semana, Luís Montenegro já veio admitir que se a situação continuar admite suspender a recolha de dados biométricos. «Não escondo que estamos insatisfeitos com aquilo que tem sido a resposta dada por parte dos serviços de fronteira nos aeroportos, em particular, no de Lisboa. Vamos levar este esforço até ao fim, até ao limites para podermos ultrapassar a situação», declarou.

Uma solução que não parece agradar ao MAI, que afirmou à Lusa que Portugal «mantém o compromisso de assegurar» o funcionamento do Sistema de Entradas/Saída EES «em conformidade com o direito da União Europeia, não estando prevista qualquer suspensão deste sistema».

Contactados pelo Nascer do SOL, nem a ANA, nem o MAI prestaram qualquer tipo de esclarecimentos até ao fecho da edição.


Sindicatos de Polícia acusam ANA 

Se para o Governo o problema se resolve com mais polícias na Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteira (UNEF), para os sindicatos a história é bem diferente. «Mesmo que se colocassem, neste momento, mais 30 ou 40 elementos da PSP no aeroporto de Lisboa, não há boxes disponíveis. Atualmente, há menos boxes que havia na Páscoa, ou antes da Páscoa. Por causa das obras no aeroporto, retiraram quatro boxes [o que significa um terço das existentes]. Ainda assim, mesmo que no futuro que se aproxima isto se resolva, não há boxes suficientes, porque não há espaço para colocar essas boxes», começa por dizer Paulo Santos, líder da ASPP, o maior sindicato de Polícia. O líder sindical sublinha, além da falta de espaço para colocar mais boxes, os problemas técnicos, mas acredita que não se conseguirá resolver o problema se a ANA «insistir em permitir que muitos voos aterrem num pequeno espaço de tempo». A questão, como é sabido, coloca-se principalmente com os passageiros fora do Espaço Schengen, que precisam de passar pelas boxes onde os seus dados biométricos são analisados.

Santos acredita que se os quiosques colocados antes das boxes tivessem funcionários da AIMA e da ANA, o processo seria muito facilitado. «Isso iria evitar que as pessoas fossem todas a correr para as boxes».

Bruno Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Oficiais de Polícia (SNOP), diz que há muita desinformação e que os tempos de espera, nos últimos tempos, nunca foram de seis horas, como a direção nacional da PSP fez questão de esclarecer. Para o líder dos oficiais, «a responsabilidade é da ANA, que permite que não tenham parado de aumentar o número de voos e o número de passageiros a chegar, e depois querem mais. A intervenção que está a ser feita nas partidas e chegadas, que só se lembraram agora de fazer, encurta, neste momento, um terço da capacidade, mas isso eles não dizem». «Querem meter boxes mais pequenas dentro do espaço que lá tem, que é limitado. É preciso não esquecer que a pressão dos estrangeiros aumentou quatro ou cinco vezes nos últimos anos. Se havia 2,5 milhões de cidadãos extracomunitários a vir em 2019/2020, hoje há quase 12 milhões. Bem que se pode lá meter mais polícias, mas onde é que os colocam? Querem milagres?», acrescenta.

A direção nacional da PSP tem outra visão do problema e acredita que o aeroporto da capital irá receber, já em julho, 150 novos agentes saídos da Escola Prática Polícia – curso que termina a 28 de maio – indo ainda 90 para o Porto, 70 para Faro, 30 para os Açores e 20 para a Madeira.

«É curioso que o diretor nacional adjunto tenha ido à Escola Prática acenar aos novos agentes com um suplemento de 281 euros, o que é uma mentira, para irem para a UNEF. É sabido que muitos querem sair dos aeroportos por causa das confusões e por não verem reconhecido o seu esforço», reforça Paulo Santos. «O sr. primeiro-ministro e o ministro da Administração Interna anunciam mais polícias para a UNEF, para as polícias municipais, para os comandos metropolitanos, para a pré-aposentação. Continuamos a enganar as pessoas», termina.


Descontentamento no AR

Os sindicatos põem a tónica no descontentamento e até dão o exemplo da Divisão de Segurança Aeroportuária e Controlo de Fronteiras (DSACF) que está a ser comandada por um subintendente, quando o devia ser por um intendente. Já a Direção Nacional da PSP faz uma leitura completamente contrária. Segundo Sérgio Soares, porta-voz da PSP, «a DSACF de Lisboa é comandada por um subintendente à semelhança de várias outras divisões policiais em Lisboa, bem como de divisões da Direção Nacional, por falta de polícias com a categoria de Intendente». Já «no que concerne à zona de fronteira do Aeroporto Humberto Delgado confirmamos que a ANA Aeroportos se encontra a efetuar obras de ampliação daquela zona, quer para colocação de mais balcões de atendimento, quer para colocação de mais e-gates».

