sexta-feira, 12 jun. 2026

Sem tabus: o efeito do comentariado desportivo

A arbitragem não é apenas um problema em Portugal, mas é muito um problema em Portugal. O outro concentra-se na comunicação e na relação entre os clubes e os ‘comentadeiros da bola’.

1.O FC Porto sagrou-se campeão nacional 25-26 e, considerando todos os fatores que podem determinar a chegada ao lugar mais alto do pódio (gestão desportiva e de mercado, liderança técnico-tática, resposta dos jogadores, comportamento dos principais competidores e fatores de natureza externa e arbitragem), é preciso dizer que a atribuição do respetivo troféu não merece contestação, a não ser para a ‘tribo dos fanáticos’ que há em todos os clubes e sempre encontram algo para manchar o mérito, até, dos melhores.

2.O campeonato está praticamente reduzido ao interesse principal pela conquista do segundo lugar, cuja luta está agora resumida a Benfica e Sporting. Os ‘leões’, que estiveram em posição privilegiada antes do acerto de calendário, perderam para as ‘águias’ o segundo lugar nesse jogo de acerto com o Tondela, mas o Benfica devolveu a ‘cortesia’ ao ceder dois pontos em Famalicão, num jogo de grau de dificuldade mais elevado, mantendo todavia a segunda posição do campeonato, porque no confronto direto, em caso de empate pontual, os ‘encarnados’ levam vantagem. O Benfica esteve a ganhar por 2-0, durante mais de uma hora (consentiu o empate aos 78 minutos) e a jogar um futebol de alta qualidade, mas Otamendi (que se deu a uma expulsão tão irresponsável como justa) e uma arbitragem incompetente, inaceitável num contexto em que está em causa o ganho ou a perda de dezenas de milhões de euros, tornaram possível a recuperação do Famalicão. O Benfica ficou com 76 pontos, o Sporting entretanto venceu o Vitória (5-1), regressando às boas exibições e ao nivelamento por cima do seu comportamento exibicional durante a época, e somou os mesmos 76 pontos, com a classificação final a depender daquilo que o Benfica fizer com o SC Braga, na Luz e no Estoril e daquilo que o Sporting fizer em Vila do Conde e com o Gil Vicente, em Alvalade.

3.A arbitragem esteve outra vez no centro do debate futebolístico e, após o empate em Famalicão, o presidente Rui Costa prestou declarações - e não foi brando: insinuou premeditação na arbitragem de Gustavo Correia e de Rui Oliveira, o VAR dessa partida. É claro que, debaixo dos interesses que estão em causa e da pressão dos resultados, que têm muita influência no planeamento da próxima época, conhecendo o padrão que está subjacente ao comportamento dos responsáveis dos clubes (presidentes e treinadores), não surpreendeu que Rui Costa viesse manifestar a sua indignação, embora ‘esquecendo-se’ de contabilizar a influência do ‘capitão’ (!) Otamendi no desfecho da partida em Famalicão. E não surpreendeu que a APAF apresentasse participação ao Conselho de Disciplina e já sabemos o que vai acontecer a seguir: uma multa e os devidos recursos até tudo ficar diluído na espuma dos dias.

4.A arbitragem é um dos principais problemas do futebol português, o VAR veio diluir a percentagem de ‘erros grosseiros’ que atravessaram a história da bola indígena antes da entrada em vigor da vídeo-arbitragem, mas mesmo sabendo que o VAR iria continuar a depender alguma coisa do fator humano, a verdade é que o número de erros, mesmo com a ajuda dessa ferramenta, continua a ser maior do que aquilo que se exigia a partir da sua implementação. Os árbitros foram achados há muitos anos como os ‘bombos da festa’ para mitigar outro tipo de incompetência e dá sempre muito jeito que eles estejam a jeito para disfarçar erros de contratação, más escolhas dos treinadores durante os jogos e erros capitais de jogadores em determinadas partidas. Não nos iludamos sobre isso, embora o corporativismo do setor da arbitragem revelar muita dificuldade em confessar as suas próprias debilidades.

5.Veja-se o caso da arbitragem de João Pinheiro nesta quarta-feira no Bayern-PSG que leva o PSG à final da Champions (com o Arsenal), marcada para o próximo dia 30, no Puskas Arena, em Budapeste. A imprensa francesa dedicou-se a sublinhar a resistência e a maturidade competitiva do PSG, com algumas referências às incidências do encontro, mas a imprensa alemã ‘carregou nas tintas’, considerando a arbitragem de João Pinheiro como «controversa», até «escandalosa», sem dúvidas em apontar que o critério disciplinar «inclinou o jogo» a favor da turma francesa. Limito-me a constatar os méritos do ‘PSG-tout-court’ (ação do treinador Luís Enrique e dos jogadores) e do PSG: ‘Pinheiro-Saint-Germain’, nas questões de dualismo disciplinar, mesmo que a UEFA lhe possa atribuir nota positiva, como penso que vai acontecer.

