terça-feira, 09 jun. 2026

O Mundo na Armadilha de Tucídides

A rivalidade entre China e Estados Unidos está já a remodelar a ordem internacional em três dimensões fundamentais.

A Armadilha de Tucídides é um conceito geoestratégico que descreve a tensão estrutural que emerge quando uma potência em ascensão, como Atenas na Grécia Antiga, desafia o domínio de uma potência estabelecida, como Esparta. A verdadeira causa da Guerra do Peloponeso não foram os pretextos diplomáticos, todavia o crescimento do poder ateniense e o medo que esse avanço provocou em Esparta, tornando o conflito quase inevitável.

Na geopolítica contemporânea, os papéis parecem definidos: a China ocupa o lugar da potência ascendente e os Estados Unidos mantêm-se como a potência hegemónica. A teoria da transição de poder sugere que o período mais perigoso para a estabilidade internacional surge quando a potência desafiante atinge cerca de 80% da capacidade da potência dominante, criando uma paridade estratégica que alimenta a insegurança sistémica.

Mais do que a vontade dos líderes, é o medo estrutural que alimenta esta armadilha. O “hegemon” teme perder a posição dominante; o desafiante receia ser travado antes de consolidar a sua ascensão. O resultado é a securitização crescente de praticamente todos os domínios, dos semicondutores às rotas comerciais, passando pela inteligência artificial e pelas cadeias de abastecimento.

O cenário atual é marcado pela incerteza. Xi Jinping recorreu ao conceito para alertar para os riscos de colisão entre as duas potências. Ao mesmo tempo, encontros de alto nível, como a cimeira realizada em Pequim, em maio de 2026, mostram que Washington e Pequim continuam a procurar mecanismos de diálogo estratégico capazes de gerir a rivalidade e evitar uma escalada descontrolada. Acordos em áreas como a inteligência artificial e a reabertura de rotas críticas, como o Estreito de Ormuz, revelam que ainda existem espaços de convergência.

Ainda assim, analistas como Graham Allison defendem que as grandes potências podem estar “destinadas à guerra” devido à própria lógica da transição de poder. Mesmo quando as cimeiras produzem resultados positivos, a relação sino-americana continua a assentar numa lógica essencialmente transacional, e não institucional. O alívio das tensões tende, por isso, a ser temporário e dependente de interesses imediatos. Questões como Taiwan permanecem “linhas vermelhas” suscetíveis de desencadear um confronto direto caso sejam mal geridas.

A ambiguidade estratégica dos Estados Unidos em relação a Taiwan assenta na incerteza deliberada sobre uma eventual intervenção militar americana em caso de ataque chinês, permitindo a Washington equilibrar as relações com Pequim e o apoio à ilha. Sob Donald Trump, essa ambiguidade intensificou-se através de sinais contraditórios, entre contactos conciliatórios com Xi Jinping e vendas históricas de armamento a Taiwan, alimentando a ansiedade dos aliados asiáticos e reforçando o risco de Taiwan continuar a ser o principal foco de tensão entre EUA e China.

No entanto, esta ambiguidade deixou de se limitar a esta questão e transformou-se numa doutrina mais ampla da política externa americana sob Donald Trump. Washington oscila entre a cooperação e a confrontação, alternando concessões tecnológicas à China com medidas agressivas para travar a sua influência económica e militar. Esta “teoria do caos” pode oferecer vantagens táticas à Casa Branca, mantendo Pequim na incerteza e acomodando divisões internas da administração, porém tem um custo crescente: aliados como o Japão, a Coreia do Sul ou mesmo os parceiros europeus começam a duvidar da fiabilidade americana. Sob a lógica do “America First”, a ambiguidade já não é apenas uma ferramenta diplomática, é também um sinal de erosão do papel histórico dos EUA como fiador da ordem internacional.

A rivalidade entre China e Estados Unidos está já a remodelar a ordem internacional em três dimensões fundamentais. A primeira é a transição de uma unipolaridade liderada pelos EUA para uma multipolaridade desequilibrada. Embora Washington e Pequim continuem a dominar o sistema, outros atores, como a Índia, a União Europeia e a Rússia, ganham margem de influência relativa. Ainda assim, o sistema torna-se mais instável e mais propenso a crises articuladas por novos eixos estratégicos, como o formado por Rússia, China, Irão e Coreia do Norte.

A segunda dimensão manifesta-se sobretudo na Ásia. Países da ASEAN e aliados como o Japão vivem o dilema de depender militarmente dos Estados Unidos enquanto permanecem profundamente ligados à economia chinesa. A Europa enfrenta um desafio semelhante, sendo cada vez mais pressionada a construir uma “autonomia estratégica” que lhe permita evitar o papel de simples peão na disputa entre Washington e Pequim.

Por fim, esta dinâmica está a acelerar a fragmentação da economia global em blocos concorrentes. A interdependência económica passou a ser utilizada como instrumento de coerção, enquanto a corrida à supremacia tecnológica, especialmente na inteligência artificial e nos semicondutores, se transformou no principal campo de batalha da nova era digital.

Apesar de as cimeiras de 2026 terem contribuído para estabilizar, no imediato, as relações comerciais entre as duas potências, a pressão estrutural da Armadilha de Tucídides permanece intacta. Evitar que a competição hegemónica descambe numa catástrofe global exigirá não apenas liderança política excecional, mas também uma diplomacia permanente e sofisticada.

Pós-graduada em Intelligence pelo ICSP- Universidade de Lisboa
Mestre em Governace, Leadership and Democracy Studies pela Universidade Católica
Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica