Um Deus chamado Neves

No passado sábado, enquanto me ia distraindo com os afazeres domésticos, percebi que na televisão estavam a transmitir uma procissão que passava na Rua do Benformoso, e em cima do andor ia o Menino Luís Jesus Neves Cristo.

Mostrando o diálogo inter-religioso defendido pelo Papa Francisco, os muçulmanos da zona associaram-se à procissão, surgindo como se fossem numa peregrinação a Meca, enquanto a comunidade hindu não perdeu a oportunidade de encher as artérias com flores e tintas coloridas, e mesmo os asiáticos que vivem na área também se associaram à festa. Afinal, Luís Neves é uma espécie de Deus, Alá, Buda ou o que se queira, para uma parte significativa dos comentadores que ocuparam as televisões nesse sábado. Não sei se, nesse dia, apareceu algum refratário a tal pensamento, algo que veio a acontecer nos dias seguintes, pois os encómios de sábado atropelavam-se uns aos outros e começava a ser demais.

Tenho amizade, respeito intelectual e profissional por alguns dos que deram loas a Luís Neves, mas discordo totalmente de tais apreciações, admitindo que me venha a enganar profundamente, e que o antigo diretor nacional da Polícia Judiciária se venha a revelar um ministro que ficará na história. Se tal acontecer, terei todo o gosto de dizer que estava errado. As minhas discordâncias começam logo pela razão principal: como é possível que alguém que mandava avançar ou recuar investigações, algumas das quais envolvendo governantes ou líderes parlamentares, passa desse papel para o de ministro, isto é, para o lado do poder político? Esta situação pode dar azo a todas as interpretações possíveis, pois Luís Neves sabe perfeitamente que processos estão a decorrer que envolvem políticos.

Depois nunca consegui perceber como é que Luís Neves esteve cinco meses para ser reconduzido no cargo de diretor nacional da PJ. Se a ministra Rita Júdice assumiu que o mesmo continuaria em serviço até à nomeação do novo homem forte da instituição, o que se terá passado para lhe ter sido prolongada mais uma comissão de serviço de três anos?

Penso que há duas razões fundamentais para Luís Neves recolher tantos apoios públicos. Em primeiro lugar, assumiu na Assembleia da República que não havia um aumento da criminalidade, quando não era verdade, pois os dados do Relatório Anual de Segurança Interna de 2024 – os do ano passado devem sair até ao final de março, e apontam para uma diminuição da criminalidade violenta e um aumento da criminalidade geral – demonstravam que tinha havido um aumento da criminalidade violenta e uma diminuição da criminalidade geral, num ano em que os polícias estiveram quase seis meses em greve de zelo. Mas o que fez vibrar muito alguns comentadores foi o facto de Luís Neves defender que o aumento da imigração não pode ser associado à criminalidade em geral. Tem toda a razão, não é por alguém ser imigrante que é delinquente, embora Neves saiba perfeitamente que se há mais pessoas no território, independentemente da nacionalidade, até podem ser emigrantes que voltaram, é natural que haja mais crimes. Além disso, esqueceu-se de falar em fenómenos como o PCC, o Comando Vermelho ou máfias de outras latitudes que se estão a instalar em Portugal. Mas a esquerda caviar, e não só, entrou em êxtase com tais afirmações. A outra razão para Luís Neves merecer tantos elogios é mais do que óbvia, pois não conheço ninguém que diga mal das suas fontes...

Terminando com o outro lado da questão. O novo ministro da Administração Interna conseguiu revolucionar a Polícia Judiciária, tendo duplicado o quadro de efetivos, recrutou técnicos especializados e conseguiu um aumento muito significativo dos ordenados para os seus homens e para si próprio – já agora, Neves manterá o ordenado de diretor nacional da PJ ou de ministro, que é bem inferior?

Luís Neves tornou a PJ numa polícia elogiada internacionalmente, veremos se consegue fazer algo semelhante no MAI.

vitor.rainho@nascerdosol.pt

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