Difícil, todavia, não fugir à sensação dos ‘três mosqueteiros’, que são quatro como na conhecida obra de Alexandre Dumas: Vitinha, João Neves e Nuno Mendes… + João Pinheiro, uma espécie de ‘quadrado luso’ à solta na recusa de uma… Allianz… Arena. Quer dizer: ‘Arena, sim’: ‘Allianz, não’.

6.Em suma: embora, tecnicamente, os erros de facto possam ser contabilizados pela medida mínima (porque o lance do alegado penálti entre Vitinha e João Neves não tenha sido considerado por se tratar de uma bola chutada para o braço de um… colega, o que não deixa de constituir, digam o que disserem, uma regra bizarra), ninguém nos tira a sensação colhida pelos responsáveis do Bayern de uma arbitragem com contornos - como dizer? - ‘familiares’.

O que significa que há muitas formas de conduzir os jogos, independentemente dos erros que se contam para a classificação oficial… E é também por isso que a arbitragem vai ter muita dificuldade em se achar como um ‘não problema’ - a não ser que a Inteligência Artificial entre em campo, apresentando uma espécie de ‘árbitro-robot’. E mesmo assim…

A UEFA, nos cursos e seminários por si patrocinados, não tem, de resto, o direito de dar - na sua ‘Torre de Marfim’ e do alto da sua soberba - meia dúzia de indicações técnicas, não as divulgar com profundidade e a generalidade dos agentes desportivos não saberem dessas alterações que não são aduzidas às Leis do Jogo.

7. Voltemos a Portugal e não nos desviemos do tema de que os problemas do Benfica, Sporting, SC Braga e FC Porto dominaram a época doméstica e muito por força das queixas sobre a arbitragem. As pressões continuaram, todos se queixaram dos árbitros, das nomeações e de alegados erros e o fel - como também é haábito - também atingiu os comentadores desportivos, que muitos consideram ‘comentadeiros’. E sobre este ponto sensível também há algo a dizer, em função da oferta desproporcional que as nossas televisões oferecem, embora cada caso seja um caso, com as suas particularidades e cujo padrão pode causar maior ou menor recetividade de quem consome os conteúdos de natureza desportiva, para além da transmissão dos jogos.

8.Mesmo em causa própria, e independentemente dos graus de corporativismo que podem dividir os olhares, tenho a minha opinião sobre o tema: 90% das pessoas que comentam futebol dizem praticamente todos a mesma coisa. O entendimento do jogo gera desde logo perceções comuns e o que difere é a capacidade analítica, com mais ou menos informação sobre os factos e os protagonistas. São os outros 10% que fazem a diferença, mas a quantidade e a necessidade de preencher, diariamente, horas e horas em grelha, a rodar profissionais da informação ou meros ‘comunicadores’ com alguma, mesmo que ténue, ligação ao desporto/futebol, impõe uma espécie de ‘poluição audiovisual’ que, em minha opinião, não beneficia os 10% que poderiam impor essa diferença.

9. No comentário desportivo, que às vezes se transforma num ‘circo mediático’, juntam-se ex-dirigentes, ex-treinadores, ex-jogadores, ex-árbitros, muitas vezes convertidos em ex-agentes desportivos-adeptos e, às tantas, vale tudo menos arrancar olhos, o que não ajuda a dignificar não apenas a modalidade mas também o processo de projetar uma boa imagem do processo complexo de ‘fazer televisão’. Nesse ‘circo mediático’, também por questões de potenciar sinergias de grupo, às vezes juntam-se profissionais de informação desportiva, que nalguns casos e diretivamente não têm problema nenhum em juntar profissionais de outras áreas ao debate (sejam políticos e outros artistas, e é comum ver-se comentadores de política a comentar futebol mas não se vê comentadores de futebol a comentar política e quando isso acontece lá vem o estigma que todos conhecemos).

10. Sem tabus e sem medo das palavras: as principais vítimas que ajudam a camuflar os erros que se cometem na vida dos clubes são os árbitros e a comunicação social. E se, como se infere deste artigo, cada segmento destas atividades está muito relacionado com o ambiente tóxico que se vive no futebol em Portugal (tem de haver limites para a exposição do fanatismo e para a utilização de uma linguagem baixa e sem nível), também não nos podemos afastar da ideia de que, nos clubes dominantes, alguma coisa tem de mudar radicalmente. Porque isso também ajudará a impor a ‘Lei dos 10%’ e a consagração de um ambiente melhor, com vantagens para todos.