quinta-feira, 05 mar. 2026

A Ordem Liberal em Cheque: O Reemergir do “Hard Power”

Sob Trump, os EUA passaram de uma “hegemonia benevolente” para uma “hegemonia predatória”. A estratégia enfraqueceu os pilares da ordem liberal através de uma lógica de soma zero que transformou as relações internacionais num jogo puramente competitivo.

A ordem internacional liberal, construída após 1945 e consolidada com o fim da Guerra Fria, atravessa a sua crise mais profunda. Assente no multilateralismo, no comércio livre e em instituições globais, esta arquitetura política está a ceder lugar a um mundo novamente histórico, um ambiente “hobbesiano” onde a segurança, o interesse nacional e o equilíbrio de poder regressam como únicos guias de sobrevivência.

A contestação à ordem liberal surge hoje em três frentes distintas. Em primeiro lugar, as potências revisionistas. Rússia e China defendem visões alternativas para a organização do sistema internacional e utilizam o seu peso militar e económico para desafiar a hegemonia ocidental. A invasão russa da Ucrânia marcou a rutura definitiva com o modelo de segurança cooperativa na Europa. Em segundo lugar, a própria globalização deslocou o centro de gravidade do poder, dando protagonismo a Estados não ocidentais que não partilham necessariamente os valores demo liberais. Samuel Huntington antecipou esta fragmentação ao falar de um choque de civilizações, no qual as divisões culturais profundas superam as ideológicas. Por fim, o maior abalo veio de dentro. O principal arquiteto da ordem, os Estados Unidos, começou a corroê-la durante a administração de Donald Trump.

Sob Trump, os EUA passaram de uma “hegemonia benevolente” para uma “hegemonia predatória”. A estratégia enfraqueceu os pilares da ordem liberal através de uma lógica de soma zero que transformou as relações internacionais num jogo puramente competitivo. O objetivo deixou de ser liderar através de regras partilhadas e passou a ser extrair concessões e tributos, tanto de aliados como de adversários. A proteção militar foi ligada a exigências económicas unilaterais e as tarifas transformaram-se em armas políticas destinadas a forçar mudanças internas em países parceiros. O abandono do multilateralismo consolidou esta inflexão. A retirada dos E.U.A do Acordo de Paris e o bloqueio da Organização Mundial do Comércio sinalizaram que a força bruta e a negociação bilateral substituíam as normas coletivas.

Estamos, assim, de regresso a uma era em que o “hard power” (poder, militar e económico, coercivo) volta a ser a moeda principal. O “soft power” (poder de influenciar através da atração e da persuasão) continua a contar, mas revela-se cada vez mais frágil.  A reputação dos Estados Unidos sofreu com a polarização interna, enquanto a China sobe nos índices de influência através de investimentos estratégicos, embora sem gerar confiança estrutural. Vivemos também uma “armamentização de tudo”. O poder exerce-se não apenas com exércitos, mas com a manipulação de cabos submarinos, ciberataques e sabotagem de infraestruturas críticas.

Neste contexto, os “BRICS”[1] deixaram de ser apenas um fórum económico e transformaram-se numa arquitetura geopolítica que ópera através de formas indiretas de “hard power”. No plano financeiro, o grupo constrói sistemas de pagamento alternativos e reforça o Novo Banco de Desenvolvimento para reduzir a dependência do dólar e mitigar o impacto das sanções ocidentais. No domínio energético, com a expansão recente, o bloco passou a controlar, segundo alguns analistas, cerca de 41 % da produção global de petróleo e grande parte dos minerais críticos necessários à transição energética. No plano geográfico, os seus membros dominam pontos de estrangulamento estratégicos, como o Canal de Suez e o Estreito de Ormuz, criando corredores logísticos fora da monitorização ocidental. O objetivo não é destruir o sistema internacional, mas reequilibrá-lo e oferecer ao chamado “Sul Global” alternativas ao domínio ocidental.

Para a Europa, este cenário é particularmente traumático. Robert Kagan descreveu a União Europeia como um paraíso pós histórico assente em leis e regras, protegido durante décadas pelo guarda-chuva americano. Hoje, a Europa confronta-se com a fragilidade dessa dependência. A sua segurança revelou-se relativa e o seu principal protetor tornou-se imprevisível e, por vezes, predatório. As infraestruturas críticas europeias enfrentam ataques constantes num contexto de guerra híbrida que uma União fragmentada tem dificuldade em enfrentar.

A Europa encontra-se perante um imperativo estratégico. Precisa de assumir a responsabilidade pela sua própria defesa, reforçar a sua base industrial militar e desenvolver uma preparação abrangente para sobreviver num mundo onde a paz deixou de ser garantida. Está obrigada a regressar à história e a reaprender a linguagem do poder, sob pena de ser engolida por uma selva geopolítica cada vez mais agressiva. Por outro lado, esta conjuntura oferece uma oportunidade à união europeia de se desenvolver em vários aspetos, nomeadamente, em domínios como o crescimento económico, desenvolvimento industrial (por exemplo civil, militar), a integração europeia, como por exemplo uma união bancária e de mercado de capitais, simplificação administrativa e aumento de resiliência de infraestruturas.

[1]  Países fundadores: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, juntamente com novos membros: Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irão e Indonésia

Pós-graduada em Intelligence pelo o ICSP- Universidade de Lisboa
Mestre em Governace , Leadership and Democracy studies pela Universidade Católica
Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica

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