O diferencial económico entre a Europa, o Reino Unido e a Rússia é tão grande que conduz a uma conclusão simples: se a Europa considerar estratégico que Moscovo não pode vencer a guerra, então Moscovo não vencerá. O obstáculo não é económico, é político.
A célebre frase “whatever it” takes, pronunciada por Mario Draghi em julho de 2012 para salvar o euro, ganha hoje uma nova dimensão geopolítica. Aplicada à guerra na Ucrânia, significa transformar poder financeiro em capacidade militar e em estabilidade geopolítica duradoura.
Para que a Ucrânia consiga resistir à agressão russa e, idealmente, inverter o curso da guerra, o apoio externo tem de assentar em três pilares fundamentais. Primeiro, a estabilidade do Estado. A guerra não se ganha apenas na linha da frente. Quando o Estado falha, o exército falha com ele. O financiamento internacional tem permitido pagar salários da função pública, pensões e serviços essenciais, reduzindo o risco de colapso administrativo, hiperinflação e rutura social na retaguarda.
Em segundo lugar, a defesa aérea. Sem um fluxo previsível de mísseis intercetores e sistemas eficazes de defesa aérea, a Rússia pode degradar progressivamente a infraestrutura energética e industrial ucraniana, tornando a resistência economicamente e politicamente insustentável.
Por último, a logística e a reposição de material. Numa guerra de atrito, vence quem consegue reparar e substituir equipamento mais rapidamente do que o inimigo o destrói. Isso exige cadeias logísticas contínuas, manutenção, peças sobresselentes e produção em escala industrial.
Estes três pilares são indispensáveis para aguentar. Mas resistir pode não ser suficiente. Vencer, isto é, recuperar território e impor custos estratégicos proibitivos ao agressor exige um salto quantitativo e qualitativo no apoio. Mais munições, drones e mísseis em volume; capacidades avançadas como guerra eletrónica, munições guiadas e aeronaves; treino intensivo e, sobretudo, previsibilidade. Sem previsibilidade, a indústria europeia não investe; sem indústria, não há escala; sem escala, não há vitória. Em paralelo, os aliados podem ajudar Kiev a explorar vulnerabilidades russas, forçando Moscovo a dispersar recursos para proteger o próprio território, infraestruturas críticas e cadeias energéticas. Isso transforma apoio financeiro em pressão estratégica.
Os números ajudam a recentrar o debate. Em 2024, o PIB conjunto dos 24 países União Europeia disponíveis para a ajudar a Ucrânia (a Hungria, Chéquia e Eslováquia estão, por vontade própria, fora deste perímetro) e do Reino Unido ultrapassou os 20 biliões de euros. No mesmo período, o PIB da Rússia situou-se perto dos 2 biliões de euros. Em termos simples, a Europa vale mais de dez “Rússias” em dimensão económica. E a despesa de militar por parte da Rússia, no mesmo ano, foi de 137 mil milhões de euros (embora alguns analistas a situem nos 164 mil milhões) e a despesa militar dos 24 da União Europeia mais Reino Unido foi de 403 mil milhões de euros.
Para tornar o debate concreto, consideremos dois cenários anuais de financiamento à Ucrânia (não são valores oficiais, mas ordens de grandeza plausíveis): (i) para manter a guerra, o montante anual necessário é de 68,5 mil milhões de euros (metade dos 137 mil milhões de euros de despesa militar russa ) e (ii) para inverter o curso da guerra e retomar territórios o montante anual necessário é de 196 mil milhões de euros, (20% acima do da despesa militar russa situada por alguns analistas a 164 mil milhões), o esforço exigido aos aliados embora elevado em termos absolutos, é marginal face à sua riqueza.
Os números demonstram que este esforço é financeiramente sustentável, caso os 24 da União Europeia e o Reino Unido tivessem disponibilidade para mobilizar o “cash-flow” disponível na população ativa e empregada (cerca de 229 milhões) e empresas ativas (cerca de 37 milhões, com uma faturação anual total de 46,8 biliões de euros). Repartindo o financiamento anual à Ucrânia pela população ativa, empresas ativas e faturação anual total, com ponderação de, respetivamente, 10%, 45% e 45%, obteríamos: (i) o valor anual para a Ucrânia manter a guerra seria de 30 euros anuais (2,49 €/mês) por pessoa ativa; 829 euros anuais (69,10€/mês) por empresa ativa; e 0,066% anuais sobre o volume de faturação anual das empresas; (ii) caso quiséssemos financiar o custo de o curso da guerra, o esforço anual seria de 86 euros anuais (7,15 €/mês) por pessoa ativa; 2.382 euros anuais (198,52 €/mês) por empresa ativa; e 0,189% anuais sobre o volume de faturação das empresas.
Obviamente que esta análise simplista poderia ser modificada de forma que pessoas e empresas com maior “cash-flow” pagassem mais. Igualmente, outras ponderações poderiam ser adotadas. Por exemplo, se o esforço de guerra for pago unicamente por um imposto sobre a faturação das empresas, teríamos o esforço anual para a Ucrânia manter a guerra de 0,146% sobre o volume de faturação das empresas. Identicamente, o esforço anual para a Ucrânia inverter o curso da guerra de 0,420% sobre o volume de faturação das empresas.
No fim, esta guerra é sobretudo um teste de resistência política e económica. A capacidade existe. A assimetria económica favorece claramente a Europa. O esforço russo já é pesado e estruturalmente difícil de sustentar a longo prazo. A questão decisiva é outra: haverá vontade política para financiar, com previsibilidade e escala, uma estratégia que transforme dinheiro em capacidade e capacidade em resultado estratégico?
Se a resposta for “sim”, então o” whatever it takes” deixa de ser uma citação histórica e passa a ser uma escolha consciente: pagar agora uma fração do nosso rendimento para evitar pagar muito mais, em insegurança, instabilidade e custos futuros, depois.
Pós-graduada em Intelligence pelo ICSP- Universidade de Lisboa
Mestre em Governace, Leadership and Democracy Studies pela Universidade Católica
Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica