sexta-feira, 15 mai. 2026

Isto já cheira a Sócrates

Este Governo começa a lembrar o consulado de Sócrates, onde o compadrio entre Executivo e Justiça era evidente

Aviso prévio. Este texto, para o bem ou para o mal, irá recordar a leitores mais antigos o célebre anúncio do Porto Ferreira. Há dias, depois do Página Um ter recuperado o debate entre José Hermano Saraiva e Fernando Rosas, na SIC, de 1999, moderado por Nuno Santos, a propósito do Estado Novo versus 25 de abril, fiquei a pensar como tanta coisa mudou em 27 anos. Frente a frente estavam dois homens com uma visão literalmente oposta da História, mas o respeito mútuo foi evidente, tendo Saraiva dito uma frase que retive: «Sou fiel aos meus sentimentos». Rosas usou duas ou três vezes a expressão «com todo o respeito», depois de criticar Saraiva, antigo ministro de Salazar.

Hoje, citando José Hermano Saraiva e Fernando Rosas, digo, com todo o respeito, e porque sou fiel aos meus sentimentos, que isto já começa a cheirar mal. Foi com algum espanto que ficámos a saber que Hugo Soares, o secretário-geral do PSD e líder parlamentar, quer que a declaração de rendimentos e de interesse dos políticos deixe de ser de acesso público. Hugo Soares deve ter ficado traumatizado por terem obrigado o seu chefe a revelar os clientes da Spinumviva, ignorando que o procurador-geral da República foi lesto a ilibar o primeiro-ministro de qualquer ato menos lícito. Digamos que foi uma verdadeira prenda de Natal, como o próprio Amadeu Guerra reconheceu. O PGR, recorde-se, interrompeu a reforma para aceitar o convite de Luís Montenegro para chefe do MP. Guerra, ao que se diz, convenceu o primeiro-ministro e a ministra da Justiça a reconduzirem Luís Neves para um terceiro mandato à frente da PJ, depois de ter estado cinco meses para saber se iria continuar ou não na sede da Gomes Freire. Isto depois da ministra da Justiça ter dito, ou dar a entender, ao SOL que Neves não seria reconduzido.

E foi o mesmo Hugo Soares, que está para Montenegro como Pedro Silva Pereira ou João Galamba estavam para Sócrates, que tentou convencer os deputados do PSD a votarem num ferrenho defensor do animal feroz para provedor de Justiça. Tiago Antunes foi, e nunca o desmentiu, um dos homens da propaganda socrática que perseguiam jornalistas que investigavam o seu patrão. Daí ter ficado com o cognome de Abrantes, assinatura de todos aqueles que escreviam no blogue Câmara Corporativa.

Continuando em assuntos que me fazem lembrar o ‘socratismo’, à boleia do Chega, BE e do PCP – embora os ‘cheganos’ já tenham vindo a público dizer que se confessaram arrependidos, aguardando eu que não sou nem Cristo, nem Deus, que o demonstrem na prática – a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos, depois de um parecer da Comissão de Acesso a Documentos Administrativos, decidiu proibir o acesso à lista de financiadores dos partidos. Aqui, e bem, ao contrário do episódio de Tiago Antunes, José Luís Carneiro já deu ordens aos deputados socialistas para que façam tudo o que estiver ao seu alcance para que seja do conhecimento público os doadores dos partidos. O PSD, mais uma vez, assobia para o lado.

Poderia também falar da autêntica salgalhada que envolve os nomes sugeridos pelos partidos políticos para o Tribunal Constitucional, mas basta dizer que a Justiça fica, cada vez mais, com uma mancha negra que não pára de aumentar. É a instrumentalização do Tribunal Constitucional a céu aberto, embora no passado o processo tenha sido idêntico, só que no recato dos corredores do Parlamento.

E o que pensar do desabafo de Filipa Urbano Calvão, presidente do Tribunal de Contas (TdC) que diz que «o Governo comete erros intencionais para denegrir o Tribunal de Contas»? Seria bom apurar-se se se trata de uma questão corporativa ou se faz mesmo sentido a crítica de Filipa. Por fim, e até pode ser injusto para o Governo, mas faz-me, mais uma vez, lembrar a era socrática. O Executivo assinou um contrato com uma empresa irlandesa para, supostamente, avaliar impactos de políticas públicas, mas a plataforma também permite monitorizar jornalistas e vigiar as redes sociais. Leitão Amaro pode dizer que tudo não passa de uma cabala, já que a plataforma é uma versão moderna do clipping, e que outros governos fazem o mesmo. Pode ser que sim, mas também pode dar azo a usos indevidos. Eu, por mim, não deixarei de ser fiel aos meus princípios.

Telegramas

Um polvo inteligente

Na Judiciária não se fala de outra coisa. O trabalho mais mediático do novo diretor da PJ, Carlos Cabreiro, foi o processo Footbal Leaks, em que o hacker Rui Pinto entrou em computadores de muito boa gente, nomeadamente no escritório de advogados PLMJ, de José Miguel Júdice, que na altura revelou que se sentia devastado, e que o roubo de Rui Pinto foi de «grande violência moral e psicológica». Júdice esclareceu, em tribunal, que tinha sido mais grave do que se lhe tivessem assaltado a casa. As más línguas não percebem como é que o homem que comandou a operação Footbal Leaks, e com quem Rui Pinto colaborou, foi nomeado pela filha de Júdice. O documento que circula nos computadores da PJ fala ainda da amizade de Cabreiro a Neves. Ah! A propósito do jantar de aniversário de Fernando Seara, onde estiveram Amadeu Guerra e Luís Neves, a Sábado recorda que o antigo autarca de Sintra foi o nome indicado pelo PSD para o Conselho Superior do Ministério Público, órgão que terá que fiscalizar o Ministério Público. Foi você que pediu um Porto Ferreira?