Era noite no Rossio, indiferente aos que corriam para apanhar o comboio, um homem alto e forte, de rosto enérgico e feições contraídas. Manuel Múrias, jornalista de A Época, tentava conversar com ele sobre os rumores de um golpe iminente. Mas Gomes da Costa não deixou que a conversa fosse muito longe. «Você tem visto muitos conspiradores?», perguntou, encarando o jornalista. «Olhe para mim: acha que o homem que nunca ninguém viu curvar-se diante das balas inimigas, na África e em França, em mais de trinta anos de vida militar e através de mais de trinta batalhas, acha que esse homem é capaz de conspirar?». Uma pausa. «Amigo: eu não conspiro, revolto-me!».
O episódio era uma encenação. Gomes da Costa não tinha sido casualmente interpelado no Rossio – tinha-se deslocado propositadamente a casa de Múrias para dar a entrevista, e de onde sairia a caminho de Braga. O cenário da rua, com o general a esbracejar e aos gritos no meio da multidão, nunca aconteceu. E Múrias não era um jornalista convencional: era um adepto comprometido do Integralismo Lusitano, que provavelmente redigiu a própria proclamação que Gomes da Costa faria mais tarde. O artigo foi uma peça de propaganda – e funcionou. Nessa altura, as fake news eram literatura.
‘O centurião africano’
Manuel de Oliveira Gomes da Costa nasceu em Lisboa em 1863 e construiu uma carreira militar que o levou de África a Flandres. Combateu em Moçambique e na Guiné, esteve nas trincheiras da Grande Guerra como comandante do Corpo Expedicionário Português em França, e acumulou uma reputação de homem corajoso, impetuoso e sem medo de arriscar. A imprensa chamava-lhe o ‘Centurião africano’ – uma imagem que ele cultivava com cuidado e que lhe rendia uma popularidade genuína entre os militares de patentes mais baixas.
Era monárquico numa república, o que lhe criava uma contradição de fundo que nunca resolveu. Era de temperamento explosivo, incapaz da paciência que a política exige. Era um orador fácil, capaz de galvanizar uma multidão ou um regimento com a mesma naturalidade. E era, acima de tudo, um homem de ação – o tipo de figura que os conspiradores procuram quando precisam de um rosto para dar corpo a um plano. Nem sequer foi a primeira escolha.
Uma república sitiada
Para perceber o golpe é preciso perceber o que era Portugal em 1926. A I República, proclamada em 1910, acumulara inimigos desde a sua génese. Os monárquicos nunca desistiram de restaurar o trono. Em 1919, a efémera Monarquia do Norte ameaçou converter-se em guerra civil antes de ser sufocada pela falta de apoio popular. O militar Paiva Couceiro, próximo da família real, entregara simbolicamente a sua espada no Ministério da Guerra em 1911, anunciara que ia conspirar e partiu para Espanha. Ninguém o prendeu.
A Igreja Católica era uma adversária acérrima, penalizada pelo laicismo militante do regime, que confiscara parte do seu património, proclamara a liberdade de culto e legalizara o divórcio. Num país profundamente católico, este choque era, antes de tudo, existencial. Os grandes grupos económicos opunham-se a um regime que instituíra o direito à greve, a jornada de oito horas e o descanso semanal. E o exército, altamente politizado, foi-se afastando da República à medida que as crises se sucediam em ciclos cada vez mais curtos.
«Em Portugal só existiam duas forças políticas organizadas, os democráticos e a Igreja, e, por consequência, só existiam também duas saídas para o exército: ou render-se aos democráticos ou render-se à Igreja», escreveu Vasco Pulido Valente. «Não era preciso muita perspicácia para perceber que não se renderia aos democráticos».
A República herdou os pesados défices da monarquia, enfrentou uma inflação que chegou aos 200% durante a Grande Guerra e não conseguiu garantir o abastecimento de cereais quando os submarinos alemães cortaram as rotas de fornecimento. A fome, já elevada em 1912, tornou-se catastrófica. Em 16 anos, Portugal teve 45 governos – um a cada quatro meses –, o que tornava impossível qualquer política de longo prazo.
