terça-feira, 09 jun. 2026

Paulo Bugalho

Nós matámos o cão tinhoso: o modo mais cru de herdar a fala

Luís Bernardo Honwana escreveu este livro de contos em 1964, quando tinha apenas 22 anos, e Moçambique estava ainda submetida à administração portuguesa, sendo patente uma estratégia de expressão anticolonialista, servindo-se da língua do invasor para denunciar a invasão.

Lídia Jorge. Misericórdia e a literatura do bem

Desde que o mais recente livro de Lídia Jorge foi publicado tudo se concertou na sua promoção para impedir que o leitor chegasse a ele sem levar em conta toda a aclamação aberrante que o cercou, sendo um livro que cumulou distinções e prémios num efeito sísmico do qual se esperaria que a leitura não pudesse ser mais que uma réplica.

Rabindranath Tagore. O romance sob a forma de cântico

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Apenas o começo de uma ansiedade

Olhando a história da ficção portuguesa no século XX, torna-se impossível ignorar um agrupamento geracional extraordinário nas obras de José Cardoso Pires, Maria Velho da Costa, ou Nuno Bragança. Os romances nucleares do século passado parecem organizarem-se numa órbita estreita, em volta das décadas de 60 e 70, e tomam nessa acumulação o aspecto de um milagre irrepetível. Imaginar as bases de uma explosão deste calibre no século que vivemos arrisca-se a ser um trabalho soturno, mesmo sabendo que ainda estamos no começo.

Vila-Matas no quarto da hiper-literatura

O espanhol Enrique Vila-Matas é o tipo de escritor cujo objecto é a própria escrita e o seu produto aquilo que talvez pudéssemos nomear de hiper-literatura. No seu mais recente livro, a ficção parece ficar presa a uma permanente hipnose por si mesma.

Céline. Uma música escura que persiste

Guerra, publicado agora pela primeira vez, 60 anos depois da morte de Louis-Ferdinand Céline, é parte de um conjunto de manuscritos roubado da casa do autor após a libertação do país, no final da segunda guerra mundial,

Cormac McCarthy: o trabalho de fazer ascender as trevas

Um dos grandes romancistas americanos, que teve alguns romances adaptados ao cinema, e um guião filmado por Ridley Scott, comparado a Melville, Conrad e Faulkner, confrontou-se na sua obra com os traumas históricos da América.

Tove Ditlevsen. A origem da espécie

A Trilogia de Copenhaga (1967-1971), de Tove Ditlevsen, antecedeu em muitos anos os exemplos hoje apreciados da chamada auto-ficção: Knausgårde, Rachel Cusk ou Deborah Levy, e mesmo de Annie Ernaux.  

Hilda Hilst. A obscena senhora H.

Como a violência, a dor, a morte, o luto, e outros temas inevitavelmente apelativos, o sexo serve, em literatura, para apontar: acordando o leitor para o tal gume indefinível que é o trabalho próprio da escrita. Hilst aponta com a desenvoltura de quem conhece a linguagem, nos primeiros contos. Depois desiste.

Quarenta e três anos de solidão: António Lobo Antunes e O Tamanho do Mundo

Quarenta e três anos depois de Os Cus de Judas, Lobo Antunes desinteressou-se da história, ou talvez já não tenha grande coisa para contar, e tudo não passe, para ele, de um interminável jogo de linguagem.

Henrik Pontoppidan. A difícil invenção de um mundo sem deus

Um clássico é um clássico, e Per, O Afortunado é o grande clássico da literatura dinamarquesa, tendo o seu autor, Henrik Pontoppidan, recebido o Nobel da Literatura em 1917.

Ingeborg Bachmann. Alusão, ilusão

O único romance da poeta, e o primeiro capítulo de uma trilogia que nunca se concluiu, Malina tem no seu centro um triângulo amoroso numa Viena decadente, e joga com os limites da linguagem e da loucura, encerrando nas suas páginas o retrato da destruição de uma mulher.