O Ciclo da História

A política americana vive hoje sob a ilusão perigosa de que a história ficou para trás. No entanto, aquilo que se observa nos Estados Unidos é menos uma rutura do que um regresso. Velhas lógicas de exclusão, expansão e controlo reaparecem com nova linguagem, mas com consequências muito familiares. Quando as democracias acreditam estar imunes ao passado, tendem a repeti-lo.

A proposta de Donald Trump para adquirir a Gronelândia não foi um capricho excêntrico, mas um sintoma. Ela insere-se numa tradição profundamente enraizada na história americana, a doutrina do Destino Manifesto. No século XIX, os Estados Unidos expandiram-se através de compras territoriais e guerras de anexação, legitimadas pela crença de que o país tinha uma missão divina de ocupar o continente e levar a sua civilização a outros povos. A linguagem mudou, mas a lógica persiste.

A expansão continental inicial dos E.U.A começou em 1783, com as fronteiras originais definidas pelo Tratado de Paris com a Grã-Bretanha após a independência. Seguiu-se, em 1803, a Compra da Louisiana à França por 15 milhões de dólares. Em 1810, os EUA declararam posse da Flórida Ocidental sob o presidente James Madison e ocuparam a ilha de Tristão da Cunha. Em 1818, a Bacia do Rio Vermelho foi adquirida através de um tratado com o Reino Unido, e em 1819, a Flórida Oriental foi cedida pela Espanha pelo Tratado de Adams-Onís.

Os EUA anexaram, ainda, em 1845, a República do Texas, que votara pela sua união com o país. No ano seguinte, acordaram com a Grã-Bretanha o Território do Oregon. Em 1848, após a Guerra Mexicano-Americana, o Tratado de Guadalupe Hidalgo concedeu aos EUA vastos territórios do sudoeste, incluindo Califórnia, Nevada, Utah, Arizona e partes do Novo México e do Colorado. Em 1853, a Compra de Gadsden ao México garantiu uma faixa de terra essencial para a construção de uma ferrovia. Entre 1857 e 1858, foram anexadas várias Ilhas Guano. Em 1867, os Estados Unidos compraram o Alasca ao Império Russo e o Atol Midway foi formalmente anexado. Em 1898, os EUA incorporaram o Havaí, após a queda da monarquia local, e receberam Porto Rico, Guam e as Filipinas. No ano seguinte, ocuparam a Ilha Wake e parte da Samoa Americana por razões estratégicas. Em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, compraram as Ilhas Virgens Americanas à Dinamarca.

Cabe ainda mencionar que, em 1946, os Estados Unidos ofereceram-se para comprar a Gronelândia à Dinamarca, proposta que foi rejeitada. Décadas depois, o interesse norte-americano na ilha voltou à tona. Tal como no passado, o argumento é o da superioridade moral e funcional. Trump afirmou que apenas os Estados Unidos seriam capazes de proteger, desenvolver e melhorar a Gronelândia. Acrescentou ainda a ideia de um direito moral decorrente da defesa da ilha durante a Segunda Guerra Mundial. Trata-se de uma narrativa clássica do poder imperial, onde a proteção se confunde com posse e a segurança com soberania.

O motor económico continua a ser central. No século XIX, a Marcha para o Oeste foi alimentada pela busca de terras férteis e pela corrida ao ouro. Hoje, o interesse na Gronelândia prende-se com o acesso a recursos estratégicos, como minerais de terras raras, urânio e potenciais reservas de petróleo e gás.

A expansão territorial sempre foi apresentada como uma necessidade defensiva. A Doutrina Monroe estabeleceu que os Estados Unidos não tolerariam interferências externas no seu hemisfério. Atualmente, a Gronelândia surge como peça-chave na contenção da Rússia e da China no Ártico. A segurança nacional volta a servir de argumento absoluto, capaz de se sobrepor a princípios de soberania e cooperação multilateral.

No plano interno, a política de Trump entra em colisão direta com o desenho institucional idealizado pelos fundadores dos Estados Unidos, fortemente influenciados por Montesquieu. James Madison acreditava que o poder só poderia ser controlado pelo próprio poder, através de um sistema de pesos e contrapesos. A concentração de autoridade no executivo, a normalização da exceção e a proteção legal de agentes que atuam fora da lei representam uma erosão direta desse ideal republicano.

A atuação recente do ICE tem sido descrita como a de uma força quase paramilitar, operando com níveis alarmantes de impunidade. O recurso à força letal, a criminalização da migração e o uso de táticas de intimidação contramanifestantes evocam capítulos que muitos julgavam encerrados na história americana.

Não é a primeira vez que o medo serve de justificação para a suspensão de direitos. Durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de cidadãos americanos de origem japonesa foram internados em campos de detenção em nome da segurança nacional. Durante décadas, as leis Jim Crow institucionalizaram a exclusão racial e criaram cidadãos de segunda classe. Em contextos diferentes, o mecanismo é o mesmo: a desumanização de grupos específicos para fins políticos.

O avanço da censura nas escolas públicas, com a proibição de livros e o ataque a conteúdos que abordam raça, género ou sexualidade, completa este quadro. A história mostra que a supressão de ideias é sempre um sinal de fragilidade democrática. Regimes autoritários do século XX recorreram sistematicamente à censura e à propaganda para moldar consciências e eliminar o pluralismo. Como alertou John Stuart Mill, silenciar opiniões impede o progresso intelectual e empobrece a sociedade.

A democracia liberal não colapsa apenas por golpes espetaculares. Ela corrói-se lentamente, quando a exceção se torna regra, quando o medo substitui o debate e quando o conformismo ocupa o lugar do pensamento crítico. Os Estados Unidos oferecem hoje um lembrete desconfortável, mas necessário: nenhuma democracia está imune ao autoritarismo quando acredita que a história já não lhe diz respeito.

Pós-graduada em Intelligence pelo ICSP- Universidade de Lisboa
Mestre em Governace, Leadership and Democracy Studies pela Universidade Católica
Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica