Comecemos com um conselho ‘africano’ que me deram há uns anos, que é começar por dizer bem. Luís Neves foi nomeado ministro da Administração Interna (MAI) há quase três meses e decidiu seguir uma máxima de Ferreira do Amaral, o ministro das Obras Públicas de Cavaco Silva, que, disse então, mais não fez do que abrir as gavetas e tirar os projetos que estavam à espera de ‘andamento’. Assim nasceram muitas das autoestradas do período cavaquista. O antigo diretor-geral da PJ quando chegou ao MAI também abriu as gavetas e foi buscar os processos disciplinares de guardas e agentes e decidiu na hora pela expulsão dos mesmos – decisão em sintonia com as chefias da GNR e da PSP. Teve mérito e não deixou o assunto morrer nas gavetas, ao contrário das suas duas antecessoras.
Mas Luís Neves tem um impulso tão forte pelo estrelato que aparece por tudo e por nada a dizer de sua justiça, mesmo quando tem pouca informação sobre os assuntos. Façamos uma pequena pausa, e recuperemos o conselho africano: não há memória de um Ministério com tantas notícias diárias nas televisões, jornais, rádios, sites e por aí fora. A equipa de Neves, e essencialmente a sua assessora política, está a fazer um trabalho magnífico, que deve deixar as melhores agências de comunicação, ou as mais conhecidas, como sejam, por exemplo, as de Luís Bernardo ou de Luís Paixão Martins, envergonhadas. O trabalho é tão notável que Luís Neves é uma espécie de guarda-costas do Governo, pois as trapalhadas dos outros governantes são ‘escondidas’ pelo sucesso do novo ministro – não esquecer que a esquerda caviar tem uma grande simpatia pelo antigo diretor da PJ.
Vejamos. Os acidentes mortais nas estradas aumentaram, logo surgem notícias a dizer que a solução milagrosa passará pelo regresso da Brigada de Trânsito (BT) da GNR, que fiscalizará com mão de ferro os condutores incumpridores. Notícia para aqui, notícia para ali, e dois dias depois fica a saber-se que, afinal, a nova BT terá os mesmos elementos que hoje tratam do trânsito na área da Guarda. O ministro diz que vai reforçar as estradas com radares e que vai ser implacável, mas não reparou que, só em Lisboa, metade estão vandalizados, à semelhança de muitos outros espalhados pelo país.
Uns dias depois, Neves anuncia a ida para a pré-aposentação de 900 agentes da PSP, pois irão entrar 1400 até ao final do ano. Notícia para aqui, notícia para ali, o ministro é um génio, segundo os seus apóstolos. Mas façamos as contas, como dizia um célebre engenheiro que ficará na história como o pior secretário-geral da ONU. O curso de agentes que termina a 28 de maio, e que deveria ‘lançar’ para as ruas 600 polícias, afinal só vai libertar 572 no máximo, pois suspeita-se que dois ainda deverão reprovar, baixando o número para 570. O novo curso, que começará a 15 de junho, e que terá uma duração de apenas seis meses, pois terminará a 18 de dezembro, era suposto formar 800 novos agentes, só que neste momento, depois da seleção natural, só restam 683 candidatos, suspeitando-se que, destes, 40 não sejam admitidos por não cumprirem todos os requisitos – antes de se chegar aqui, alguns milhares ficaram pelo caminho. Portanto, dos 1400 agentes que Luís Neves anunciou, o número não deverá ultrapassar os 1215, informação que não aparece nas manchetes dos noticiários...
Já agora, os cursos de formação são fundamentais para o futuro desempenho de novos agentes, mas ser um bom polícia ou um mau bandido – e não há outro nome para aqueles que se provarem que cometeram os crimes nas esquadras do Rato e do Bairro alto – não é ditado apenas pelo curso. Atentemos em dois nomes revelados pelo Correio da Manhã: Guilherme Leme, supostamente um dos mais ativos nas agressões bárbaras a pessoas fragilizadas, entre sem-abrigo e imigrantes, ficou em 320 lugar, entre 574, no 18.º curso de agentes. Já Mário Vaz Maia – irmão de Nininho Vaz Maia –, que entrou no curso anterior, ficou no lugar 82, entre 910 candidatos, também figura entre os supostos agressores, ou que assistiu e nada fez para parar a barbárie.
A propósito deste caso, diga-se que no grupo de WhatsApp onde ‘circulavam’ as agressões estavam 70 pessoas, mas os crimes de que alguns poderão vir a ser acusados será, seguramente, diferente daqueles que os cometeram ou assistiram in loco.
É inquestionável que Luís Neves tem talento, mas não sei se sofre do síndrome que afetou Maradona quando foi campeão pelo Nápoles. Se vai a uma cerimónia onde lhe põem um microfone à frente logo diz frases muito eloquentes, mas sem grande sentido prático. Se vai a um encontro onde se discute o papel da Polícia Municipal de Lisboa e do Porto logo diz que têm um papel muito importante no policiamento de proximidade, mas evita dizer que não vai mandar – e bem – mais elementos da PSP para essas autarquias, que terão de ter o mesmo tratamento que as restantes cidades.
Resumindo, o ministro tem talento, é a estrela do Governo, mas convém descer à terra e perceber que uma coisa são palavras, outra é ação.