Vou começar recordando máximas do futebol português: «Desde que vi um porco a andar de bicicleta já acredito em tudo»; «O que hoje é verdade amanhã pode ser mentira»; ou ainda «vocês os três façam um quadrado». Podia citar muitas mais, mas acho que são suficientes para ilustrar o caso que envolve o atual ministro da Administração Interna. O_SOL noticiou que Luís Neves tinha escolhido um empreiteiro que fez obras na Polícia Judiciária para tratar dos seus projetos imobiliários, o que, para muitos, não passaria de uma chico-espertice nacional, que nada afetaria a sua credibilidade. Depois surgiram mais notícias sobre tanques que eram piscinas, declarações de rendimentos que não foram entregues, até que aparece a cereja em cima do bolo: um atrelado com mais de 60 bidões de produtos químicos apreendidos numa operação da PJ, ligada ao tráfico de droga, e que estava à guarda da autoridade marítima, é levado para as instalações privadas do empreiteiro amigo do antigo diretor da Polícia Judiciária. A Marinha dizia que não tinha condições para garantir a segurança dos produtos químicos, mas o o empreiteiro amigo, supostamente, tinha as devidas condições de segurança para guardar o material ‘explosivo’.
Durante dias, Luís Neves nada disse sobre quem deu a ordem para o material em questão acabar em Barcelos, terra do homem das obras. Até que, note-se, a antiga diretora nacional adjunta da PJ, que tinha a incumbência de gerir as «viaturas e demais objetos apreendidos» pela instituição, diz à CNN Portugal que só teve conhecimento da existência do referido atrelado pela televisão. Luísa Proença acrescentava que caberia a Luís Neves explicar a novela dos bidões. Eis que, no dia seguinte, a CNN Portugal noticia que Álvaro Pires, diretor financeiro e do património da PJ, assumiu internamente ter sido o responsável pela entrega dos bidões ao empreiteiro João Carvalho, pois como a Marinha não tinha condições para guardar o material, e como a PJ não tinha dinheiro para mandar destruir os produtos químicos em segurança, Álvaro Pires, que fiscalizava umas obras na companhia de João Carvalho, desabafou com o empreiteiro que não sabia o que havia de fazer aos bidões, ao que o amigo de Luís Neves se ofereceu imediatamente para ficar com eles à sua guarda, tendo-os ido buscar ao Seixal, às instalações da Marinha. Será engraçado descobrir o documento onde Álvaro Pires assinou a transferência dos bidões.
Além de empreiteiro, pelos vistos, João Carvalho é um expert na guarda de produtos químicos. Álvaro Pires esteve calado durante muito tempo, mas acordou no dia seguinte às declarações de Luísa Proença. Diga-se que, pelo meio, surgiram notícias a dar conta de que a procuradora responsável pelo inquérito tinha determinado a destruição dos produtos químicos, isto porque, supostamente, alguns advogados envolvidos no processo Pacoba estariam a preparar-se para considerar nulas as provas que incriminam os seus clientes no caso de tráfico de droga.
Voltemos às máximas do futebol: quando o caso do atrelado ‘manchava’ publicamente o atual ministro, e após um silêncio ensurdecedor, eis que surgiu do nevoeiro Álvaro Pires, limpando, de uma penada, a imagem de Neves. Melhor é impossível. Já agora, se a decisão de levar os produtos químicos para a propriedade do empreiteiro foi a correta, qual a razão para a atual direção da PJ ter decidido ‘resgatar’ os bidões?
P.S. Alguns militantes do PS fazem lembrar o antigo ministro da propaganda de Saddam Hussein, que perante a presença das tropas americanas nas suas costas – ou no horizonte, como se queira – insistia que os soldados dos EUA jamais entrariam em Bagdad. Mohammed Saeed al-Sahhaf, de seu nome, era um cão de guarda de Saddam. Já a defesa de alguns socialistas ao ministro Luís Neves é um verdadeiro mistério. Calculo que uns o façam por ‘simpatia’ passada, outros, imagino, fazem-no porque se acham uns génios que não descem às minudências como as descritas atrás. ‘Pensam: que chatice, falar de atrelados com produtos químicos, de transparência, é de quem é muito pobre de espírito’. Lol.
P. S. 2. A conferência de imprensa de Luís Neves foi patética. Ventura é que surfou, como se estivesse no Havai, com o ‘desastre’ de Neves. O ministro deu mais uns milhares de votos ao Chega!
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