Houve um tempo em que nalgumas redações quase se faziam campeonatos de Tetris, no intervalo dos textos, enquanto outros se entretinham mais com o Pac-Man, um jogo onde o objetivo era o glutão ir comendo o que encontrava pela frente, acabando, muitas vezes, por ser ‘comido’ por algum fantasma. Lembrei-me deste jogo a propósito da primeira volta das presidenciais, em que Gouveia e Melo e Marques Mendes foram vítimas do jogo. O almirante fez de glutão, dando bicadas atrás de bicadas no candidato do PSD, em que este fazia de fantasma, ou vice-versa. O resultado foi o conhecido, o almirante queria afundar Marques Mendes e acabou por ir ao fundo, o mesmo acontecendo ao candidato apoiado por Luís Montenegro, terminando os dois por se matarem um ao outro.
Confesso que me diverti com várias análises feitas no calor da noite eleitoral, nomeadamente os conselhos que alguns analistas deram ao primeiro-ministro, dizendo que ao não declarar o apoio a António José Seguro, Montenegro corre o risco de decretar o seu harakiri político. O mais engraçado é que algumas dessas personagens têm mais vidas do que um gato, pois já fizeram vários harakiris em direto e continuam a errar em toda a linha, mas como uma descontração digna de um monge budista.
Não quero entrar por esse campeonato, mas muito boa rapaziada esquece-se que Montenegro precisa de André Ventura para governar e se hostilizasse o candidato do Chega teria dificuldades no Parlamento, além de que a ala mais à direita do seu partido não lhe perdoaria o apoio a Seguro.
Continuando em momentos altos da noite eleitoral, o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda, duas forças nada extremistas, que sofreram mais uma derrota impressionante, optaram por dar mais ênfase à derrota de Montenegro do que ao seu próprio desastre. É certo que se pode argumentar que os seus eleitores típicos optaram pelo voto útil em Seguro, mas, por este andar, vão parecer aqueles sindicatos da PSP que tinham mais delegados do que sócios.
Agora a parte de Ventura. Quem conhece o líder do Chega, e parte do seu eleitorado, sabe perfeitamente que ele quer tanto ser Presidente da República como eu quero ser esquimó. As Presidenciais são apenas um trampolim para tentar alcançar a presidência do Governo a curto ou médio prazo. Se a esquerda e a direita tradicional se quisessem ver livres do Chega, votavam em André Ventura para Presidente, contribuindo para o declínio do partido. Ou alguém acha que o Chega terá uma grande votação em Legislativas sem o seu líder espiritual?
Tenho amigos muito diversos que votaram desde António Filipe até André Ventura, mas conheço alguns cheganos, sem qualquer carga pejorativa, que optaram por Cotrim Figueiredo e já me confessaram que vão votar em António José Seguro, nulo ou irão optar pela abstenção. Não querem, de todo, Ventura em Belém, querem-no em São Bento. Acredito mesmo que o líder do Chega irá ficar com o coração nas mãos no próximo dia 8, pois não deseja ter menos de 40%, mas também não quer ter mais do que 50%. Quer sim ter mais votos que a AD nas últimas Legislativas, mas não quer, seguramente, que o cenário quase impossível se transforme em realidade.
Quanto a António José Seguro, imagino a alegria que não terá tido por ter derrotado a tralha socrática que tanto o desprezou, com Augusto Santos Silva à cabeça do pelotão, vendo-se logo atrás a histriónica Isabel Moreira. Já o seu amigo José Luís Carneiro nunca deixou de lhe dar apoio de uma forma inteligente, dando-lhe espaço para assumir uma candidatura suprapartidária. Só um aparte sobre Seguro, não deixa de ser curioso que o almirante Gouveia e Melo tenha sido ‘colado’ à Maçonaria, enquanto o candidato apoiado pelo PSassobiou para o ar, pois na família da mulher não falta tradição maçónica...
Quanto a Cotrim de Figueiredo, tenho de dar uma ‘bicada’ em mim próprio. Escrevi a 19 de setembro último o seguinte: «É um mistério de difícil compreensão. Saiu da liderança [da IL] alegando que o partido precisava ‘de uma atitude mais combativa, abrangente e popular’, algo que não lhe faltou para ser o cabeça de lista do partido às últimas eleições europeias, nem tão pouco às próximas eleições presidenciais. Cotrim não se candidata para o seu partido – que continua a controlar à distância – ter tempo de antena, mas sim para ter visibilidade pessoal. Sabendo que tem muito poucas hipóteses de ganhar, e cá estarei para me retratar se vencer, a candidatura de Cotrim é a de mais difícil compreensão». Não ganhou mas teve um grande resultado e até cresceu uns centímetros para exigir que os seus quase 900 mil eleitores tenham alguma utilidade.
Quererá Cotrim reassumir a liderança do partido ou quer combinar algo completamente diferente? Que tem um ego do tamanho do mundo, poucos duvidam e talvez tenha pouca memória, pois Sampaio da Nóvoa, em 2016, conseguiu convencer mais de um milhão de portugueses e não levou esse milhão para lado algum. Ou mesmo Ana Gomes que teve mais de 500 mil votos. Não consigo perceber esta mania de os candidatos acharem que são donos dos votos que receberam, mas veremos as cenas dos próximos capítulos.