1.Lembram-se quando, nestas honradas colunas, escrevi pela primeira vez sobre o ‘estreito de OrLUZ’? Foi naquilo que se transformou, de facto, a dispensável novela relacionada com a renovação do contrato de José Mourinho com o Benfica. O ‘estreito de OrLUZ’ é uma expressão metafórica daquilo que vem acontecendo no estreito de Ormuz. Foi abrindo e fechando, num jogo de poderes.
No Benfica há um estreito e, no eixo Lisboa-Madrid, há um jogo de poderes. E em ambas as situações houve avanços e recuos porque, na verdade, independentemente da proclamação de poderes absolutos, não há poderes absolutos. Tudo depende de circunstâncias que se vão definindo no dia-a-dia, consoante a acção ou a reação de parceiros ou outros factores, como por exemplo — vocês entendem — o preço do barril.
2.A sensação que se colhe, no encerramento do campeonato, é que o Benfica deixou correr o assunto como se tivesse estendido a toalha no areal para ir a banhos. E o banho está à vista. Rui Costa colocou-se na posição da Alice na Alice no País das Maravilhas. Dá a sensação de que o presidente caiu na toca do coelho. Não há ninguém, no Benfica, a agitar as águas e diga que a realidade é uma coisa e as fantasias são outras? No final do jogo na Luz, pois claro, lá veio a explosiva Rainha de Copas a proclamar: «cortem-lhe a cabeça»! E quem está a fazer o papel de Chapeleiro Louco, a figura metafórica de quem se acha na cabeça do presidente?
3.José Mourinho está pelo menos em ‘duas frentes’ até ao jogo com o Estoril.
Obrigaram-no a isso, que fique claro.
Achamo-nos neste momento na situação bizarra de Mourinho estar sob contrato ao serviço do Benfica, com mais uma jornada por cumprir da Liga, no Estoril, e a preparar, em tom de despedida, a próxima época ao serviço dos ‘encarnados’. Ou será dos ‘brancos’?!
Retenham para memória futura: «Diverti-me muito com este grupo e fui para o treino sempre feliz» e «que nenhum idiota toque na minha dignidade, honestidade e respeito pelo Benfica». Mas o bizarro acentua-se quando se percebe que não apenas o Benfica falhou o timing de renovação, quando Mourinho lhe deu todos os sinais para que isso pudesse acontecer, e já foi há mais de um mês, como se disponibilizou a preparar a próxima temporada, tudo isto um pouco antes de se saber que o Real Madrid podia entrar na corrida pelo técnico português.
4.Quase ninguém deu crédito, a não ser na Media Capital, à informação-considerada-‘bomba’ que trouxemos ao “Rui Santos Em Campo”, na CNN, a partir da qual [e passo a citar] «Mourinho está a ser aconselhado por Jorge Mendes a não continuar no Benfica».
Foi no dia 6 de Abril, há um pouco mais de um mês e a partir desse momento nem Rui Costa nem os seus conselheiros fizeram a única coisa que deveriam ter feito: pegar nas palavras de vontade de renovação de José Mourinho, que cedo deu esses sinais, e ‘fechar o assunto’, mesmo que os resultados não correspondessem totalmente, na altura, às expectativas de quem decide e dos próprios adeptos.
5.A desconfiança interna de que Mourinho estava a fazer bluff para conseguir um melhor contrato no hipotético momento de renovação com o Benfica, colocando com a ajuda de Jorge Mendes as lebres da imprensa a correr por todo o lado, sobretudo aqui na península ibérica, se existiu, e permitam-me a franqueza, é o cúmulo da insegurança. Como é o cúmulo da insegurança alguém poder achar que o processo de renovação de Mourinho não poderia ser controlado por ninguém: nem pelo próprio Mourinho (como se ele fosse comparável a qualquer treinador que passou nos últimos anos pela Luz) nem pelas correntes de opinião que discorrem sobre prazos, timings ou o que se lhes quiserem chamar.
Uma aposta certa transformou-se numa brincadeira, num processo — como dizer? — até infantil.
6.Por respeito aos leitores deste honrado semanário não posso deixar em claro algumas observações que fiz, com base em análise e informação, no sentido da iminência de um acordo entre Benfica e José Mourinho e, no dia 24 de Abril, demos à estampa nestas colunas que esse acordo poderia ser fechado antes do final da época e apontámos o desfecho para «os próximos 10 a 15 dias (ou mesmo antes)», o que quer dizer que, considerando a previsão, repito, com base na leitura da sensibilidade de ambos os lados, o prazo dado terminava em 9 de Maio.
Hoje estamos a 15 de Maio e, entretanto, o que houve? Um recrudescimento das notícias do reforço do interesse do Real Madrid em José Mourinho, também porque o contexto em que se moviam mudou: ainda agora o Real anunciou a imposição de uma sanção histórica de 500.000€ a Valverde e Tchouaméni, por questões de indisciplina.
