Que o mundo está cada vez mais parecido com a música dos Táxi, ‘mastiga e deita fora’, parece evidente. Manda-se um tema para cima da mesa, dá-se gás à discussão, parece que estamos perante o assunto mais importante do universo e, passado uns tempos, o assunto desaparece como apareceu. Já não falo dos temas recorrentes como as cheias, os fogos, o calor, o frio, e por aí fora, onde um número impressionante de gurus debita certezas absolutas. Um dos casos que considero emblemático é o do confinamento, onde se disseram alarvidades que envergonhariam qualquer aprendiz de feiticeiro.
Que o mundo seria melhor, que as pessoas que batiam com os tampos dos tachos às janelas nunca mais seriam insensíveis aos problemas dos outros, além de um número impressionante de disparates. Garantiu-se que a arquitetura iria mudar e que os prédios horríveis sem varandas, num país solarengo como o nosso, seria coisa do passado. Andando pela Grande Lisboa são poucos, mesmo muito poucos, os edifícios que contemplam um pouco de ‘ar puro’, leia-se varandas. Olhando para os prédios dos anos 50/60 até dói, vendo-se como regredimos tanto nesse aspeto.
A higiene era outra das bandeiras ‘deixadas’ pelo confinamento. E o que vemos, já não falando das exceções que são dadas a imensas minorias que podem vender os alimentos como quiserem, é grandes superfícies dispensarem trabalhadores para os clientes fazerem o seu papel. Onde anda a ASAE, por exemplo, na zona do pão dos hipermercados, onde as pessoas nem usam as luvas de plástico e agarram nas pinças, quando o fazem, para escolher o seu pão? A higiene é quase inexistente para um número considerável de clientes.
As grandes superfícies são um excelente exemplo, se pensarmos nas pessoas que não deixavam entrar em casa os alimentos que tinham comprado sem os passar pelo famoso álcool gel. Agora é tudo ao molho e fé em Deus, e ainda fazem o trabalho dos empresários, sentindo-se felizes a pesar os legumes ou a fruta. Faço muitas das minhas compras em mercados e cada vez mais fujo das grandes superfícies que despedem pessoas que estavam nas charcutarias - vendendo tudo embalado e com mais conservantes - ou que anulam caixas de pagamento com empregados para as substituir por caixas automáticas. Caminhamos numa direção em que as pessoas se sentem ‘modernaças’ por fazerem o trabalho, gratuitamente, que competia a outros, remunerados. Cada vez mais este é um país que não é bom para velhos - onde cada vez são muito mais. Em quase todas as áreas se usam estratégias para uns tantos ‘parolos’ se sentirem em fusão com a modernidade, deixando para trás os menos ‘informatizados’. Esta semana, quando pedi para me fazerem a declaração de IRS, algo que um ‘anjo’ me faz há anos, perguntei-lhe se tinha alguma dívida para liquidar, pois estranhei não ter recebido a ‘carta’ para pagar o IMI. «Sim, tem aqui a primeira prestação para pagar, e tem sorte porque podia já ter entrado em execução, pois o prazo de pagamento acabou no dia 1». Extraordinário! Se não tenho feito o telefonema teria de enfrentar a poderosa e cega máquina do Estado, apesar de não me terem avisado de nada e de não me terem enviado a referência para pagar num multibanco. Em Portugal, infelizmente, só uns grunhos do clima e afins é que protestam, e mal, recorrendo à violência ou prejudicando os outros. Seria engraçado ver, por cá, boicotes a quem quer usar mão-de-obra gratuita ou ver a ASAE entrar nessas grandes superfícies e fechar as padarias e similares. As famosas colheres de pau que tanto perseguiram eram uma brincadeira de crianças ao lado da falar de higiene nesses locais. Isto já para não falar do boicote às Finanças...
Telegramas
Uma rua concorrida
Vasco Rodrigues, o dono do Júlio dos Caracóis, popular casa dos gastrópodes, foi assaltado e ficou sem o ouro que costumava usar. Foi o terceiro assalto à mão armada, em meses, na Rua Vale Formoso de Cima. Primeiro foi uma loja de indostânicos e depois um multibanco que está no interior de um café. Será que os assaltantes se apaixonaram por aquela rua?
Cosmética e perfumes
André Ventura é notícia por tudo e por nada. Esta semana ficámos a saber que recebeu produtos de cosmética e perfumes no valor de 400 euros, oferecidos por um emigrante português. Será que vamos saber o valor dos sapatos que usa?
Um mundial diferente
O Mundial de futebol tem tido várias peripécias devido às leis norte-americanas. Todos aceitam que um árbitro da Somália não possa apitar jogos da competição, porque foi impedido de entrar; aceita-se que a seleção do Irão seja recambiada para o México depois do seu jogo em solo americano, e por aí fora. A FIFA é uma autêntica lacaia de Trump. Mas falemos de coisas divertidas. Neymar, o craque brasileiro que foi convocado ‘à força’, levou para o Mundial uma coleção de relógios avaliada em mais de três milhões de euros. O homem pode já não saber marcar golos como no passado, mas ver as horas sabe bem.