Relacionados
Ai chega, chega a minha agulha, afasta, afasta o meu dedal...» canta a costureira Alice (Beatriz Costa), encenada pelo pai alfaiate Caetano (António Silva) na Canção de Lisboa, de 1933, um dos filmes da chamada idade de ouro do cinema português, realizado por José Cottinelli Telmo, que leva para dentro do filme uma cena de teatro de revista. «Ai paizinho, não sou capaz», diz Alice, durante o ensaio do número teatral. Na era do TikTok, o grupo parlamentar do PSD encena um vídeo em que Hugo Soares diz: «E só contámos com o Partido Socialista para viabilizar isto», e depois acrescenta: «O que equivale a dizer que o combate à subsidiodependência do Chega é mesmo uma treta, porque eles estiveram contra isto». Hugo Soares não é António Silva, é político, não é ator, e o resultado nunca podia ser bom. Seja como for, ficamos com o essencial: tudo isto é um teatrinho, mal interpretado, mas é um teatrinho.
Portugal caminha inexoravelmente para um governo de direita, tal como a maioria dos países europeus. A questão que se coloca agora é saber como, quando e, já agora, com quem. Os líderes dos três principais partidos do sistema partidário português sabem-no. Os eleitores, que voltam a mostrar-se mais indecisos, muito provavelmente, vão conduzir o país a essa realidade liderada pelo PSD, pelo Chega, ou pelos dois em conjunto, o que uma fonte do PSD com quem falámos reconheceu sem rodeios: não é já, mas será mais tarde.
Hugo Soares vs. José Luís Carneiro
Esta semana, em entrevista ao Now, Hugo Soares envolveu-se em polémica acesa com o secretário-geral do PS, a propósito de casas prontas e de ciclos eleitorais. «O deputado José Luís Carneiro habituou-se a ver-se ao espelho e a imaginar que este Governo é o Governo de que ele fez parte, do Partido Socialista», disse Soares.
O presidente do PS, Carlos César, disse, também esta semana, que Luís Montenegro – e, por extensão, o Governo e a AD – sofrem da síndrome de Estocolmo na relação com o Chega, porque, diz ainda César, o PSD e o CDS têm vivido «sob sequestro do Chega»; e que, apesar de o primeiro-ministro ter sido «maltratado e enganado sucessivamente» pelo partido de André Ventura, acredita que o PSD acabará por voltar a aproximar-se do Chega.
Sebastião Bugalho, o porta-voz do PSD, na sua primeira intervenção nessa qualidade na sede do partido, na Rua de São Caetano à Lapa, em Lisboa, com o busto silencioso de Sá Carneiro a contemplá-lo, dirigiu-se, com a sua habitual truculência, ao PS, anunciando que o PSD vai pedir a audição parlamentar de ex-governantes socialistas, como José Luís Carneiro, para que se saiba se o anterior Executivo socialista sabia ou não do aumento populacional tornado recentemente público pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). O porta-voz e vice-presidente do PSD não deu muitos pormenores e também não esclareceu se o antigo primeiro-ministro António Costa estará ou não entre as personalidades que o partido quer ouvir. Questionado sobre se o PSD vai chamar ao parlamento o atual secretário-geral do PS e antigo ministro da Administração Interna José Luís Carneiro, disse que é «natural que seja chamado a esse esclarecimento».
A crispação entre o PSD e o PS está de volta, depois do intervalo do acordo da PSU (a Prestação Social Única), e tem tudo para ser definitiva – também porque é a estratégia de sobrevivência do PS, numa altura em que José Luís Carneiro está preocupado com o «custo de vida» dos portugueses, mas igualmente preocupado em afirmar-se como líder. Se as sondagens lhe são favoráveis, o teste do algodão só poderá acontecer em eleições que todos querem, mas ninguém pode assumir.
«Não haveria um português que entendesse que o ciclo eleitoral fosse interrompido por um capricho» de Carneiro ou de Ventura, disse Hugo Soares, para lembrar logo a seguir que o ciclo eleitoral, para ser interrompido, tem de ser por vontade dos dois partidos que teriam de se juntar no Parlamento para derrubar o Governo. Fica-se com a dúvida se isto é uma crítica ou uma oportunidade para a nova tríade da política portuguesa – Montenegro, Soares e Bugalho, este último elogiado esta semana por Carlos Moedas como «o melhor político da sua geração». A chave deste elogio está, naturalmente, em «da sua geração».
Nós e outros, somos os mesmos
Em sete anos, o Chega – um partido que era uma nota de rodapé – tornou-se o segundo maior bloco parlamentar e o líder um candidato presidencial competitivo. Este movimento português insere-se numa tendência que se vem consolidando na Europa desde a crise migratória de 2015, para termos uma referência operativa, e que se acelerou de forma muito visível nos últimos dois ou três anos. As eleições europeias de junho de 2024 acentuaram essa tendência.
Os partidos de extrema-direita e direita radical conquistaram, no seu conjunto, cerca de um quarto dos lugares no Parlamento Europeu. Em França, a Rassemblement National de Marine Le Pen foi a força mais votada, com mais de 31%, obrigando Emmanuel Macron a convocar eleições legislativas antecipadas – que só não deram a vitória ao RN graças a uma ‘frente republicana’ de última hora entre esquerda e centro, mas que, ainda assim, deixaram o partido de Le Pen (e, entretanto, de Jordan Bardella) como o maior grupo isolado numa Assembleia Nacional sem maioria.
Na Alemanha, a Alternative für Deutschland (AfD) obteve o seu melhor resultado de sempre nas europeias, perto dos 16%, e tornou-se a força mais votada em vários estados do antigo território da Alemanha de Leste; nas legislativas de fevereiro de 2025, a AfD praticamente duplicou esse resultado, alcançando 20,8% e ficando em segundo lugar, atrás dos democratas-cristãos de Friedrich Merz, que acabou por formar Governo com os social-democratas. Na Áustria, o FPÖ de Herbert Kickl venceu as legislativas de setembro de 2024 com cerca de 29% dos votos – o melhor resultado da extrema-direita austríaca desde o fim da Segunda Guerra Mundial –, ainda que não tenha conseguido reunir parceiros de coligação para governar. Na Holanda, o Partij voor de Vrijheid (PVV) de Geert Wilders venceu de forma esmagadora as legislativas de 2023, tornando-se o maior partido do país, e chegou a integrar o governo formado em 2024, embora tenha saído da coligação em junho de 2025 por divergências sobre política de asilo. Em Itália, Giorgia Meloni governa desde outubro de 2022 à frente de uma coligação de direita e extrema-direita liderada pelo seu Fratelli d’Italia – um partido que, em 2018, tinha apenas 4,3% dos votos e que hoje ronda os 30% nas sondagens, com Meloni a manter uma popularidade que a maioria dos líderes europeus lhe inveja, sustentada em grande parte pela estabilização económica e pela queda do desemprego.
O padrão é consistente: partidos que há uma década eram marginais tornaram-se, em país após país, forças determinantes na formação de governos ou, no mínimo, atores incontornáveis na negociação parlamentar. Mas o que noutros países se processou ao longo de quinze ou vinte anos, em Portugal aconteceu em menos de sete, com um Chega forte mas sem maioria, obrigado a negociar dentro de um sistema que continua, por enquanto, a resistir-lhe.
Luís Montenegro e os seus acreditam que só há uma forma de neutralizar o Chega: envolvê-lo na governação enquanto ainda tem vantagem. Não tarda, o partido liderado por Ventura voltará a ser tratado por Montenegro e pelo PSD como parceiro preferencial de governação.