A experiência, que estará patente até 4 de junho, foi inaugurada no evento promovido pela Associação Portuguesa de Pessoas que Vivem com Obesidade (ADEXO) que assinalou o Dia Nacional de Luta Contra a Obesidade (23 de maio). O tema “Obesidade: Uma doença invisível?”, reuniu a ADEXO e as principais sociedades médicas, tais como a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), da Sociedade Portuguesa de Cirurgia da Obesidade e Doenças Metabólicas (SPCO) e da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI).
Onde as histórias ganham voz
Na iniciativa ‘Stories Can’t Wait’, o percurso dos visitantes é marcado pela "Torre dos Desequilíbrios", uma instalação que simboliza os obstáculos e o peso emocional da obesidade, com palavras como "Angústia", "Preconceito" e "Frustração" inscritas nos seus blocos. Esta peça serve de introdução à experiência: os dez testemunhos reais que partilham não só as dificuldades, mas também a esperança e as melhorias transformadoras que surgem após o controlo da doença, servindo de motivação para que outros procurem ajuda.
"As estatísticas são importantes, mas não contam a história toda. Não descrevem a luta diária contra um corpo que resiste à perda de peso, nem o fardo do estigma que esta doença acarreta. Com a iniciativa ‘Stories Can’t Wait’, queremos dar um rosto a esta realidade e reforçar uma mensagem inequívoca: a obesidade é uma doença crónica e complexa, não uma escolha. O nosso compromisso, enquanto empresa de ciência, é partilhar o conhecimento que hoje nos permite reescrever estas histórias com esperança, substituindo o julgamento pela empatia.", explicou Maria Rita Dionísio, Diretora Médica da Lilly Portugal.
“A iniciativa tem frases muito impactantes”, destacou António Mexia, um dos visitantes, que considera que o “Estado deve apoiar mais estes doentes”, atendendo às inúmeras dificuldades relatadas na primeira pessoa.
Um ponto de viragem: da discussão à solução
O evento que marcou a inauguração da iniciativa reforçou a urgência de uma nova abordagem. "Além da estatística, existe uma batalha pessoal e silenciosa contra a biologia e o estigma social, que insiste em responsabilizar o doente", afirmou Carlos Oliveira, presidente da ADEXO. "É fundamental que os doentes procurem ajuda médica qualificada e não soluções ilusórias sem validade científica."
Uma ideia corroborada pela ciência. "É imperativo desmistificar a noção de 'falta de força de vontade'", declarou Nuno Vicente, secretário-adjunto da SPEDM. "Do ponto de vista endocrinológico, o organismo de uma pessoa com obesidade está programado para resistir à perda de peso através de complexos mecanismos hormonais. Não se trata de uma falha de carácter, mas de uma condição biológica complexa."
As consequências dessa condição são sistémicas. "Em Medicina Interna, testemunhamos diariamente o 'efeito dominó' da obesidade. Esta condição é um fator de risco para mais de 200 outras doenças", explicou Catarina Lucas, coordenadora-adjunta do Núcleo de Estudos da Obesidade da SPMI. "Tratar a obesidade de forma eficaz é a estratégia de prevenção mais poderosa para aliviar a pressão sobre os doentes e sobre o Serviço Nacional de Saúde."
Para isso, é crucial garantir o direito a um percurso integrado. "A jornada do doente tem de ser apoiada pela ciência, equipas multidisciplinares e acesso a terapêuticas inovadoras", defendeu José Silva Nunes, presidente da SPEO. Uma visão partilhada por Leonor Manaças, vice-presidente da SPCO: "A cirurgia metabólica é uma ferramenta de elevada eficácia, mas muitos doentes são referenciados tardiamente. É crucial que a intervenção seja mais precoce, impedindo a evolução da obesidade e doenças associadas."
Um apelo à ação
A união entre especialistas e doentes, reforçada neste encontro, envia uma mensagem clara: o tempo de espera terminou. Agora, o desafio é traduzir este consenso em políticas públicas eficazes, uma exigência já sublinhada em março no “Manifesto pela Ação Urgente na Obesidade”, também assinado pela Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar. Como lembrou Carlos Oliveira, o argumento é de foro económico, uma vez que por cada euro investido no tratamento da obesidade, o Estado tem um retorno de até seis. Contudo, está também em causa um direito fundamental, dado que a atual ausência de equidade no tratamento "não é compatível com o que consagra a Constituição"
Enquanto a resposta coletiva se desenha, o convite individual está feito: visitar a ‘Stories Can’t Wait’ é uma oportunidade para ler e ouvir as histórias que não podem esperar e compreender, de uma vez por todas, que a obesidade tem uma voz e o direito a uma melhor resposta.
CMAT-32100/MAI2026