1.Alguém se consegue explicar? O futebol sempre foi uma ‘caixinha de surpresas’ e o chamado jogo-jogado concentrou a genuinidade da expressão porque não há dois jogos iguais, as incidências e os modelos tácticos podem ser semelhantes mas a variedade de soluções e, nos tempos modernos, o crescimento dos factores aleatórios que condicionam a capacidade de resposta de jogadores, treinadores e dirigentes – muito dependentes dos caprichos do mercado e das suas consequências – veio mitigar a retórica do planeamento e a natureza dos decantados projetos desportivos, que são cada vez mais uma miragem ou uma lengalenga-engana-tolos. As visões de curto-prazo e a ausência de estratégia.
2.Parafraseando José Mourinho, após o fecho do campeonato na Amoreira, «não somos parvos».
Para mim, e já vou explicar, ‘não somos parvos’ é a frase da semana porque disse muita coisa quando Mourinho explicava que não tinha contactos diretos com o Real Madrid e com Florentino Pérez e foi aí que utilizou, com sinceridade, a expressão ‘não somos parvos’, quando se referiu ao papel «do meu empresário [Jorge Mendes], que tem tido contactos com Florentino e com o Real».
Tudo dito (para quem quis compreender) e trocando por miúdos: acordo com o Real Madrid fechado! Não há duas leituras, embora nos quisessem passar por parvos durante as últimas semanas. E quando eu próprio assumo a frase ‘não somos parvos’, não estou a generalizar. Estou a reconhecer os seus méritos e a forma como Jorge Mendes lidou com tudo e com todos, de maneira a convencer Florentino Pérez que não tinha outra melhor opção senão reconstruir um balneário complexo como o do Real Madrid.
3.Já tentei explicar, publicamente, a razão pela qual entendo que Jorge Mendes foi o grande vencedor deste processo que ainda não está concluído mas que vai concluir-se em breve: avisou, sinalizou, manobrou, não acreditaram no seu poder de influência, colocou e tirou Mourinho do Benfica e, como não fez nem tinha perspetivas de fazer negócios com o Benfica, colocou-o no Real Madrid, com quem tem expectativas de fazer negócios com Florentino, se for reeleito.
O Real precisa de uma intervenção inteligente mas firme e Florentino Pérez não foi buscar um treinador promissor ou um técnico da nova vaga para gerir sensibilidades de estrelas que já não ouvem nada porque espirram e imediatamente cai um saco enorme de dinheiro a seus pés; foi buscar José Mourinho, que não estava – com todo o respeito – no Arrentela, ainda está no Benfica e o Benfica não era há muito tempo falado na Europa e no Mundo como está a ser agora falado, muito por influência de quem? Precisamente… de Mourinho. É preciso ser muito de vistas curtas para não entender isto!
4.‘Não somos parvos’ e quando traduzi que Jorge Mendes desaconselhava José Mourinho a não continuar no Benfica, podíamos ver isso de 3 maneiras:
1.ª: Pressionar Rui Costa a apresentar a proposta de renovação para Mourinho saber com o que poderia contar no futuro e se havia vontade efetiva (chama-se reforço de confiança) de o Benfica apostar nele para além de 2026-27, independentemente do que na altura podia ter, ou não, em carteira;
2.ª: Ter a noção de que, na verdade, tirar Mourinho do Benfica era não apenas fazer um favor a Mourinho, por não acreditar na gestão de Rui Costa, e, sobretudo, na gestão dos principiais conselheiros e apoios do presidente do Benfica;
3.ª: Dada sua boa relação com Florentino Pérez e condicionado apenas por timings relacionados com as eleições do Real Madrid, gerir esse ‘timing’ com a convicção de que, com a sua influência, podia colocar José Mourinho na ‘pole position’ das preferências.
5.«Não somos parvos», como diz Mourinho, e se a palavra final seria sempre do treinador português mais titulado de sempre, é evidente que só se pode dizer ‘não’ ao Real Madrid se o putativo interesse não passasse desse estádio de putatividade ou se a relação com o Benfica fosse uma ‘loucura’ assente num casamento com troca de votos apaixonados com Rui Costa, o que – todos sabemos – não aconteceu. E o que chegou a ser formalizado foi com separação de bens, com o ‘padrinho’, salvo seja, mais interessado num casamento… à espanhola. Salvo seja, outra vez.
Genial.
