Bruno Gaspar

Na ilha dos prazeres

Esta crónica começa com um desvio. Cheguei a Lisboa, mas vou mudar o destino. Vou à boleia do Funchalense V, um porta-contentores que percorre semanalmente a rota Lisboa -Madeira. Encontro-me a 2 milhas da Ponta de São Lourenço. Daqui ao Funchal são 25 quilómetros. Estou hospedado na Quinta do Lorde. Do meu quarto avisto o mar. Vejo perfeitamente as ilhas Desertas (ilhéu Chão, Deserta Grande e o Bugio). Elas ganham cores diferentes mediante os meses e as horas do dia. Agora, definem-se com perfeição, em tons terrosos, num céu sem nuvens.

Memórias da vida do mar

De Póvoa de Varzim a Vila do Conde é um palmo e as Caxinas. Noutros tempos, não existia esta estrada à beira mar a unir os dois concelhos. O tempo soprou as areias e o progresso suspirou cimento. Aqui cresceu esta comunidade. Os azulejos garridos, com padrões diversos, são a pele das ruas das Caxinas. São várias as décadas que sentiram o palpitar dos corações das famílias. Parecem ter água do mar a correr nas veias. É provavelmente uma das maiores comunidades piscatórias de Portugal. Espalham-se ao longo da costa, por conta própria ou ao serviço de outros armadores. Infelizmente, já não é de estranhar que esteja presente um caxineiro em naufrágios que estão para além da nossa frente oceânica.

De cuecas na Apúlia

A minha viagem começou há três semanas. Não está a correr como eu planeava. É difícil conseguir boleia de barco, até porque por vezes o mar está tão bravo que nem o mais destemido pescador se atreve a enfrentá-lo.

Primavera no Norte

A lenha crepita na salamandra. O frio ronda as ruas de Viana do Castelo, mas a estação que se faz sentir aqui dentro é outra. Estou no Primavera, um estabelecimento também conhecido por Taberna Soares, na Rua Góis Pinto. Fico numa das mesas de madeira, coberta por toalha de papel. Guardanapo e talheres são postos à minha frente para iniciar a degustação.

A nossa costa começa aqui

O céu está carregado. Deslumbro-me com os degradés de cinzento que anunciam chuva. Respiro sofregamente enquanto caminho em direcção ao meu repouso: o ar é denso e custa a entrar pelos pulmões. Trago um saco com roupa, o computador, a máquina fotográfica, Moleskines e um bater especial do coração.

Submergir de corpo e alma a bordo do Tridente

Chego à Base de Alfeite a meio de uma tarde que deambula entre a chuva e uns rasgos de sol. Recebi há dias a autorização da Marinha Portuguesa para viajar no submarino Tridente. A curiosidade é enorme.

Porto sentido

Foi-se o Verão e chegou o Outono. Mas só no calendário. Na verdade, pouco mudou nas ruas. O calor mantém-se. As folhas ainda se pavoneiam nos ramos das árvores. Continuam espevitadas até se tornarem bailarinas dos ventos da estação. As aulas começaram entretanto e os putos da Ribeira do Porto já não estão aos pinotes nas águas do rio, como é habitual nos dias mais quentes.

Os sabores da baixa (e arredores)

O estuário do Tejo, onde se espelha Lisboa, encontra-se coberto por uma fina folha de neblina branca. Estou a passar por baixo da Ponte 25 de Abril. Por  aqui o rio atinge 32 metros de profundidade. O barco que me transporta rasga as águas contra a corrente. Vem cheio de vontade de terra. Os fenícios, que fundaram a cidade, já faziam esta mesma travessia mesmo antes de Cristo ter nascido.

Caldeirão, meu Amor

Na serra do Caldeirão bebo histórias que não cabem em quatro páginas. O calor dá-me vontade de conduzir a Macal em pelota (o que não faço), mas também encontro locais refrescantes. Como uma queda de água linda de morrer e uma piscina  onde não há mais ninguém, um segredo que pondero guardar só para mim.

As colinas sensuais de Monchique

“Iiiiiiiii! Iiiiiiiiii!!! Iiiiiiii!!!!”. Esta é a banda sonora do 'filme' de faca e alguidar a que assisto. O suíno solta os últimos grunhidos de vida. Faz-se ouvir na serra de Monchique de vale em vale. O animal será alimento para o ano inteiro.

O vento que embala o extremo sudoeste

Batem as 17h00 no relógio da torre sineira da igreja matriz de Vila do Bispo. O vento despenteia-me. Hoje estou com sorte, mas parece que a maresia do   Atlântico vagueia por estas ruas. Dirijo-me ao hotel para reservar quarto. Com meia dúzia de palavras trocadas com a senhora da recepção descubro ligações familiares entre a proprietária e o meu amigo Joel, que chega amanhã – está de férias e vai-me fazer companhia durante uns dias. Será ele a aturar-me quando eu lhe pedir para tirar esta ou aquela foto enquadrada por mim e serão as mãos dele a filmar mais uns minutos desta viagem.

Almadraba atuneira

A Macal nunca me falha, mas pede-me gentilmente momentos de frescura por causa do calor. Mergulho nas águas doces do Pego do Inferno, em Tavira, e visito alguns locais emblemáticos da pesca do atum. E, já que estou no Sotavento Algarvio, impõe-se uma viagem até Vila Real de Santo António, a cidade mais iluminista de Portugal.