Outra fonte da direção nacional explica que não faz qualquer sentido a ASPP dizer que a Direção Nacional foi tentar seduzir os novos agentes, quando estes irão para onde forem colocados. 

Ainda esta semana, a PSP esclareceu que, através da UNEF, durante os primeiros quatro meses de 2026, controlou mais de 6,2 milhões de passageiros em todos os aeroportos nacionais, revelando ainda que, apesar destes números serem provisórios, mais de 3,2 milhões dos registos dizem respeito a entradas de passageiros em território nacional através das fronteiras aéreas e cerca de três milhões correspondem ao número de registo de saídas. Por outro lado, indicam ainda que neste período foram feitas 11.533 interceções, 980 recusas de entrada e 185 detenções.

Já em relação à implementação do Sistema de Entrada-Saída (SES) - EES, a PSP confirma que, em determinados momentos, os «tempos de espera superiores aos desejados, quer por razões técnicas/informáticas, quer pela elevada dimensão de passageiros fora do Espaço Schengen, com a adoção por parte da PSP de medidas de contingência, sempre no estrito cumprimento das regras de segurança e das normas de controlo fronteiriço», revelando que nos primeiros quatro meses foram identificadas 252 situações de fraude documental, o que equivale a uma média de mais de dois casos de fraude documental por dia e um aumento de mais de 7% comparativamente com o período homólogo.

Já um superintendente insiste que este problema não é um exclusivo nacional, pois vários aeroportos europeus se debatem com a mesma situação. «As pessoas esquecem-se disso. É um sistema novo e precisa de afinações».


Impacto no turismo

O Norte é uma das regiões afetadas pelas filas nos aeroportos. Ao Nascer do SOL, Luís Pedro Martins, presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, lembra que «quando a experiência começa mal, na perceção do cliente já nada será como antes, passa a ser muito mais sensível a qualquer pequena falha que decorra a partir desse momento. Tem danos na reputação da marca e dificilmente permitirá a fidelização e a recomendação do destino».

E lembra que antes da ativação do novo sistema de controlo, as chegadas decorriam dentro dos tempos considerados normais, ou seja, sem a existência de filas. «Era uma operação da qual nos orgulhávamos sempre que o aeroporto era comparado com outros aeroportos da mesma dimensão, mas acima de tudo era uma operação que tinha em consideração a boa experiência para o passageiro. Hoje, infelizmente, já não é assim, têm sido relatados tempos de espera que ultrapassam as duas horas desde que ativaram o controlo com EES», diz.

Quanto às responsabilidades, Luís Pedro Martins aponta o dedo a todos os governos ao longo das últimas década. «Portugal não conseguiu, nesta matéria, pensar de forma estratégica, e o que temos agora é que saber resolver este atraso com a máxima urgência», acusa. E afirma que o problema assenta em dois fatores. Um diz respeito à falta de recursos humanos por parte da PSP para ocupar as boxes disponíveis, referindo que tem «menos agora do que há uns meses, sendo que eventualmente alguns terão sido desviados para Lisboa».

O outro fator, de acordo o responsável, prende-se com o facto de os quiosques de pré-registo continuarem desligados. «Estes seriam de extrema utilidade no apoio à fluidez de passageiros. Os quiosques estão ativados em Lisboa e em Faro e não se percebe a razão de estarem desligados no Porto. Estes dois fatores em conjunto provocam a tempestade perfeita. No último domingo, das 12 boxes, apenas seis tinham agentes da PSP a trabalhar, com a chegada de voos dos EUA, Canadá e UK a acontecer e que não podem utilizar as e-gates. É um escândalo», salienta.

 Também André Gomes, presidente do Turismo do Algarve, diz ao Nascer do SOL que estes atrasos «são uma preocupação e uma ameaça para o turismo», referindo que, no caso do Algarve, as filas de espera prolongadas afetam a experiência desde o primeiro minuto da visita.

