terça-feira, 21 jul. 2026

O futuro do Algarve não cabe num chapéu de sol

O Algarve vive do turismo, mas não pode viver apenas dele. Entre a biodiversidade, a economia circular e a inovação regenerativa, a região reúne condições únicas para se afirmar como um dos mais relevantes laboratórios vivos da Europa.

Se amanhã desaparecesse o turismo, o que sobraria da economia algarvia?

A pergunta é provocadora. Mas talvez seja precisamente essa reflexão que o Algarve precisa de fazer. Durante décadas, a região construiu uma marca de enorme sucesso assente no sol, na praia, na gastronomia e na qualidade de vida. O turismo é, legitimamente, o principal motor económico da região. Mas será suficiente para responder aos desafios das próximas décadas?

Num mundo marcado pelas alterações climáticas, pela escassez de recursos e pela perda de biodiversidade, talvez a questão mais importante seja outra: será que o Algarve quer continuar a ser apenas um destino de férias ou pretende afirmar-se como um território de inovação e experimentação para o futuro?

Nos últimos anos, cada vez mais residentes internacionais escolheram o Algarve não apenas para descansar, mas para viver. Procuram uma relação diferente com o território, mais próxima da natureza, mais sustentável e alinhada com novos valores sociais e ambientais. O que torna esta região especial não é apenas a sua capacidade de atrair visitantes, é a riqueza dos seus ecossistemas, a sua escala humana e a possibilidade de testar soluções inovadoras em contextos reais. O Algarve reúne condições únicas para funcionar como um laboratório vivo de inovação territorial.

A região pode afirmar-se como um espaço privilegiado para desenvolver novos modelos de economia circular, biodesign, bioeconomia, regeneração ecológica, tecnologias ambientais, agricultura sustentável, energias renováveis e valorização de recursos locais. Pode transformar desafios ambientais em oportunidades para gerar conhecimento, emprego qualificado e novas atividades económicas. Mas para isso, é fundamental reforçar a ligação entre empresas, comunidades, instituições públicas, universidades e centros de transferência de conhecimento capazes de transformar investigação em soluções concretas para o território. Um exemplo encontra-se ao longo da costa algarvia, onde a proliferação da alga invasora Rugulopteryx okamurae afeta praias, ecossistemas e atividades económicas ligadas ao mar (recentemente explorada na Conferência ALGA-FIX em Maio pelo Município de Portimão). A resposta habitual consiste em remover o problema, com suporte dos custos associados, mas também é uma oportunidade. A biomassa considerada resíduo está a ser transformada em biomateriais, fertilizantes, biocompósitos e embalagens sustentáveis. Aquilo que hoje representa um custo ambiental pode tornar-se um recurso estratégico. O que vemos como uma ameaça pode converter-se numa oportunidade de inovação, sobretudo para o sector privado. O mesmo raciocínio aplica-se ao debate sobre o aumento da capacidade dos aterros sanitários algarvios, mas a verdadeira questão não seja onde colocar mais resíduos, talvez a questão seja porque continuamos a produzir tantos!

Num território que pretende afirmar-se pela sustentabilidade, não podemos limitar-nos a discutir novos aterros. Precisamos de redesenhar, reduzir a quantidade de materiais que utilizamos, promover modelos de consumo mais conscientes, acelerar a adoção de

biomateriais e criar sistemas capazes de transformar resíduos em recursos, numa verdadeira transformação para uma economia circular.

O Algarve possui uma vantagem competitiva, porque tem biodiversidade, talento, instituições científicas, empresas inovadoras e capacidade crescente de transferência de conhecimento. E tem, sobretudo, a escala certa para demonstrar que outra forma de desenvolvimento é possível.

Naturalmente, o turismo continuará a ser fundamental, mas uma economia inteligente não coloca todos os ovos no mesmo cesto, e a resiliência constrói-se através da diversificação. Talvez tenha chegado o momento de complementar a MARCA ALGARVE. Ao lado do sol e da praia, devemos acrescentar ciência, inovação, sustentabilidade e regeneração.

Porque o futuro da região não depende apenas da sua capacidade de atrair visitantes, mas irá depender da sua capacidade de atrair ideias, de gerar valor e inovar pelo planeta e pelas pessoas.

E talvez, o maior desafio do Algarve seja precisamente esse: deixar de ser visto apenas como o lugar onde a Europa vem passar férias e passar a ser reconhecido como o lugar onde a Europa vem experimentar o futuro.

Phd Design
Diretora da Licenciatura em Design e do Mestrado em Biodesign
Professora no Mestrado de Design para a Economia Circular
ISMAT- Ensino Lusófona