1.Mesmo perante o jogo miserável realizado pelo Sporting no Jamor, permitam-me a dureza da adjetivação, em contraponto com a exibição heroica do Torreense, ainda por cima, na semana com metade do descanso de que dispuseram os ‘leões’, não sou capaz de dizer que o Sporting fez uma época de muita parra e pouca uva, porque o apuramento direto para a Champions na linha do 2.º lugar conseguido na Liga portuguesa não pode nem deve ser reduzido a nada, como se ouve por aí, mas a verdade é que as expectativas foram colocadas no topo da pirâmide e é impossível ignorar que o Frederico Varandas apostou numa estratégia de confronto perante o adversário que escolheu como sendo o principal, o FC Porto, denominando André Villas-Boas de ‘mentiroso’ e ‘cobarde’, há cerca de 2 meses, num contexto muito específico, é um facto, porque durante a temporada AVB consentiu na jurisdição por si controlada alguns acontecimentos que não devem ter cabimento na competição desportiva.
2.Agora, Varandas veio corroborar a ideia de «falta de atitude» dos atletas ‘leoninos’ no Jamor (um facto indesmentível), mas há uma outra realidade também indesmentível: Varandas mudou e, esta época, empenhou-se em endurecer o discurso para dentro e para fora. E saiu-lhe mal, como lhe saiu mal a renovação do contrato de Rui Borges, antes de tempo, e estamos cá para ver os efeitos que isso vai provocar no futuro.
3.Frederico Varandas não gosta de ver o Sporting a ser confundido com as estratégias de atuação do FC Porto (nem com Pinto da Costa nem com AVB) e do Benfica (nem com Luís Filipe Vieira nem com Rui Costa), acho que isso até lhe causa algum desconforto porque entende que a sua forma de estar como dirigente desportivo não tem comparação, na defesa das reformas, com os seus principais rivais, mas é difícil não dizer, sem medo das palavras, que subestimou principalmente o FC Porto e colocou o Sporting num pedestal para o qual não estava preparado, apesar da conquista recente de um bicampeonato.
Isto é: o Sporting, durante a época, teve momentos que foi até melhor do que o FC Porto, mas a derrota sofrida em Alvalade, logo à quarta jornada, no final de agosto, foi um sinal de que a equipa de Farioli vinha para ‘jogar tudo’ esta época, por todas as razões e mais algumas, face ao que tinha acontecido no período logo a seguir à derrota de Pinto da Costa nas eleições, ao fim do ciclo de Sérgio Conceição e ainda ao terramoto que se instalara no clube.
O FC Porto era, de facto, o seu grande adversário, mas Frederico Varandas não aguentou a pressão que impôs sobre ele e sobre si próprio.
4.É uma realidade que não tem como encarar: André Villas-Boas, até por causa da sua afirmação enquanto presidente no universo portista, e sempre acossado pela ala que esteve sempre mais perto do ex-presidente, com a qual foi fazendo algumas aproximações, contrárias ao espírito de revolução interna que tinha prometido na campanha eleitoral, veio COM TUDO nesta temporada e, se não quisermos ficar estacionados nas questões da ética e da coerência, há que reconhecer que foi um dos principais vencedores da época, ao contrário de Varandas, que justificou a estratégia do FC Porto como uma forma de expressar um medo enorme pelas capacidades do Sporting. Excedeu-se, considerando o tamanho do sapato (leia-se plantel).
5.Há um bom par de anos sinalizei o momento em que, depois de ter valorizado o seu papel no clube de Alvalade e no contexto das propostas que considerava importantes para a mudança de uma certa mentalidade enraizada no tecido futebolístico nacional, acreditei na matriz de dirigismo que Varandas apregoava. Mas também sinalizei, mais recentemente, o facto de, em função dos êxitos entretanto conquistados, me parecer que o presidente ‘leonino’ se colocou numa posição de ascendente moral que lhe fez perder não apenas a humildade, mas também o foco e a fixação numa certa megalomania ou, se quiserem, de um muito vincado excesso de confiança.
