1.Rui Costa e José Mourinho, nem na atualidade futebolístico-benfiquista, estão evidentemente bloqueados no ‘estreio de Ormuz’ (bloqueados estamos todos nós), mas nas últimas semanas perpassou a ideia, de facto, de haver um bloqueio no – como dizer? –… ‘estreito de OrLuz’, entre Rui Costa e José Mourinho.
2.Pode nem ser um bloqueio; pode ser uma questão de ‘timing’ e de ‘acerto de agulhas’. Chamem-lhe o que quiseram. Há promessas de desanuviamento e há o papel de ‘Israel’, perdão… de Jorge Mendes. E como acontece nestas coisas ‘jogam-se’ não apenas ideias. ‘Jogam-se poderes’.
3.O Benfica foi vencer em Alvalade e muitos acreditavam que uma derrota no terreno do bicampeão nacional poderia constituir o fim de linha para José Mourinho, por tudo o que havia sido dito nas últimas semanas.
Tudo começou com a revelação feita aqui, nesta tribuna, segundo a qual o representante de José Mourinho, Jorge Mendes desaconselhava o treinador do Benfica em continuar na Luz.
Provavelmente, essa visão assentava em 2 pressupostos:
1.º) A visão do agente sobre a dificuldade do Benfica poder oferecer a José Mourinho aquilo que ele pretende para ser campeão nacional na próxima época e corrigir algumas das aquisições realizadas no mercado de Verão;
2.º) A certeza do agente sobre a possibilidade de colocar José Mourinho num clube de prestígio, embora – podendo estar errado, porque já passou muito tempo e as coisas podem mudar – não acredite muito na hipótese-Real Madrid, a avaliar a forma como as coisas azedaram entre o treinador e o presidente Florentino Pérez aquando da saída de Mourinho do Bernabéu.
Convém ter alguma memória, embora, repito, as coisas, hoje em dia, mesmo nas relações interpessoais, mudam muito rapidamente, sobretudo e quase sempre porque o amigo do teu amigo meu amigo não é – e lá começam as desconfianças, as teorias da cabala e tudo aquilo que a imaginação humana consente. Mas Mendes é Mendes e de um teimoso (Muitas vezes no bom sentido) há sempre que contar com um coelho tirado da cartola.
4.Vamos lá falar claro: Mourinho queria muito regressar ao Benfica. Tinha estado na Luz há 25 anos, entretanto fez uma notável carreira na Europa, foi inclusive campeão europeu pelo FC Porto – e até há pouco tempo todos o faziam portista do coração.
Depois de ter saído do Fenerbahçe, já havia rumores e estava em trânsito para a Luz quando foi recebido e homenageado no Dragão, em setembro do ano passado, no jogo da 5.ª jornada com o Nacional e encontrava-se na tribuna presidencial, muito perto do presidente André Villas-Boas, enquanto era aplaudido e os ecrãs mostravam alguns dos momentos mais marcantes da passagem de José Mourinho pelo FC Porto.
A sua contratação pelo Benfica (logo a seguir, 5 dias depois) provocou um choque, não apenas na nação portista que achava que Mourinho, pelo seu passado e conquistas de azul-e-branco, nunca mais voltaria a representar os ‘encarnados’, depois daquela experiência no início deste novo milénio antes de começar a construir no FC Porto uma carreira de indubitável valor, mas também um choque, neste caso positivo, entre muitos benfiquistas, quando Rui Costa – na antecâmara da campanha eleitoral, a 37 dias das eleições – decidiu contratá-lo e substituir Bruno Lage.
Ficou célebre a frase: «Quem é o treinador que diz NÃO ao Benfica?!».
5.Ter Mourinho na Liga portuguesa, mesmo para aqueles que já o consideravam ‘velho e ultrapassado’ – a blasfémia que alguma crítica, mais ou menos juvenil, gosta de utilizar para desvalorizar o significado do que foi feito e daquilo que ainda é possível fazer, em contextos favoráveis (sobretudo quando se escolhem planteis e se fazem as respectivas pré-épocas, o que não foi o caso) – era e é visto como um acontecimento.
Um acontecimento que depois ficaria marcado, como em todas as situações análogas, por um conjunto de resultados que ficaram, pelo menos até ontem, aquém das expectativas geradas pela sua contratação, embora se soubesse que ela havia sido concretizada num contexto de um plantel que oferecia algumas dúvidas, agudizadas com a saída de Akturkoglu, que valia muito taticamente através dos seus movimentos a partir do lado esquerdo. Lado esquerdo que subitamente ficou vazio e, de resto, as entradas de alguns jogadores, antes da ‘era Mourinho’ já colocavam algumas questões ao nível do compromisso, situação que o atual treinador dos ‘encarnados’ identificou logo à chegada: «É preciso morder mais». Uns nem chegaram a morder, Lukebakio, que podia ser a solução de criatividade que Di Maria deixou em branco, acabou por se lesionar, os outros que lá estavam e de quem se esperava que mordessem um pouco mais, como Enzo Barrenechea e até Richard Ríos, que sempre pareceram estar mais preocupados com outras vicissitudes para além do compromisso em campo, e também Sudakov, talvez pelo drama vivido na Ucrânia ou por razões mais chegados ao seu perfil, também nunca conseguiu afirmar-se.
