segunda-feira, 08 jun. 2026

O retiro de Marcelo e de Marques Mendes

Marcelo e Marques Mendes dominaram a agenda política durante longos anos e agora optaram por desaparecer de cena. É estranho.

Confesso: nunca acreditei que o nome de Marcelo Rebelo de Sousa, bem como dos seus heterónimos, desaparecesse da comunicação social e que as fontes próximas do ex-inquilino de Belém se remetessem ao silêncio. Poucos dias antes de terminar a sua presidência, fiz o que vários jornalistas devem ter feito: pedi-lhe uma entrevista, tendo-me respondido que podia acreditar que não iria falar a ninguém e que ia desaparecer do espaço público. Quando li uma entrevista que deu, depois disso, à TV Guia, fiquei desconfiado e pensei que os seus heterónimos continuariam a falar para a comunicação social. Pelos vistos, estava enganado e, passados mais de dois meses, Marcelo, além de conversas de circunstância, tem-se remetido ao silêncio. Calculo que o ex-Presidente esteja a sofrer horrores com o seu desaparecimento do espaço público, algo que não acontece há mais de 50 anos! O Vitorino Nemésio dos tempos modernos, que falava com os portugueses à janela da televisão, transformou-se Presidente e nos últimos dez anos foi difícil ver um noticiário ou um jornal e não pressentir que havia ‘dedo’ de Marcelo. Um homem divertido que adorava surpreender-se a si próprio com as suas ‘maluqueiras’, levando essa forma de vida ao limite. Os seus apertos de mão vão ficar na história de Belém. Mais a sério, é inquestionável que Marcelo fez mais pelos países que falam a língua portuguesa do que qualquer outro Presidente. As suas idas a Angola, Guiné ou Moçambique, por exemplo, mostraram como os povos estão muito mais ligados do que alguns querem fazer crer. 

Tão ou mais surpreendente que a reclusão do antigo Presidente é a evaporação de Luís Marques Mendes, o homem que sucedeu a Marcelo na liderança das audiências televisivas. Mendes, antes de avançar para a corrida a Belém, conseguia, nalguns domingos, bater as audiências de Ricardo Araújo Pereira. Mas a tentativa falhada de chegar a Belém levou Mendes a dedicar-se totalmente aos seus negócios e a optar por evitar o espaço público noticioso. É pois natural que as conversas entre os dois entrem pela noite dentro, já que são dois noctívagos assumidos. Mas não deixa de ser estranho que dois dos homens que mais tempo de antena ocupavam tenham decidido tornar-se quase invisíveis.

Quem não mudou nada, apesar da surpresa de algumas virgens, foi o PCP. As declarações de Paula Santos, líder parlamentar, a defender os gloriosos tempos do ‘império’ da União Soviética, estão em perfeita sintonia com o Comité Central do PCP. Tal como o lacónico comunicado a propósito da morte de Carlos Brito, que, segundo me garante um dos maiores ‘estudiosos’ do PCP, nunca foi braço-direito de Álvaro Cunhal, ‘cargo’ desempenhado por Octávio Pato e depois por Domingos Abrantes. Mas quem estranhou a bizarra nota de pesar tem memória curta, pois os comunistas sempre se comportaram assim com todos aqueles que bateram com a porta. Foi assim com Francisco Martins, João Pulido Valente e Rui D’Espiney, ainda nos anos 60, tendo mesmo, supostamente, os denunciado à PIDE; com Vital Moreira e o grupo dos seis; com Zita Seabra, que foi mulher de Carlos Brito; ou com todos aqueles que viriam a formar a Política XXI. O PCP nunca teve na sua génese a democracia e assim irá acabar os seus dias, sonhando com os tempos gloriosos da antiga União Soviética, dos gulags ou das invasões da Hungria e Checoslováquia.

vitor.rainho@sol.pt