quarta-feira, 11 fev. 2026

Vivemos uma fase negra

Quando no_Brasil já não se pode dizer que alguém teve um dia negro, é sinal de que o mundo está mesmo de pernas para o ar

Quem conhece o Brasil sabe que a diferença para Portugal pode (podia) ser medida entre o fado e o samba. Segundo rezam as crónicas, foram os portugueses que inventaram a célebre frase ‘a vida são dois dias e o Carnaval são três’, mas foram os brasileiros que a colocaram em prática. Mas muita coisa está a mudar e o Brasil está a tornar-se num país que vive próximo de uma ditadura do politicamente correto, ‘queimando’ uma história rica em liberdade de pensamento. Como é óbvio, nem todos seguem os fundamentalistas wokistas, mas estes conseguem cancelar muito boa gente. Para se ter uma ideia, veja-se o que se passou com o treinador português Luís Castro, depois de o seu Grêmio Porto Alegrense ter perdido um jogo. No final do encontro disse: «Vamos trabalhar, eu acho que só há uma forma de seguir em frente é com trabalho. Não há outra forma. Não é lamentar, não é pôr a cabeça para baixo para os outros terem pena de nós. Foi um dia negro para nós. Foi um dia negro para nós, mas acabou».

Tudo seria normal, mas eis que Luís Castro começou a ser acusado de racista por ter dito que tinha sido um dia negro para a equipa. Horas depois, após os tais fundamentalistas que querem destruir o Brasil, e não só, terem barafustado, Luís Castro foi obrigado a autoflagelar-se nas redes sociais, dizendo: «Venho a público pedir desculpa em relação à expressão utilizada no final do clássico deste domingo em conferência de imprensa. Em momento algum tive a intenção de praticar qualquer ofensa racista. Referi-me unicamente ao contexto do jogo». Mas Castro teve de concluir: «Reforço a minha posição de defesa da igualdade como valor social. Igualdade de oportunidades, raças e religiões. Reafirmo as minhas humildes desculpas. Respeito a aprendizagem com o compromisso de não repetir a expressão».

Parece que a autoflagelação amenizou os ânimos. Este é o mesmo país onde os pobres ainda gozam de alguma liberdade de pensamento e onde se escreve à entrada de favelas ‘Carnaval chegando usem camisinha, Zona Norte não cabe mais gente feia não’. E falo no Brasil porque acho que é um bom exemplo do que se passa no mundo, onde o histerismo e fundamentalismo de alguns é contrariado por outros. No mesmo Brasil assistimos ao poder dos evangelistas, que querem combater aquilo que eles dizem ser a «cristofobia», pretendendo proibir símbolos religiosos nos festejos do Carnaval. Mas onde em Santa Catarina o governador Jorginho Mello «sancionou um projeto de lei que proíbe as cotas raciais nas universidades públicas estaduais e nas universidades privadas que recebem recursos do estado». «O texto, proposto pelo deputado estadual Alex Brasil (PL-SC), resguarda a reserva de cotas para pessoas com deficiência, de baixa renda e estudantes da rede pública. Para o caso das cotas para pretos e pardos, porém, as instituições que ainda insistirem no mecanismo podem ser multadas em até R$ 100 mil, além de terem seus repasses suspensos», escreve ainda a Gazeta do Povo.

Enquanto isso, no Japão continua a impedir-se a construção de cemitérios para muçulmanos, pois a cremação é que faz parte da tradição nipónica, como foi o caso da localidade de Miyagi, em que os protestos obrigaram o governo local a fazer marcha-atrás. Também foi amplamente divulgado que os Emirados Árabes Unidos não querem mandar os seus estudantes universitários para o_Reino Unido, pois temem o radicalismo islâmico (!!) instalado nas universidades inglesas. É também no Reino Unido que se defende que os trans têm de ser reconhecidos pelo seu sexo biológico. No Paraguai a história não é muito diferente.

É nesta esquizofrenia que, infelizmente, vivemos, não conseguindo os moderados tirar trunfos aos fanáticos, de esquerda ou de direita. E isto não augura nada de bom.

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Vergonha nacional

Não tenho acompanhado muito o drama dos estragos causados pelo mau tempo, mas sei que já se perderam vidas humanas. E também sei que serviços fundamentais ficaram, de novo, sem telecomunicações. Alguém consegue explicar o escândalo do sistema SIRESP? E, já agora, se as pessoas que estão sem eletricidade e comunicações vivessem em Lisboa ou no Porto isso aconteceria? Claro que não.

Morte no Polana

A Polícia Judiciária e o Instituto de Medicina Legal já estão em Moçambique, onde foram analisar as provas da morte do português Pedro Ferraz Correia dos Reis. Suicídio ou assassínio? Esperemos pelo que diz a investigação. Mas sabe-se que a empresa Luxoflex, Lda, que tem como uma das acionistas Cláudia Nyusi, filha do ex-Presidente Filipe Nyusi, «foi alvo de uma ordem judicial por uma dívida de 304,7 milhões de meticais junto do BCI (Banco Comercial e de Investimentos)», e que Pedro Ferraz Reis é que deu a cara pela instituição bancária. Curiosamente, aquando do empréstimo, o BCI era maioritariamente detido pela CGD e pelo BPI. E o presidente da Comissão Executiva era Paulo Alexandre Sousa, hoje provedor da Santa Casa de Misericórdia de Lisboa.

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