De repente, para alem de muitas ilimitadas histórias, Benfica e Real encontram-se (por mais dois ou três dias, no mínimo) na rotunda da indefinição. E Mourinho, de repente, pode assumir a condição, em dois tempos, de ‘trunfo eleitoral’. Curioso.
7.Como tive o cuidado de assinalar ab initio, Jorge Mendes esteve sempre de corpo inteiro neste processo e Jorge Mendes, quando mete uma coisa na cabeça, vai até ao fim. E foi esta subestimação sobre o ‘poder dos dinossauros’ que o Benfica desprezou.
O que se passa em Madrid é indescritível. A falta de profissionalismo, a falta de liderança, craques que não revelam um mínimo de afã madridista, como Mbappé e Vini Jr., casos de indisciplina graves, como foi este entre Tchouaméni e Valverde, Mbappé desligado na derrota em Camp Nou — e sabem o que se disse no universo do Real? Com a chegada de Mourinho, acaba-se o Real Madrid de Mbappé e de Vini. Jr; transforma-se no ‘Real Madrid de Mourinho’. Porquê? Porque lhe reconhecem skills de liderança.
8.Também falei, a certa altura, num ponto que poucos estão a considerar e que estão relacionados com aquilo a que chamei o «processo de Mourinhização do Benfica», quer dizer, o centro de poder do Benfica estar acima de tudo controlado por Mourinho, algo que nunca foi confessado como desejo pelo treinador, mas por aquilo que se pode concluir em função das características das pessoas que estão directa ou indirectamente relacionados com tudo o que se passou à volta deste processo. Sinceramente, acho que muita gente se ASSUSTOU. Assumo a conclusão, com todo o respeito que tenho pelo presidente dos ‘encarnados’: Rui Costa, quando trocou Bruno Lage por José Mourinho, parece impossível mas não sabia que tipo de treinador é que estava a contratar.
9.Uma coisa eu sei: a partir do momento que Rui Costa optou por José Mourinho, tinha de fazer tudo para manter Mourinho, porventura (já é uma questão de perspectiva, na lógica da ‘aposta estruturante’) até final do seu mandato. E, no final, assumia ou louros ou as dores dessa decisão. E fazer tudo para manter Mourinho incluiria, se necessário, ter de ir até Madrid a pé. Se bem me entendem. Não (!), ‘a estrutura’ o que fez? ‘Foi’ para as Maldivas.
Todo o processo foi muito mal conduzido e não é assim que se olha para os níveis de confiança de uma equipa de futebol que está a lutar por um objectivo que vale milhões. A renovação do contrato de Mourinho não deveria ser tema e a ‘bomba’ vai explodir nas mãos do presidente. Que precisa de se explicar. Porque tem de haver razões muito profundas para Rui Costa patrocinar o esvaziamento de um treinador como José Mourinho. E, se não há, o caso fica feio.
10.E agora? A perspectiva de mudar tudo de novo e atirar fora conceitos de competitividade que estavam a ser incutidos, a custo, no plantel, encontrar um treinador que aceite encaixar-se num Benfica que procurava uma identidade relacionada com exigência. Jogar outra vez na roleta, com Rui Costa cada vez mais exposto. Se o presidente do Benfica pensar exclusivamente no impacto junto dos sócios e adeptos da mais que provável saída de Mourinho a aposta em Rúben Amorim seria talvez a melhor. Era preciso que Amorim estivesse para aí virado. E atenção: o contexto que Amorim apanhou no Sporting não é o mesmo que apanharia no Benfica. E contratar Amorim seria também ‘contratar’ a ‘estrutura invisível’ do treinador português, que pouco ou nada conseguiu fazer na passagem dolorosa pelo United, onde certamente aprendeu muito e se fez mais treinador.
Disse, há tempos, que o Benfica ia sangrar e a pior coisa que Rui Costa pode estar a deixar passar junto dos seus detractores é que, porventura, não tem dimensão de liderança para ser presidente do Benfica. E isso é dramático para o clube e sobretudo para ele.
Exame
TRINCÃO
16
A culminar uma bela época de um jogador que muito evoluiu no SCP, a cobiça. Justificada.
SCHJELDERUP
16
De ‘arrumado” a coqueluche do Benfica. Alguém que brilha/brilhe entre os ‘encarnados’.
ZALAZAR
15
Bom jogador, mas não para 30M€. Viu subir a cotação numa semana. Mourinho queria-o. SLB não foi a jogo e o SCP acreditou.
DIOGO COSTA
14
Sem jogar, na segunda derrota do FCP na Liga, deu conta da sua importância.