terça-feira, 18 ago. 2026

Porque é que só pensamos na água quando ela deixa de sair da torneira?

Os sistemas de abastecimento de água, apesar de serem dos serviços públicos mais bem-sucedidos da história moderna, não são infalíveis.

Há algo curioso na forma como nos relacionamos com a água. Abrimos a torneira e esperamos, sem hesitação, que dela saia água potável, transparente, segura e disponível a qualquer hora do dia. Fazemo-lo dezenas de vezes por dia, sem pensar no caminho que essa água percorreu, nas infraestruturas que a transportam ou nas centenas de profissionais que garantem que ela chega às nossas casas. A água tornou-se uma certeza. E talvez seja precisamente por isso que raramente lhe damos valor.

Foi necessário que, durante várias semanas, milhares de habitantes da Costa da Caparica acordassem sem água nas torneiras para que este tema passasse a ocupar o espaço mediático e as conversas do dia-a-dia. As sucessivas roturas na rede de abastecimento, agravadas pelo aumento extraordinário do consumo provocado pelas elevadas temperaturas e pela população sazonal, deixaram famílias, comerciantes e serviços públicos perante uma realidade que muitos julgavam impossível num país desenvolvido: a ausência de um bem absolutamente essencial. A situação levou ao encerramento temporário de serviços, a protestos da população e à exigência de soluções estruturais, revelando a fragilidade de uma infraestrutura que normalmente permanece invisível aos olhos da sociedade.

Este episódio deve ser encarado como muito mais do que um problema localizado ou uma sucessão de avarias. É um sinal de alerta. Uma lembrança que os sistemas de abastecimento de água, apesar de serem dos serviços públicos mais bem-sucedidos da história moderna, não são infalíveis. E, sobretudo, de que a sua fiabilidade depende de investimento contínuo, planeamento de longo prazo e de uma utilização responsável por parte de todos nós. Portugal desperdiça cerca de 27% da água que entra nas redes públicas de abastecimento (serviço em baixa) devido a fugas, avarias e ruturas, o equivalente a 187,3 milhões de metros cúbicos por ano.

Vivemos numa sociedade que dá valor ao que vê. Reparamos quando uma estrada tem buracos, quando um edifício necessita de obras ou quando uma ponte é construída. Mas dificilmente pensamos nas centenas de quilómetros de condutas, muitas delas com décadas de existência, enterradas debaixo dos nossos pés. Grande parte destas condutas já ultrapassou o período de vida útil para o qual foi concebida e continuam diariamente sujeitas a pressões, vibrações, corrosão e a uma procura crescente. Enquanto funcionam, permanecem invisíveis. Quando falham, tornam-se notícia.

Existe ainda uma segunda questão que merece preocupação. Durante décadas, habituámo-nos à ideia de que a água era um recurso inesgotável. Abríamos a torneira sem pensar na origem daquela água ou na energia necessária para a captar, tratar, bombear e distribuir. No entanto, as alterações climáticas estão a mudar profundamente esta ideia. Os episódios de seca são mais frequentes, as ondas de calor mais intensas e a pressão sobre os recursos

hídricos aumenta todos os anos. A Península Ibérica é identificada como uma das regiões europeias particularmente vulneráveis ao agravamento das secas nas próximas décadas.

Quanto mais escasso um recurso se torna, maior deveria ser a nossa preocupação em preservá-lo. Mas a realidade mostra que continuamos frequentemente a utilizar água tratada para fins onde poderiam ser usadas fontes alternativas, desperdiçando milhares de litros diariamente em regas ineficientes, lavagens excessivas ou consumos pouco conscientes. A culpa não é de ninguém em particular, mas reconhecer que a gestão sustentável da água depende tanto das entidades gestoras como do comportamento individual. Nenhuma tecnologia substituirá aquilo que talvez seja o elemento mais importante: uma nova cultura da água.

Essa cultura começa nas escolas, onde se deve ensinar que a água não nasce na torneira. Continua nas famílias, através de hábitos de consumo mais conscientes. Estende-se às empresas, que devem investir em eficiência hídrica e reutilização. E chega inevitavelmente aos decisores políticos, que têm a responsabilidade de olhar para os sistemas de abastecimento como infraestruturas estratégicas para o desenvolvimento do país e não apenas como despesas de manutenção.

A verdadeira pergunta talvez não seja porque pensamos na água apenas quando ela deixa de sair da torneira. A verdadeira pergunta é se teremos a capacidade de agir antes que isso volte a acontecer.

Investigadores do Laboratório de Análises do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa