O melhor de Portugal não pertence ao passado, o melhor está para chegar. Vamos fazer Portugal maior» – o tom epicamente otimista do presidente do PSD e primeiro-ministro, Luís Montenegro, ecoou no Velódromo Nacional de Sangalhos, em Anadia, e por lá ficou. Não chegou ao país que Montenegro prometeu maior — e que de facto está a crescer, confirmou esta semana o INE, em parte graças à imigração.
O 43.º Congresso Nacional do PSD foi marcado pelo chumbo do pacote laboral no Parlamento, ocorrido na véspera, por críticas contundentes ao PS e moderadas ao Chega, por uma prestação de contas em tom de autocomplacência da maioria dos ministros do XXV Governo e pela aparição, à meia-noite, de Pedro Santana Lopes, que evocou o passado e o amor eterno ao PPD/PSD.
Um fundo sem fundos
«Foi Deus que deu voz ao vento», cantou Amália – o nome escolhido pelo Governo para a nova ferramenta de inteligência artificial ao serviço dos cidadãos, professores e Forças Armadas, que será apresentada com mais ruído em Julho. No que toca a novidades, o primeiro-ministro anunciou oito medidas: a criação de um fundo soberano gerido pelo IGCP, a execução do fundo de catástrofes (já anteriormente anunciado), um novo modelo para os transportes ferroviários com a linha de Cascais como primeira subconcessão, o novo código da contratação pública, uma reforma da justiça administrativa e fiscal, um novo regime de incentivos ao mérito na Administração Pública, a reforma orgânica do Ministério da Saúde e a conclusão da estratégia para a habitação com reforma do regime jurídico do arrendamento. A maioria das medidas foi recebida com relativo ceticismo – palavras leva-as o vento –, sendo o fundo soberano o que suscitou maior perplexidade: é mais uma daquelas medidas do Governo de Montenegro que são apresentadas mas não são bem explicadas, numa incompreensível estratégia de comunicação.
O anúncio provocou desconforto mesmo dentro do PSD. O que se sabe é que o fundo foi apresentado como um instrumento para o Estado entrar no capital de empresas estratégicas, com financiamento anual pelo Orçamento do Estado e gestão pelo IGCP. O discurso económico de Montenegro está a mudar, mas ainda é cedo para perceber com que profundidade – e o que isso implica no próximo Orçamento do Estado, o instrumento que vai voltar a colocar o actual sistema partidário à prova.
A entrada do leão
À meia-noite de sábado, 20 de Junho, quando o Velódromo já respirava o cansaço do primeiro dia, entrou Pedro Santana Lopes. Tinha feito as pazes com o partido – «Refiliei-me hoje», disse –, num tom que misturava emoção, nostalgia e declaração de lealdade. «Candidatasse-se quem se candidatasse, tu ganhavas e largo», disse a Montenegro, antes de se sentar entre ele e o secretário-geral Hugo Soares. Voltou porque Montenegro foi pessoalmente até à Figueira da Foz convidá-lo. «Teve a enorme gentileza de ir falar comigo», disse, com voz embargada.
A ausência mais ruidosa do congresso teve nome: Pedro Passos Coelho.
Santana falou de Passos para dizer que poderia ter saído mais cedo do partido, «não tivesse ascendido à liderança alguém que tanto consideramos, respeitamos e admiramos, como Pedro Passos Coelho, e o trabalho notável que teve de fazer no tempo de emergência nacional». O elogio foi genuíno, mas logo veio a ferroada: «Quando se fala em reformar mais, eu preciso que cada um que diz isso diga, muito bem, mas quais reformas? Até onde? E com quem? Como se viu ontem, naquele espetáculo confrangedor na Assembleia da República. Com quem?». Capice?, Passos. E tudo isto foi dito por quem, dias antes, tinha anunciado que, se Passos fosse ao congresso, também iria. Foi na mesma... Passos é que não.
O homem na sombra ou a sombra do homem
Passos Coelho não se inscreveu, não apareceu, não enviou mensagem. Não foi a primeira ausência – há anos que não comparece às reuniões magnas do partido que liderou durante oito anos. Mas desta vez o contexto é outro. Passos surge cada vez mais no espaço público com um padrão de críticas ao Governo, sugerindo que os portugueses estão «impacientes» e querem «um pouco mais de ritmo na governação» – dito ao lado de André Ventura num evento em Lisboa, onde ainda usou expressões como «prostitutos sem carácter». O que causou incómodo visível na direcção do PSD, a mesma que logo a seguir foi negociar com Ventura de boa-fé, entre a arrogância e a ingenuidade, apanhada de surpresa no pragmatismo de um líder que sabe ler os sinais do tempo como ninguém.
Santana Lopes foi primeiro-ministro entre 2004 e 2005, entregou ao país uma crise política que levou à dissolução do Parlamento por Jorge Sampaio, viveu anos à margem do partido que ajudou a construir, chegou a fundar o Aliança, que, entretanto, desapareceu. Era o enfant terrible, o nome que se evitava. Regressou a Anadia como celebridade tardia, recebido com aplausos.
Passos Coelho é o líder que salvou Portugal da bancarrota, que negociou a saída do resgate com a troika, determinado em tempos sombrios. Ficou em casa.
Santana, que tanto incomodou o PSD no passado, chegou de braço dado com Montenegro à meia-noite. Passos, que tanto deu ao PSD, ficou de fora – e enquanto fica de fora, vai dizendo o que o partido prefere não ouvir.
O congresso fechou com Santana Lopes a gritar «Viva o PPD-PSD» e com a sombra de Passos Coelho a pairar sobre o velódromo – o ausente mais presente na história do partido depois de Francisco Sá Carneiro.