terça-feira, 18 ago. 2026

Ricardo Norte

Um rapsodo no meio dos bárbaros

A história torceu a Odisseia até esta se conformar ao mito de uma Europa sobranceira e colonial. Enquanto a crítica parece incapaz de largar os suas concepções prematuras junto do ecrã, Nolan diz-nos que, ao contrário da imagem do herói escolhido pelos deuses para a glória, a guerra é morte e destruição, e ninguém escapa às suas consequências sem se confrontar com os monstros do seu tempo

Pedras em conversas de vidro

Brecht diz que o povo entende por filósofos aqueles que apanham, os que no combate são melhores a levar do que a dar. O insulto é o que lhes dá o título. Apenas num combate impiedoso contra si próprios, contra as suas inclinações “naturais”, podem descobrir qualquer coisa de outro, sair da estátua de sal das suas opiniões.

Tom Whalen. Moscas num olho de vidro

Proust dizia que o terrível engano do amor era de nos fazer brincar com uma mulher não do mundo exterior, mas com uma boneca dentro do nosso cérebro. As bonecas de Tom Whalen fazem-nos ansiar pela sua graça sem afectos, temer a sua estranheza, adorar o que nos desfaz; odiar o que nos é familiar.

Werner Herzog. A verdade vagueia pelas florestas

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Jean Genet. Um buquê de assassinos

Numa tradução inteiramente revista por esse “engenheiro das letras” que é Aníbal Fernandes, regressa às livrarias o primeiro romance desse anjo tenebroso que, ao cantar a traição, revolveu a arte romanesca, oferecendo à intelectualidade francesa um ato de sublevação contra a sua boa consciência.

Jim Harrison. Devolver os sonhos à terra

Jim Harrison fez sua a frase de Rimbaud "tudo o que nos ensinaram é falso", com um olho aberto para o dia e outro para a noite, atravessou prados e bosques à procura de algo vivo entre os fantasmas que acompanham os homens.

Silvina Ocampo. Estórias para crianças perdidas

Os anos trinta foram anos exaltados para a literatura argentina. No centro do turbilhão a revista “Sur” de Victória Ocampo marcava o ritmo da tempestade. Excêntrica de um modo que todos achavam difícil de adjectivar, a sua irmã mais nova, Silvina Ocampo, atravessou esse centro sem se deixar capturar.

Martinet, um náufrago sem lugar

"A grande vida" de Jean-Pierre Martinet é um pequeno livro que a editora Cutelo atirou, como um petardo de riso e trevas, para as estantes das livrarias. Uma novela escrita numa linguagem fervorosa sobre um mundo coberto de borralho como uma fogueira apagada

Annie Dillard. Uma mobilidade maravilhosa e encantadora

Nos ensaios reunidos em “Ensinar uma pedra a falar”, a Natureza é um campo abandonado, um lugar desencantado, belo, exuberante, mas tecido por um silêncio e um tremor que levam a autora quase sempre ao encontro de uma tensão insuportável.

Denis Johnson. Esta fraternidade infinita

“Haverá sempre um lento alfabeto de chuva” de Denis Johnson saiu há quase dois anos nas edições cutelo, com a tradução de Luís Filipe Parrado, também ele poeta, talvez por isso, alguém que soube respeitar os movimentos de assombro e surpresa na escrita de Johnson, movimentos de quem atravessa lugares de desencanto, atento aos pequenos gestos, às faces apagadas, sem saber o que são, “como aquelas estrelas cujo brilho/ perdura muito para além do momento/ em que se apagam”.

Isidoro Blaisten. O gozo, o acaso e a invenção

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