Os golpes e as conspirações tornaram-se quase uma rotina, à média de um por ano. Discutiam-se abertamente em pastelarias de Lisboa, na rua, e a imprensa estava perfeitamente a par. Em 1921, na chamada Noite Sangrenta, foram assassinados vários políticos, incluindo um ex-primeiro-ministro. O próprio Presidente Sidónio Pais, que instaurara uma breve ditadura em 1917, foi abatido a tiro na Estação do Rossio após sobreviver a várias tentativas de golpe.
O único obstáculo dos conspiradores era chegar a acordo sobre quem lideraria e como se governaria depois. Em maio de 1926, numa segunda escolha, foi entregue ao general Gomes da Costa a liderança de uma revolução em que entrou completamente equivocado quanto ao seu próprio papel.
28 de Maio
Gomes da Costa chegou a Braga na noite de 27 de maio de 1926, vestido à civil, quando a cidade era palco do Congresso Mariano Nacional, que juntava os principais líderes da Igreja Católica e jovens integralistas. Mas Gomes da Costa não foi para rezar.
Na madrugada seguinte, os soldados do Regimento de Infantaria 8 foram acordados a toques de corneta para formarem na parada. A notícia era simples: iriam participar numa revolução. O Regimento de Cavalaria 11 juntou-se com entusiasmo. Os homens do RI 29 ocuparam o quartel-general sem resistência. Até o batalhão da GNR – guarda pretoriana do regime – engrossou as fileiras dos revoltosos.
De Braga partiram telegramas para unidades de todo o país. Nem todos responderam no primeiro dia. Óscar Carmona esperou pelos acontecimentos, prudente, como era seu hábito. O jovem alferes Humberto Delgado – que décadas mais tarde perderia a vida a combater a ditadura que este golpe inaugurou – tentou convencer os camaradas da Escola Prática de Infantaria em Mafra a sublevarem-se. Os veteranos aconselharam calma. O dia 28 chegou ao fim sem a vitória fácil que muitos esperavam.
Em Lisboa, porém, o comandante Mendes Cabeçadas já minava a resistência do Governo. No dia 30 de maio, consciente de que não aguentaria, o Executivo apresentou demissão. O Presidente Bernardino Machado entregou o poder a Cabeçadas na esperança de que um republicano e maçon pudesse moderar o que vinha a seguir. Não podia estar mais enganado.
Preso ao exército e pelo exército
Gomes da Costa observava a tomada do poder à distância e sentia o sabor amargo de quem fizera a revolução para ver outro colher os louros. Escreveu imediatamente a Cabeçadas: conservaria as forças militares do norte concentradas no Porto. Era um aviso. Ele era o líder, e não esquecia quem controlava o exército.
A 6 de junho, uma semana após o início do golpe, uma salva de artilharia deu o sinal para uma das maiores paradas militares da história recente de Portugal. À cabeça, montado a cavalo e a brandir uma espada, vinha Gomes da Costa. Atrás seguiam entre 13 mil e 15 mil homens pelo Campo Grande e pela Avenida da República. Era a celebração da vitória, de que Gomes da Costa não abdicou.
A 17 de junho, fez o ultimato a Cabeçadas: ou saía a bem, ou saía com a ajuda do exército. Cabeçadas optou por sair a bem. Gomes da Costa era agora senhor do destino do país. E foi aí que o seu temperamento – útil para fazer uma revolução, fatal para governar – se revelou. As suas ordens tomavam a forma de decretos de obediência imediata. A sua política, inspirada no Integralismo Lusitano, ignorava a difícil situação financeira do Estado e as diferentes sensibilidades dos seus apoiantes.
A 8 de julho, um grupo de generais e coronéis apresentou-se ao caudilho com uma proposta: poderia ficar como Presidente, mas cederia o poder executivo. Gomes da Costa recusou, convencido de que o exército lhe era leal. No dia seguinte foi preso. O exército manteve-se impassível. Foi deportado para os Açores e morreu em Lisboa em dezembro de 1929, esquecido pelos que o tinham aclamado.
