Que o mundo está completamente estúpido, sem graça alguma, com fanáticos por todo o lado, parece óbvio. Tudo serve para se iniciar uma discussão ideológica, e já só falta esse extremo chegar à casa de banho. Nos últimos dias assisti, li, melhor dizendo, conversas verdadeiramente hilariantes sobre Marilyn Monroe, que, se fosse viva, teria feito 100 anos por um destes dias. Tenho ideia que alguns dos textos, que bem podiam ter sido escritos depois dos autores terem tomado LSD, misturavam os 100 anos de Norma Jean com os concertos de Bad Bunny. Outros até ‘misturavam’ a diva norte-americana com o Partido Comunista, este com graça, diga-se.
E qual é o objetivo da maioria dos textos? ‘Mostrar’ que as mulheres que não têm problemas em ‘mostrar’ o corpo não percebem que estão a ser tratadas como objetos. Portanto, o que elas pensam não tem qualquer interesse, pois, segundo muitos dos gurus da sexualidade, elas «vivem no medo de serem reduzidas a um corpo sem agência», como li algures por esta parvónia. Para muitos, a sensualidade é algo que não deve existir, pois isso tem um significado pejorativo. Confesso, estou farto de ver araras a falar de mulheres, como se todas fossem obrigadas a andarem vestidas de burca. A objetificação da mulher, dizem eles. Mas não lhes perguntam se elas gostam de despertar os homens ou mulheres...
O que era sinónimo de sedução, de poder, de beleza, passou a ser um problema ideológico e por isso se acabou com as mulheres nas pistas de Fórmula 1 e por aí fora. Muitas mulheres também entraram nesta narrativa, não sei se por os anos terem passado por elas.
Recordo-me de um caso que encaixa que nem uma luva neste tema. Nos finais dos anos 80, até meados dos 90, havia uma mulher que fazia parar o trânsito, literalmente, eu vi muitas vezes, pois a personagem em questão, de quem era amigo, usava umas minissaias que eram praticamente uns cintos, e tinha uns tops que realçavam na perfeição a sua caixa torácica. Cheguei a passar a vergonha de entrarmos num cinema, penso que no extinto Pathé, e a rapaziada ter começado aos gritos e a aplaudir a beleza da senhora. ‘Ó Vítor, já viste estes estúpidos’, dizia-me enquanto, acho, se ria para dentro. Sempre que estávamos juntos a história não era muito diferente, pois ela tinha, de facto, um corpo fantástico, e alimentava, de certa forma, o culto de Marilyn Monroe. Penso que até o tom de voz que usava foi ‘copiado’ da diva americana – eu pensava no que o namorado da dita senhora passava todos os dias... Se nós quando íamos ao cinema ou a qualquer outro lugar era o que era, imagino 24 horas sobre 24 horas. Mas eles gostavam disso.
Lisboa, por incrível que pareça, era muito mais democrática, onde os ativistas do Maio de 68 ainda gritavam ‘É proibido proibir’. Nem tudo tinha que ter uma explicação ideológica e, se alguém se imaginasse cão ou gato, logo ouvia para mudar de dealer, pois o ácido estava-lhe a fazer mal. Havia o galanteio, havia a sedução e ninguém queria saber de corpos sem agência.
Com o passar dos anos deixei de ver a Marilyn morena à portuguesa, mas fui acompanhando o seu trajeto, onde o radicalismo se instituiu – não sei se terá posto fogo à roupa que usava nos anos 90 e se os sapatos de meio metro de altura que lhe davam altivez foram oferecidos a alguma mulher de burca, já que os pode usar sem serem vistos.
E é esta rapaziada que vê a objetificação da mulher que vai à casinha de Bad Bunny ou que usa minissaia. Até parece que a heterossexualidade é crime e que é preciso é ter orgulho gay. Cada um que seja o que quiser, mas voltemos ao ‘é proibido proibir’. Cada um na sua, respeitando sempre o outro!
Telegramas
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