terça-feira, 09 jun. 2026

Fernando Madrinha

Obrigado,  Zé António!

Tinha ideias fortes e defendia-as até um ponto em que parecia apostar somente na diferença e na originalidade, mas, sob a sua direcção, a liberdade e a tolerância não foram palavras vãs; tornaram-se uma prática e um doutrina.

A terceira guerra mundial?

Um jornalista francês afirmou, por estes dias, que a reação de François Hollande aos ataques de Paris foi precisamente aquela que os mandantes dos terroristas pretendiam. A escalada dos bombardeamentos reforça a sua posição no terreno, favorece a propaganda de que se alimentam, bem como o recrutamento junto das populações ameaçadas, pois lhes permitem apresentar-se como a única força em posição de as protegerem. 

A geringonça

Três acordos assinados de pé e à vez, à hora do almoço, sem que os vários subscritores se tenham cruzado naquele discreto gabinete de S. Bento, selaram a nova aliança que se propõe apoiar um Governo do PS “na perspetiva da legislatura”.

A palavra de um comunista

É o que se conclui sobre o delicado processo negocial entre as esquerdas, de cujo resultado se esperam notícias seguras somente neste fim de semana. Ao tempo em que foi anunciada, a tal «solução» não era mais do que uma hipótese ou uma esperança, tudo indicando que Costa tomou, cedo de mais, os desejos por realidade. Ou, então, fez bluff, como no poker, sugerindo que tinha na mão cartas que, afinal, estavam nas mãos de outros. 

A ameaça dos mercados

Um dos argumentos mais repetidos pela esquerda como arma de arremesso contra os adversários do acordo PS-PCP-BE tem sido o de que não se pode invocar a ameaça dos mercados financeiros para desaconselhar tal acordo porque isso é reconhecer e aceitar uma insuportável limitação da democracia portuguesa. É fácil gritar contra a ingerência dos mercados e as ‘políticas de submissão’, humilhantes para qualquer cidadão que preze a independência do seu país. Mais difícil é dizer aonde se vai buscar o dinheiro para satisfazer as necessidades básicas do Estado.

A derrota de Cavaco… e de Soares

Por mais que a apresentação no Parlamento de um Governo PSD/CDS se afigure «uma perda de tempo», como dizem os parceiros da promitente aliança de esquerda que se propõe derrubá-lo, ninguém compreenderia que se negasse à coligação a oportunidade de tentar fazer passar esse Governo.

O mundo ao contrário

Duas semanas depois das eleições legislativas, os portugueses ainda não sabem quem as vai ganhar, dado que os dois principais concorrentes reclamam o direito de formar Governo. À primeira vista, isto é típico de democracias incipientes de outras latitudes, tendo muitas vezes resultados trágicos, como golpes de Estado e guerras civis. Mas, entre nós, há quem se congratule e veja aqui um progresso: agora sim, estamos em sintonia com as melhores práticas das velhas democracias. 

Costa aguenta?

Aestabilidade do sistema partidário foi um dos aspetos mais sublinhados nas leituras dos resultados deste domingo, tendo em conta que os três partidos pró-europeus responsáveis pelo governo nas últimas décadas mantiveram uma elevada representação eleitoral: cerca de 70% dos votos expressos.

O mistério dos indecisos

É difícil conceber uma campanha que contribua mais para confundir do que para esclarecer os eleitores e ajudá-los a decidir em quem votar. Mas é assim que no-la apresentam as sondagens. Supondo-se que os sondados não se mancomunaram para trocar as voltas aos sondadores, o crescimento contínuo do ‘partido’ dos indecisos, à medida que se aproxima a hora do voto, é o grande mistério desta campanha.

Paulo, o jogador compulsivo

Paulo Portas fez esta pergunta aos apoiantes que o ouviam num comício da coligação em Setúbal: para cuidar das nossas finanças, preferem Maria Luís Albuquerque ou Mário Centeno? É uma pergunta tão legítima como qualquer outra, embora um tanto despropositada, porque os termos de comparação não se equivalem.

Catarina, a implacável

Se os debates na TV fossem tão decisivos como os pintam, o Bloco de Esquerda ganharia as eleições. Vistos os factos e os argumentos, a pose e a ‘atitude’, como dizem no futebol, bem como as circunstâncias específicas de cada um dos líderes frente-a-frente, Catarina Martins foi a revelação da pré-campanha. Uma revelação contra si própria, se isto se pode dizer de alguém que, parecendo outra, apenas confirmou as qualidades de sempre: desenvoltura na linguagem, argumentação poderosa, domínio dos assuntos, prontidão na resposta e rapidez de raciocínio, sempre capaz de surpreender. 

Costa arriba

Ao minuto 62, ou algures por aí, Judite de Sousa teve um rebate: “Não podemos continuar a falar do passado”. Faltava meia hora para o fim e, até então, nada de novo. Com a complacência dos entrevistadores, Passos Coelho tinha contado ao pormenor a conhecida história da bancarrota e da pesada herança deixada pelo engenheiro Sócrates, assim recordado abundantemente, e António Costa lembrara várias vezes, mostrando documentos e gráficos, que o Governo quis a troika em Portugal e distribuiu a austeridade em dobro, castigando os portugueses muito mais do que o necessário só para impor o seu programa ideológico.