‘Não somos parvos’, e também percebemos que, depois de certos setores do Benfica terem apostado no ‘bluff’ de Jorge Mendes, a entrega fora de tempo de uma proposta ‘muito boa’ foi o quê? O cúmulo da teatralidade? Um acto de desespero, hipocrisia ou uma forma de negação para que não surgissem acusações de que, afinal, e desde sempre, a aposta em José Mourinho não foi sustentada numa ideia estruturante de médio ou longo prazo mas apenas num impulso em ambiente eleitoral?!…
6.Não somos parvos e, como analista, o que mais me custa a entender é exatamente isto: os contornos da contratação de Mourinho não ter fundamentação estruturante. Porque isso levanta um problema maior. Aqueles que votaram em Rui Costa por ter tido a capacidade de contratar Mourinho não têm motivos para se sentirem traídos com a sua indiferença de o deixar cair, não lhe apresentando em tempo útil uma proposta de renovação, que colocasse José Mourinho numa posição mais difícil para, acontecesse o que acontecesse na concretização dessa tal renovação, vir a dizer ‘não’ ao Benfica? Mas que raio de estratégia foi essa? A certeza do bluff ou a convicção de que, saindo da Luz – e de novo com todo o respeito – Mourinho só poderia ter a esperança de ser colocado no Arrentela, e mesmo assim por força da alta influência de Jorge Mendes?!…
7.Parabéns, caro Jorge.
Ganhou em toda a linha! Sabe o Jorge que não o vejo como um mero empresário de jogadores de futebol ou mesmo, quando querem dar-lhe relevância neste ‘mundo da bola’, como ‘o super-empresário’.
Eu vejo-o como alguém que mudou o futebol. Em muitos aspetos positivos e também alguns negativos, como não tenho deixado de assinalar sempre que me parece oportuno.
Sabe o Jorge que, quando os valores se tornam muitos altos, o dinheiro manda. Mais do que as amizades ou as manifestações de simpatia, o dinheiro manda.
E foi isso que o Jorge fez. Colocou o ‘mundo desportivo’ da Europa e do Mundo à roda, publicou manchetes, foi ‘player’ principal num dos casos mais apaixonantes que prendeu a atenção de muitos milhões de pessoas um pouco por todo o globo terráqueo e, se alguém tinha dúvidas, elas estão desfeitas: Rui Costa, José Mourinho, Florentino Peréz foram protagonistas mas você foi o grande vencedor deste folhetim. Que tinha o destino traçado por si. É Fabrizio, Chiringuitos da Malásia, catanços no Qatar em Galas fabricadas a ouro. Brilhante.
Você foi dos poucos que acreditou na ‘missão impossível’ e venceu.
8.Virando-me agora para José Mourinho: acredito plenamente que queria muito reunir as condições para ser campeão no Benfica. Mas também lhe digo: tratando-o como uma figura dos desenhos animados, tipo Pato Donald, mais vale ir gastar as suas energias e conhecimentos junto de alguém que precisa de si e acredita em si, mesmo que vá para dentro de um vulcão a jorrar lava por todos os lados.
9.Portugal é um país de coisas muito bonitas mas com uma mentalidade global tacanha. Não merece nem os seus mind games, nem as suas ironias, nem as meias verdades contadas em função dos timings e das oportunidades. Nem o esforço, nem o profissionalismo, nem a vontade contínua de querer fazer mais e melhor. Nada!
Adoro o meu país, mas estou sempre zangado com ele: porque os portugueses não apreciam a competência, não gostam de quem teve e tem sucesso (vide caso Cristiano Ronaldo) e são muito maledicentes, intriguistas e invejosos. Não reconhecem nada. O maior clube do Mundo não dá crédito por capricho, sobretudo a quem já teve muito sucesso em Madrid. E isso deve provocar, aqui, uma grande azia, que nem sequer se trata na farmácia. É um estado de alma mais do que uma patologia do estômago. É a chamada gigante úlcera nacional.
10.Estamos chegados ao ponto principal: e agora, Benfica? E agora, Rui Costa? O presidente do Benfica está legitimado pelos sócios mas sabe que hoje está muito mais frágil do que estava quando ganhou as eleições. E por isso precisa de agir com a consciência de que tem de olhar em redor e eliminar os défices que a sua estrutura apresenta. Com coragem, firmeza e privilegiando a competência. E, desta tribuna, lhe digo: veja bem o que vai fazer com a escolha do treinador! Se a escolha recair sobre Marco Silva (com todo a simpatia que tenho pela sua carreira), representado por Jorge Mendes, vai outra vez deixar que o diabo vista Prada? Neste caso, Mendes não é só o grande vencedor deste processo, como já o designei, mas merece a recondecoração de ‘dono disto disto’. Do Benfica à Seleção, passando quase sempre – como no Monopólio – pela… ‘casa da partida’. Masoquismo?