Há em Portugal um traço cultural persistente que merece reflexão: a inclinação para o pessimismo crónico. Tudo está mal, nada funciona, o país parece viver numa tragédia permanente. Em todas as áreas, todos os dias, aponta-se o dedo a uma falha, a um serviço, a uma decisão, como se o futuro estivesse constantemente em risco.
Este discurso repetido cria uma perceção pública distorcida. Não porque os problemas não existam – existem e devem ser debatidos –, mas porque raramente se reconhece o que funciona, o que melhora e o que avança. A crítica permanente, quando não é acompanhada de reconhecimento, transforma-se num fator de desmotivação coletiva.
Este artigo surge a propósito de uma notícia recente e relevante: o Serviço Nacional de Saúde está a instalar, em cerca de uma dezena de hospitais, sistemas de cirurgia robótica de última geração – Da Vinci, Mako e Rosa – entre os mais avançados do mundo, num investimento específico próximo dos 20 milhões de euros. Trata-se de um salto tecnológico relevante, com impacto direto na qualidade dos cuidados, na segurança dos doentes, na precisão cirúrgica e nos resultados clínicos. Ainda assim, o tom dominante do debate público manteve-se inalterado: desconfiança, desvalorização e lamúria.
Importa sublinhar que esta inovação não surge por acaso nem de forma isolada. É o resultado de um esforço de transformação do SNS, que envolve investimento tecnológico, reorganização de serviços, formação especializada e adaptação a novos modelos de prestação de cuidados. Este processo exige planeamento, tempo e compromisso – fatores que raramente geram manchetes.
É inegável que subsistem problemas estruturais, alguns com décadas. As dificuldades nas urgências hospitalares, muitas vezes agravadas por uma procura inadequada; listas de espera cirúrgicas que existem, embora longe de serem generalizadas ou descontroladas; constrangimentos na obstetrícia. Estes problemas não devem ser ocultados nem relativizados.
Também é factual que, no contexto de opções tomadas há cerca de uma década e meia, o encerramento dos serviços de urgência de proximidade (SAP) concentrou a procura nos hospitais centrais, criando pressão adicional. A reorganização e fusão de serviços de ginecologia e obstetrícia aumentaram as exigências em termos de recursos humanos. O fim da exclusividade optativa, em simultâneo com a permissão governamental para horários reduzidos e a contratação de prestadores externos, contribuiu igualmente para a escassez de algumas especialidades no SNS.
Esta é uma face da moeda.
A outra face, frequentemente ignorada, é substancialmente mais expressiva: a modernização contínua do Serviço Nacional de Saúde. Renovação de equipamentos, investimento tecnológico, inovação clínica e reforço da capacidade técnica para tratar melhor os doentes. A introdução da cirurgia robótica em hospitais públicos numa dúzia de hospitais, não é um detalhe nem um exercício de propaganda. É um marco que coloca o SNS português ao nível dos sistemas de saúde mais avançados do mundo.
Mas há um aspeto menos discutido e igualmente relevante: o impacto do discurso público nos profissionais e nos doentes. A crítica constante, a narrativa de falência iminente e a desvalorização sistemática do SNS penalizam quem nele trabalha. Desmotivam profissionais altamente qualificados, alimentam o desgaste emocional e enfraquecem o sentimento de missão e pertença. Um sistema de saúde não vive apenas de edifícios e tecnologia; vive, sobretudo, das pessoas que o fazem funcionar todos os dias.
Do mesmo modo, esta lamúria permanente inquieta os doentes. Gera medo, insegurança e desconfiança em quem já se encontra numa situação de vulnerabilidade. Quando se transmite a ideia de que ‘nada funciona’, mesmo perante avanços concretos, cria-se ansiedade desnecessária e mina-se a relação de confiança entre cidadãos e o sistema que os cuida.
O orgulho informado, pelo contrário, é mobilizador. Reconhecer o que é bem feito não significa ignorar falhas; significa criar um ambiente de confiança, motivação e exigência saudável. Profissionais que sentem que o seu trabalho é valorizado trabalham melhor, inovam mais e permanecem no serviço público. Doentes que confiam no SNS enfrentam o tratamento com maior tranquilidade e esperança.
Talvez esteja na altura de exigir mais – sim –, mas também de reconhecer mais. De criticar com sentido de responsabilidade e não por reflexo automático. De compreender que um serviço público com a dimensão, complexidade e exigência do SNS não pode ser avaliado apenas pelos seus constrangimentos, mas também pelos seus progressos concretos.
Mais esperança e menos lamúrias não significam complacência. Significam maturidade cívica. Significam um olhar crítico, mas justo, sobre um Serviço Nacional de Saúde que, apesar das dificuldades, continua a evoluir, a modernizar-se e a oferecer aos portugueses cuidados cada vez mais avançados.
Porque um país que só critica corre o risco de falhar também no essencial: reconhecer, valorizar e acreditar em si próprio.
Médico