terça-feira, 16 jun. 2026

Jikula Mesu Agualusa

José Eduardo Agualusa acha que é preciso acabar com a língua portuguesa, o idioma colonial, opressor. A tontice não tem limites.

Ponto prévio: li algures que o homem de quem vou falar terá recebido ameaças de morte por ter dito o que disse. Tal atitude é verdadeiramente miserável e os seus autores devem ser perseguidos e levados à Justiça. Deixando a ressalva para trás, permito-me contar um dos desafios que fiz a diferentes atores quando andei por Angola e Moçambique a ajudar a fazer jornais. Tentei que, por exemplo, através da Gulbenkian ou do Instituto Camões, ou mesmo de empresários locais, se fizessem dicionários das línguas nativas ou nacionais com o português. Sempre defendi, e defendo, que esses países, à semelhança dos restantes que têm o português como língua oficial, devem também ensinar nas escolas a língua nativa para que a mesma não se perca. Vivi bem a realidade local, e nos primeiros dez números das revistas Caju e LUA, respetivamente de Angola e Moçambique, fiz entrevistas a figuras locais e em Maputo uma estrela televisiva chegou mesmo a confessar-me que a mãe não queria que ele se casasse com alguém que não falasse a língua nativa. Mas também aprendi que em 1974, apenas 2% da população falava português. Terá sido Samora Machel o grande impulsionador para que todos aprendessem o português, até para compreenderem o ‘inimigo’. De lá para cá, é o que se sabe: nas cidades quase todos falam o idioma de Camões, pois é a língua comum que une os povos.

Foi por isso que estranhei ao ler uma notícia do Globo sobre «uma das principais vozes da literatura lusófona contemporânea, o premiado escritor angolano José Eduardo Agualusa», nas palavras do jornal brasileiro, que foi ao Rio de Janeiro falar «sobre ‘As aventuras das Línguas Portuguesa’ - assim mesmo, no plural. Essa língua que todos reinventamos, nós, angolanos, brasileiros, portugueses, etc, foi-se construindo e sofisticando, ao longo dos séculos, através do namoro com muitos outros idiomas: o árabe, o kimbundo, o guarani, o kilongo, o umbuando, o macua e tantos outros - destaca ao Globo, antes de propor um novo nome para a nossa língua. - Esta é verdadeiramente a nossa ‘Língua Geral’».

Como não podia deixar de ser, o escritor imbuído da doença chamada wokismo, e pensando em mandar os portugueses para as Filipinas, na Páscoa, onde os católicos se autoflagelam, rematou: «Talvez seja uma boa altura para pensar numa designação que reflita o que a língua é hoje, não mais uma língua portuguesa, não mais um idioma colonial, de opressão, de exploração, de domínio, mas um território de encontros e afetos, uma ‘Língua Geral’». Ficamos pois a aguardar que José Eduardo Agualusa mude o seu nome para José Eduardo Kimbundo. Sem ofensa.

vitor.rainho@nascerdosol.pt