O poder passou para Óscar Carmona – o general que se mantivera neutro a 28 de Maio e que recebia de bandeja aquilo pelo qual não se arriscara. Carmona frequentava as tertúlias conspiratórias, mas nunca se comprometia abertamente. Esperava sempre o momento certo para entrar do lado dos vencedores, e foi isso que lhe permitiu, por exemplo, não ser preso no golpe falhado de abril de 1925 e ser o promotor de justiça que propôs a absolvição dos seus camaradas – quando era ele próprio cúmplice. A sua missão agora era estabilizar o regime e resolver a questão financeira. Para isso, convidou um jovem professor de Coimbra com reputação de rigor e inteligência.
O homem que não queria ser político
«Em geral os políticos abrem caminho por meio da conquista de simpatias e a captação habilidosa de adesões. Procuram agradar a este e àquele, pelos favores, pela familiaridade do trato, pela sedução das maneiras e prometem tudo o que podem», escreveu Marcello Caetano em Minhas Memórias de Salazar. «E depois, em 1928 vem aquele professor de Coimbra... Fraca figura, voz de velha, austeridade de professor, cortando a direito sem querer se atingia amigos ou não, anunciando e impondo sacrifícios, indiferente à imagem de simpatia ou antipatia que resultasse da sua ação».
Salazar completou 39 anos a 28 de Abril de 1928, já ministro das Finanças, «cheio de certezas»: «Eu sei para onde vou, sei o que quero, e não vou para onde não quero ir». A primeira passagem pelo Governo durara apenas cinco ou seis dias – saiu quando lhe recusaram o controlo absoluto das despesas públicas. Voltou quando lho concederam. E nunca mais largou o poder.
Era uma figura já conhecida nos meios católicos e académicos, com uma campanha mediática construída à sua volta que o apresentava como o único capaz de salvar as finanças públicas. Tinha sido seminarista, publicava na imprensa da Igreja, e contava com o apoio de Marcello Caetano e de outros intelectuais conservadores. Salazar escrevia em 1928 no Novidades que «incumbia o exército» de «sustentar e proteger» os que eram capazes de restaurar as finanças do país. Sabia exatamente o que dizia e a quem se dirigia.
Como ministro das Finanças, foi construindo apoios nos três pilares que sustentavam Portugal: o exército, a Igreja e os grandes grupos económicos. A cada um ofereceu o que queria – cargos e tolerância à corrupção aos militares, a Concordata com o Vaticano e a restauração da influência pública à Igreja, o corporativismo com a eliminação dos sindicatos aos grandes industriais e banqueiros. A CUF beneficiou do condicionamento industrial que monopolizava setores inteiros da economia. O Banco Espírito Santo e outros cresceram à sombra de um Estado que sabia recompensar a lealdade.
Salazar sabia também que o português ansiava por um D. Sebastião. O culto de personalidade que construiu à volta de si próprio alimentou-se precisamente dessa tradição – o salvador que vem resgatar a pátria da desordem. Em 1932 tornou-se presidente do Conselho. Em 1933 fez aprovar a Constituição do Estado Novo, com poderes ditatoriais. Em Braga, em 1936, proferiu um dos seus discursos mais paradigmáticos: «Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a Autoridade e o seu prestígio; não discutimos a Família e a sua moral; não discutimos o Trabalho e o seu dever».
O civil tinha consumado o que o golpe militar tornara possível. E o homem de espada empunhada que entrara em Lisboa a cavalo não teria qualquer papel no regime que ajudara a criar. Gomes da Costa ficou como o homem que derrubou a República e abriu a porta ao Estado Novo. Uma ironia para um homem que se proclamava revolucionário, esteve no poder nem um mês, e que acabou a servir de degrau para uma ditadura que duraria 48 anos. «Politicamente, só existe aquilo que se pode fazer», escreveu Salazar. Gomes da Costa nunca percebeu o que isso significava. Salazar percebeu desde o primeiro dia.