6.Valeram Aursnes (sempre!, e a sua lesão recente logo condicionou todo o grupo, assim como aconteceu com Dedic, cujo valor nunca esteve em causa), a generosidade e aplicação de Leandro Barreiro, a afirmação de Dahl, o crescimento de rendimento de Schjelderup e Prestianni (ainda assim no meio do grave terramoto que se gerou com Vini Jr, na Champions e do qual ainda se espera acção disciplinar por parte da UEFA), a utilidade e os contributos, ainda assim com altos e baixos, de Otamendi, António Silva, Tomás Araújo e o caso do 8 e 80 de Trubin, como aliás se voltou a ver em Alvalade.
Quer dizer: é normal que José Mourinho, para continuar, quisesse ter a noção de que Rui Costa e os restantes decisores do Benfica não tinham a mínima dúvida de que estão perante o homem certo para reabilitar o clube encarnado na senda dos títulos, depois de uma primeira abordagem cheia de sombras e condicionalismos. Esqueçam a lengalenga da procura de mais dinheiro e gerar condições para mais indemnizações chorudas, o assunto é demasiado sério e, se não for tratado como tal, mais vale cada parte ir à sua vida, com os custos que isso representa, sobretudo para o clube da Luz. E o posicionamento de Rui Costa?
7.Perante os sinais de incómodo verbalizados por terceiros (pelas minhas contas, com 90% de especulação e falsidades e 10% de assertividade), Rui Costa o que fez? Olhou para o passado e para os custos das anteriores reformulações de planteis, olhou também para as sugestões de reforço pedidas neste inverno por Mourinho (Rafa e Sidny Cabral), olhou para a classificação e a hipótese de ficar sem Champions (e portanto com menos 40 a 45 M€ para utilizar) e terá pensado: há um contrato válido até 2027, com possibilidade de ser revogado até dez dias após terminar a época em torno de uma indemnização da parte que o queira denunciar, para quê antecipar uma situação que não está clara em muitos aspetos, sobretudo em termos de certezas sobre investimentos, compras, dependentes de vendas, etc., etc.? A questão da indemnização entretanto ficou colocada de lado (pelo menos no lado ético, independentemente das questões jurídicas porque ambas partes convergiram, através de declarações públicas) e o tema ficou reduzido à questão das vontades e das condições técnico-desportivas para se chegar ao sucesso em 2026-27.
8.Os dois tinham, afinal, as suas razões que a comunicação social aproveitou, na infinitude dos seus programas diários em todas as estações, com gente que não vai à cama para aparecer na pantalha, mas esta vitória do Benfica em Alvalade muda tudo: antes, o ‘jogo’ do gato e do rato entre o treinador e o presidente tinha argumentos a favor e contra, mas a forma concludente como Mourinho montou a equipa e sobretudo a forma como bateu o bicampeão nacional virou o dito jogo a seu favor.
A questão é simples: Rui Costa não acha que o plantel que validou no passado seja tão mau; Mourinho entenderá que ainda há jogadores sem perfil para o que pretende fazer no Benfica.
Esta é a parte do acordo que vai ser, em princípio, formulado nos próximos dias.
Faltava também um resultado destes para Rui Costa perceber que o grau de confiança dos adeptos aumentou em relação a Mourinho (um dos factores que podia fazer vacilar o presidente) e, se é verdade que uma proposta de renovação neste momento poderia agudizar a sensação de desconfiança antes do jogo de Alvalade, pelo menos – mesmo que não seja público neste momento – o acordo deve ficar devidamente selado.
9.E aqui, se me permitem, entra a minha opinião, que vale apenas como opinião, sem a mais pequena ponta de interesse, ao contrário do que vejo por aí: José Mourinho é o homem certo para, com os ajustamentos necessários, ajudar o Benfica a adquirir tal mentalidade de que falo tantas vezes. E a opção é mesmo entre apostar nas dinâmicas erráticas (cada treinador tem uma ideia diferente de plantel) ou perceber que, com Mourinho, é preciso trabalhar. E como o Benfica precisa de trabalhar e abandonar o seu estatuto de Bela Adormecida!
10.Como sabemos neste conflito entre Estados Unidos e Irão (e não só) tudo pode acontecer, no estreito de Ormuz. No ‘estreito de OrLUZ’ também tudo pode acontecer porque andamos assim, na flutuação dos dias. Mas a minha previsão aqui fica: o ‘conflito’ ficará resolvido antes do fim da época. Talvez nos próximos 10 a 15 dias. E depois haverá muito para contar sobre o… ‘preço do combustível’.