segunda-feira, 18 mai. 2026

A guerra que chega ao prato

Em plena sementeira da primavera, o setor agrícola enfrenta uma “tempestade perfeita”. O bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 33% do comércio mundial de fertilizantes, transformou uma tensão geopolítica num choque sistémico.

Há crises que revelam vulnerabilidades. E depois há crises que as tornam impossíveis de ignorar. A escalada militar no Médio Oriente, envolvendo o Irão, Israel e os Estados Unidos desde o final de fevereiro de 2026, pertence claramente à segunda categoria. Mais do que um conflito regional, está já a desencadear uma crise logística e energética com impactos diretos e mensuráveis na agricultura e na alimentação na Europa. E Portugal não é exceção.

O momento é particularmente sensível. Em plena sementeira da primavera, o setor agrícola enfrenta uma “tempestade perfeita”. O bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 33% do comércio mundial de fertilizantes, transformou uma tensão geopolítica num choque sistémico. A dependência europeia é estrutural: o Golfo Pérsico assegura cerca de 49% das exportações globais de ureia e 30% das de amoníaco, essenciais à agricultura moderna.

Os efeitos foram imediatos. Em poucas semanas, o preço da ureia subiu mais de 40%. Na Alemanha, regiões como a Baixa Saxónia registaram aumentos de 15% no salitre de amónio e cal num mês. Ao mesmo tempo, o gás natural, que é responsável por cerca de 80% dos custos de produção de fertilizantes azotados, passou de 32 para quase 52 euros por megawatt-hora. Não são flutuações normais, mas uma pressão direta sobre o sistema alimentar.

E esse sistema é mais frágil do que parece. Cerca de 50% do alimento mundial depende de fertilizantes. A sua escassez ou encarecimento pode provocar quebras abruptas na oferta. As projeções indicam que mais 45 milhões de pessoas poderão enfrentar fome aguda até junho de 2026, sobretudo na Ásia e na África Subsariana. Em Portugal, os sinais já são visíveis. A guerra e as intempéries de janeiro e fevereiro pressionaram os preços, como por exemplo o preço do tomate que ultrapassou os 3 euros/kg em 2026. O cabaz de 63 bens essenciais atingiu, em abril, 254,99 euros, mais 35,85% face a janeiro de 2022.

As revisões económicas confirmam a gravidade. O Banco de Portugal baixou o crescimento para 1,8% (de 2,3%) e prevê 2,8% de inflação em 2026. Na zona euro, o crescimento deverá ficar em 0,8%. Ainda assim, estes números não captam a profundidade da vulnerabilidade estrutural exposta por esta crise.

Esta não é uma crise isolada. É mais um episódio numa sequência contínua, pandemia, guerra na Ucrânia e agora o Médio Oriente, que tem forçado uma escalada sem precedentes dos apoios públicos à agricultura. Entre 2020 e 2022, os apoios nos 54 países monitorizados pela OCDE atingiram 851 mil milhões de dólares anuais, um aumento de 2,5 vezes face ao início do século. Porém, mais apoios não têm significado maior resiliência.

Portugal é um exemplo disso. A transição do PDR2020, com cerca de 4,2 mil milhões de euros, para o PEPAC, com aproximadamente 3,8 mil milhões de euros para o período 2023-2027, não impediu uma deterioração significativa do rendimento agrícola. Em 2022, o rendimento real dos agricultores caiu 24,6%, pressionado pela escalada dos custos de produção, com os adubos a subirem 90,7% e a energia 43,4%.

Os anos seguintes trouxeram alguma recuperação. Em 2023, o rendimento do setor agrícola aumentou 21,4% e a competitividade média das explorações cresceu 50,9%. Em 2024, o rendimento real por unidade de trabalho voltou a subir 14,5%, beneficiando da descida de 18,3% no índice de preços dos fertilizantes, que permitiu um aumento de 16,6% no consumo, enquanto o Valor Acrescentado Bruto avançou 7,3%. Porém, a recuperação revelou-se frágil. Em 2025, considerado um ano menos favorável, o rendimento do setor caiu 6,6%, refletindo a redução de 34,6% nos apoios diretos aos produtores. O rendimento médio por exploração recuou 9,4% e a produtividade diminuiu 7,1%. E 2026 começa sob novos sinais de pressão externa, reabrindo a incerteza num setor estruturalmente vulnerável.

A resposta europeia mantém-se, em grande medida, reativa. Em março de 2026, a Comissão Europeia mobilizou 21,5 milhões de euros em apoios de emergência. Contudo, a questão de fundo permanece: grande parte destes apoios continua a reforçar estruturas existentes, em vez de promover a adaptação necessária.

É certo que o PEPAC, em Portugal, introduz sinais de mudança, apostando na digitalização e sustentabilidade, com 35 milhões de euros para modernização e 100 milhões em linhas de crédito. Ainda assim, a dúvida impõe-se estamos a transformar o modelo ou apenas a ganhar tempo?

A Europa procura alternativas, de Marrocos aos Estados Unidos, e avança com propostas para facilitar importações. No terreno, emergem soluções: matéria orgânica, microrganismos, rotação de culturas, pastagens com leguminosas e tecnologia de precisão. Apesar destes avanços, a dependência externa mantém-se elevada. A guerra não criou esta vulnerabilidade, apenas a expôs. E enquanto persistir, cada crise será menos uma surpresa e mais uma repetição.

A questão já não é esta crise. É a próxima.

Pós-graduada em Intelligence pelo ICSP- Universidade de Lisboa
Mestre em Governace, Leadership and Democracy Studies pela Universidade Católica