6.Eu até sei que F. Varandas consegue transformar rapidamente um discurso de ambição – é super natural que quisesse ser o ‘presidente do tri’ – num discurso mais perto da naturalidade correspondente ao facto de não se poder ganhar em todas as épocas, agarrado às questões estruturantes que necessitam de tempo e de silêncios para serem implementadas. Mas, depois de tanta conversa e de tanto encher o peito, acabar a época com uma derrota na final da Taça de Portugal (parabéns Torreense!) da forma como perdeu, reconhecida por si, isto é, com a língua colada ao relvado, de tanto cansaço, após uma semana sem competição, e sem qualquer título conquistado, é evidente que a época sabe a pouco.
Dir-se-á que a culpa não é sua, Frederico, não é você que coloca os jogadores em campo ou a correr menos, não é você que gere a preparação física e mental, mas o problema é que foi você que identificou o maior problema do Sporting desta época, no dia em que deu como prémio ao seu treinador a renovação do contrato. E é isto que está em causa e não se entende.
7.O que fica estranho – para acentuar – é que este jogo com o Torreense voltou a identificar a falência física da equipa do Sporting como um todo, o que coloca em causa não apenas o trabalho de gestão desportiva de Rui Borges mas também os departamentos de performance que estão relacionados com a capacidade de resposta e a preparação dos atletas. As valências do plantel do Sporting não chegaram para ultrapassar não apenas o bom futebol mas acima de tudo a motivação psicológica da equipa de Torres Vedras, orientada por Luís Tralhão – e esse é um facto que não pode surpreender o presidente dos ‘leões’ porque foi ele, inesperadamente, que crucificou o seu treinador na cerimónia de renovação do contrato, quando afirmou que o problema do Sporting foi ter feito um esforço pouco inteligente (creio que a conclusão é legítima) para continuar na Champions, através do desgaste a que se expôs na reviravolta que conseguiu perante o Bodo Glimt. Um tiro no pé e algo que não pensávamos ser possível de uma forma tão brutal, mesmo depois de lhe ter identificado uma mudança de postura no futebol português. Viu-se agora, no Jamor, a confirmação de que
o Sporting deu o Bodo [Glimt]
aos pobres…
8.Espero estar enganado, mas como disse na altura o timing da renovação de Rui Borges não foi o melhor, apesar de o Benfica ter dado uma ajuda para – depois do empate do Sporting com o Tondela – ter devolvido o segundo lugar aos ‘leões’. E, a acontecer – a renovação – deveria ser no final da época, com todos os dados na mão, até porque Borges tinha mais um ano de contrato e não era suposto que o mercado estivesse a fazer uma pressão enorme para ele mudar de clube. Mas o pior não é isso.
9.O pior é que o Sporting perde a final da Taça com uma equipa da II Liga (o que nunca tinha acontecido na história da prova) e o ambiente é de potencial debandada, a evitar e a estancar, o que significa que a pressão sobre a escolha de novos jogadores que possam compensar algumas saídas, sempre a evitar, vai aumentar nas próximas semanas, apesar dos ‘alvos’ identificadas e das contratações já asseguradas.
Para já, parece tudo muito poucochinho, neste… ‘ciclo do raspanete’.
Todos podem evoluir, mas será que Rui Borges – apertado pelo presidente – vai ter estofo para uma situação que potencialmente não é famosa?!…
Sinceramente, duvido.
Por outras palavras: não deveria ter havido efetivamente mais cuidado com a renovação de Rui Borges?!…
10.Há algo que quero ressalvar em abono de Frederico Varandas: é muito difícil ver recusadas em AG Extraordinária da Liga propostas que fez claramente para melhorar o futebol e a Verdade Desportiva. E isso é tão redutor como matéria para análise futura.
Quanto a Rui Borges, e sob efeito do halo de uma certa debandada que se pressente perigosamente em Alvalade, e sem menos apreço pelas suas qualidades e sobretudo pela sua humildade: não se preocupe, o Jorge Mendes resolve!
O Jorge Mendes – como assinalei no artigo da semana passada – continua a resolver muita coisa, agora localizadamente na Segunda Circular!…