Portugal parece-se cada vez mais com um manicómio, onde o doente vai sendo alertado para os seus problemas psiquiátricos, mas só acredita quando uma junta médica passa o veredicto – isto apesar das evidências. Calculo que só uma parte ínfima da população saiba o que é o PIB por habitante, mas a esmagadora maioria sabe o que é estar meses sem uma consulta, ou um dia nas urgências hospitalares à espera de ser atendido; sabe que não tem dinheiro para alugar ou comprar uma casa em Lisboa, Porto ou Algarve, só para dar três exemplos flagrantes; que os filhos têm falta de professores; que as várias repartições de finanças e demais serviços do Estado estão um caos em muitos sítios; que os ordenados dos empregos menos qualificados se mantêm baixos, devido ao excesso de oferta de mão de obra barata;e que o salário médio cada vez se afasta mais dos restantes países europeus, estando muitos a ficar mais pobres.
Com a crise na habitação e com os ordenados baixos, Portugal assistiu nos últimos anos a uma fuga de jovens licenciados para países onde lhes dão melhores condições, importando, ao mesmo tempo, milhares de trabalhadores desqualificados, muitos deles para andarem de bicicleta e motorizada a entregar comida a uma classe aburguesada, mas falida.
Não é preciso ser um génio para ter percebido que a classe média-baixa ficou com menos hipóteses de arrendar uma casa a partir do momento em que alguém paga o triplo ou o quádruplo para aí ‘enfiar’ 10, 20 imigrantes, ou mais. Como foi possível a verdade estar à frente dos olhos de todos e só agora com os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) se perceber o óbvio? Foi preciso o INE mostrar como os governos de António Costa ‘camuflaram’ as contas – dizendo que estávamos a crescer a um ritmo igual ou superior aos restantes países europeus, pois dividiam as contas por muito menos habitantes, quando afinal somos 11,4 milhões – para, finalmente, se ver que o país não se preparou para receber um milhão e seiscentos mil imigrantes? Mas que sistema de Saúde ou de habitação estava preparado para essa invasão?
Já o disse, como muitos outros, que não está em causa a necessidade de imigrantes, o que está em causa é a falta de condições para os recebermos todos num curto espaço de tempo e encaminhá-los para onde são precisos. Alguém imagina uma equipa de futebol contratar jogadores e só ter botas e equipamentos para metade? Qual a razão para países tradicionalmente recetores de imigrantes colocarem condições para os mesmos entrarem? O Canadá ou a Austrália, por exemplo, precisam de imigrantes, mas impõem condições e sabem quem podem integrar. Penso que já o escrevi uma vez, quando uma familiar minha foi estudar e trabalhar para a Austrália, o consulado deles em Lisboa não quis só a minha declaração de IRS, pediu o extrato bancário, com os movimentos diários – calculo que não seja legal, mas acedi, como também acedi quando fui para Angola. Sem as contas devidamente mostradas, não havia nada para ninguém.
Voltando ao princípio e ao manicómio, alguém tem dúvidas de que as trotinetas e as bicicletas partilhadas têm ‘enchido’ hospitais com pessoas com lesões graves? Qual a razão para esses utilizadores não serem fiscalizados como o é o comum dos condutores de carros ou de motos? Qual a razão para não se seguir o exemplo espanhol que vai tornar obrigatório o uso de capacete para quem anda de trotineta? A propósito, o presidente da Câmara de Braga deu 60 dias aos concessionários das trotinetas para as retirarem de circulação, devido à anarquia instalada.
Continuando em coisas óbvias – os exemplos são às centenas –, mas fiquemo-nos pelas do ar do tempo. Qual o sentido da Ria Formosa não ser dragada há tantos anos? Qual o sentido de não se proibirem os milhares de barcos na Ria? Qual o sentido de não se fazerem pontes pedonais, por exemplo em Cabanas, para acabar com a poluição dos barcos? Bem sei que nenhum destes exemplos tem importância para o PIB por habitante, mas talvez o INE possa fazer um estudo com o dinheiro que o Estado perde com as vítimas das trotinetas que ficam hospitalizadas ou com a perda de rendimentos dos pescadores que ficam sem o seu sustento por se permitir que deem cabo da fantástica Ria Formosa. Talvez aí se olhe para estes factos, como para muitos outros, com a devida importância. O mais dramático disto tudo é que o principal responsável pela anarquia que se instalou em Portugal foi premiado com o cargo de presidente do Conselho Europeu. Bravo!