«A imagem do destino é um ativo importante e está a ser prejudicado por todas estas insuficiências operacionais. A suspensão pontual do Sistema de Entradas/Saídas não resolve o problema, como estamos a verificar, pelo que o que se espera é que sejam adotadas medidas mais eficazes, seja por via do reforço de meios humanos, seja por via da otimização dos processos de controlo e definição de planos de contingência para períodos de maior afluência como é o caso do verão que agora se aproxima», salienta.

Uma opinião partilhada por António Valle, diretor-geral do Turismo de Lisboa. «O que se passa hoje nos aeroportos nacionais é um problema de reputação que se pode tornar muito rapidamente num grave problema social», diz ao Nascer do SOL. E apesar de reconhecer que o Governo está empenhado em resolver a situação, lança o apelo para que o Executivo Governo tenha um papel especialmente ativo no processo a nível europeu. «Não há tempo a perder. Não há mais margem para falhar. Lisboa é hoje reconhecida a nível mundial como um destino qualificado que cria emprego e riqueza para a economia local. Não podemos colocar em risco o que tanto custou a conquistar», confessa.

Hotelaria preocupada com o 1.º contacto

Também Cristina Siza Vieira, vice-presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), diz que estes atrasos «são situações obviamente muito preocupantes e incompatíveis com a experiência que Portugal quer proporcionar enquanto destino turístico», lembrando que se trata do primeiro contacto que muitos turistas têm com o país. «E a chegada é um momento particularmente sensível: para o bem e para o mal, influencia a perceção da viagem e condiciona a experiência global», diz ao Nascer do SOL.

E não hesita: «Portugal tem feito um trabalho muito consistente na afirmação da sua imagem enquanto destino acolhedor, eficiente, seguro e de qualidade. Situações como estas não estão alinhadas com esse posicionamento e podem comprometer, logo à chegada, todo esse esforço», lembrando, no entanto, que não é um problema exclusivamente português. «Portugal e Grécia estão entre os países que lideram as queixas diretas, mas daquilo que temos conhecimento também há constrangimentos relevantes em França, Alemanha, Itália, Espanha e Bélgica».  

Já quando questionada de quem é o responsável, Cristina Siza Vieira revela que mais do que procurar culpados, importa perceber que estamos perante uma conjugação de fatores. «Existe uma dimensão europeia relevante, relacionada com a implementação do Sistema de Entrada/Saída da União Europeia, o EES, que veio alterar procedimentos e exigir maior capacidade operacional nos pontos de fronteira. No entanto, a Comissão Europeia veio dizer que os atrasos registados em Portugal não estarão relacionados com falhas no funcionamento do sistema em si, mas também lembrou que cabe aos Estados-membros assegurar soluções automatizadas e procedimentos alternativos sempre que necessário», afirma.

Ainda assim, reconhece que há também fatores internos que, de acordo com a responsável, já estão identificados, mas não foram resolvidos. «Falamos de capacidade operacional, de recursos humanos disponíveis para o controlo de fronteiras e respetiva formação, de equipamentos adequados, da utilização eficaz de quiosques de autosserviço e e-gates, e da necessidade de garantir que os sistemas tecnológicos conseguem responder aos níveis de procura que o país regista, sobretudo nesta altura do ano. O fundamental é garantir que todos os intervenientes trabalham de forma articulada para resolver estes problemas, como a AHP apelou na carta aberta ao Governo em outubro de 2025», acrescenta.

Para resolver o problema, a vice-presidente executiva da AHP aponta para medidas imediatas que tem de ser tomadas, nomeadamente a suspensão da recolha de dados biométricos. Ao mesmo tempo, aponta para a hipótese de estudar a implementação de soluções operacionais mais simples e realistas, para tanto inclusive trabalhando ao nível europeu, assim como considerar o reforço de meios humanos.

«Mas esta situação também demonstra a necessidade de uma visão de médio e longo prazo: reforçar a infraestrutura tecnológica, aumentar a capacidade instalada e garantir que a introdução de novos sistemas europeus é acompanhada pelos recursos necessários para a sua implementação», refere ao nosso jornal.

Mais crítica é a Associação Avenida, que representa lojas, hotéis e serviços da Avenida da Liberdade, ao admitir que «os elevados tempos de espera, a pressão sobre as infraestruturas e a experiência cada vez mais difícil para quem chega a Portugal, em negócios ou lazer, estão a afetar diretamente empresas, hotéis, comércio e toda a economia ligada». Ou seja, os danos já começaram a fazer-se sentir. «Lisboa não pode perder competitividade nem colocar em causa a qualidade da experiência de quem nos visita», resume.